Filme luso-mineiro ganha o Prêmio Especial do Júri de Cannes

Filme luso-mineiro ganha o Prêmio Especial do Júri de Cannes

Rodrigo Fonseca

18 Maio 2018 | 12h21

Rodrigo Fonseca
Um dos filmes mais aclamados pela crítica no Festival de Cannes de 2018, o longa-metragem luso-mineiro “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” ganhou o Prêmio Especial do Júri no encerramento da mostra Un Certain Regard, coroando o mergulho da diretora paulista Renée Nader Messora e de seu parceiro lisboeta João Salaviza no universo dos índios Krahô. O time de jurados presidido por Benicio Del Toro deu o troféu principal, o Prêmio Um Certo Olhar, para o thriller fantástico sueco “Border“, de Ali Abbasi, sobre uma oficial de fronteira que tem um caso com uma criatura sobrenatural. Sergei Loznitsa ficou com a láurea de Melhor Direção por “Donbass” e Meryem Benm’Barek ficou com o prêmio de melhor roteiro por “Sofia“. O prêmio de Melhor Interpretaçãocoube a Victoe Polster, por “Pour Girl“.
Amanhã serão conhecidos os ganhadores da Palma de Ouro, cujo júri é presidido pela atriz Cate Blanchett.

Em Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, Renée e Salaviza discutem o sentido filosófico de permanência a partir dos confrontos de um jovem indígena com as tradições de seu povo, no Tocantins. Em sua exibição, o P de Pop, encantado, escreveu:

Nos momentos finais da experiência metafísica (de descoberta e de ruminação) chamada “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, ouve-se uma criança, na terra dos Krahô, no Tocantins, dizer “Pode vir”. Dali… momentos depois… temos a imersão de seu protagonista, Ihjãc, nas águas de um rio… num gesto de recomeço. Falar seu final, embora seja falar o final de uma ficção, não esbarra em spoilers, pois não há desfecho para o que se supõe permanente, em especial, na Natureza. E a ideia de spoiler é um conceito de formtação, para produtos… e o filme da paulista Renée Nader Messora e do lisboeta João Salaviza não é produto; é gesto, é rito… um dos gestos/ritos mais potentes de Cannes em 2018. Veio das palafitas da Un Certain Regard, mas merecia estar concorrente à Palma de Ouro, por ser, de longe, melhor e mais relevante do que metade dos competidores deste ano. Em sua Seção, ele é o melhor, seguido (de longe) por Border, de Ali Abbasi. Feito de gestos simples, por uma equipe diminuta, numa ponte de produção entre MG e Lisboa, pela mesma grife do seminal “Elon Não Acredita Na Morte” (2016), o longa tem sido descrito como “filme de índio”. É… tem índio nele… é COM índios ele… mas o rótulo não dá seu tônus. “Chuva é Cantoria Na Aldeia dos Mortos” é um ensaio sobre a permanência… seja da Tradição… seja do desejo de rebelião. Vemos, a partir da estética de observação da dupla de diretores, rituais de Tânatos com palha queimada. É a tradição reinante. E vemos o mesmo jovem engolfado por essa tradição, Ihjãc, driblá-la jogando “Street Fighter” num fliperama. É Heráclito x Parmênides. Uno x Misto. Passageiro x Indissolúvel. São contradições que se casam numa narrativa arrebatadora, que faz lembrar o precioso Triste Trópico (1974), de Arthur Omar. Um dos filmes que farão deste Cannes 71 um festival memorável.