Festival de Moscou aplaude o Urso de Ouro 2021

Festival de Moscou aplaude o Urso de Ouro 2021

Rodrigo Fonseca

28 de abril de 2021 | 10h09

“Bad Luck Banging or Loony Porn” (“Babardeala cu bucluc sau porno balamuc”), da Romênia, pede passagem pela maratona cinéfila russa

Rodrigo Fonseca
Previsto para terminar nesta quinta-feira, tendo três filmaços entre seus favoritos a prêmios, o Festival de Moscou parece dividido entre a crônica social à moda norueguesa de “Him”, da diretora Guro Bruusgaard; a distopia cubana de “Corazón Azul”, de Miguel Coyula; e a ironia de “#dogpoopgirl”, de Andrei Hutuleac, o representante da Primavera Romena. Deste mesmo movimento, o mais vívido e duradouro do cinema contemporâneo no século XXI, a 43ª edição da maratona russa recebeu mais um filmaço, coroado no dia 5 de março com o Urso de Ouro da Berlinale 2021: “Bad Luck Banging or Loony Porn” (“Babardeala cu bucluc sau porno balamuc”). Escalado para uma mostra paralela do evento moscovita, essa comédia é mais uma comprovação de que a criatividade e a ousadia da Romênia, nas telas, não têm fim, sobretudo ao fazer da pandemia da covid-19 parte de sua narrativa. Hilário do começo ao fim, mesmo quando sua câmera está apenas a observar o vaivém das ruas, seguindo sua protagonista, a professora Emi (Katia Pascariu), esse conto moral dirigido por Radu Jude (de “A Nação Morta”) já incorpora as máscaras de proteção ao coronavírus entre seus personagens, datando sua narrativa ao surto pandêmico do presente. A partir da histeria que se vive hoje, em meio aos confinamentos, a comédia de Jude acompanha, em três atos distintos, a história do ataque a Emi depois que uma gravação dela fazendo amor com seu marido vaza na internet. A primeira parte é a reação dela às acusações e o impacto dessas em seu dia a dia. A segunda (e genial) parte é uma livre (e põe livre nisso!) montagem de cenas com conexões eróticas e políticas, tiradas de arquivos. E a parte final, mais teatralizada, é o julgamento dela. Em cartaz na MUBI (um dos streamings que mais crescem em popularidade na web hoje) com “Uppercase Print” (2020), Jude define seu trabalho mais recente como uma seleção de esquetes. Seleção essa que ataca a hipocrisia nossa de cada dia e a cultura online do ódio.
“Tudo bem em as pessoas sentirem ódio e não gostarem do que o outro faz, mas daí a bater palma para a cultura da brutalidade que as redes sociais alimentam hoje, a partir do direito de se expressar livremente tudo o que se quer… celebrar isso, não. E esse filme é um estudo sobre como a agressividade avança e a solidariedade cai”, disse Jude ao P de Pop.

Nada fez mais barulho na Berlinale do que “Bad Luck Banging or Loony Porn”, dada a maneira inusitada como seu diretor retrata o quão hipócrita a Europa – e não só ela – é em relação ao sexo. E esse barulho agora ecoa por Moscou. “A hipocrisia reina sobre uma romena que veta o erotismo nas TVs, mas alimenta um mercado clandestino de produtos sexuais”, diz Jude.
Desde 2005, quando “A Morte do Sr. Lazarescu”, de Cristi Puiu, hoje no menu da Netflix, brilhou em Cannes, a chamada Primavera Romena se impôs como o mais sólido movimento estético do cinema no século XXI, com ataques ao moralismo. “É preciso estar atento às brutalidades do real”, diz Jude ao Estadão.
Prometido como filme de encerramento das atividades de Moscou, o musical finlandês “Le Café de mes Souvenirs”, do ator Valto Baltzar, pode arrancar baldes de lágrimas de quem tem acompanhado o evento online – e presencialmente – com sua homenagem a Jacques Demy (1931-1990) e à sua obra-prima na direção: “Os Guarda-Chuvas do Amor” (Palma de Ouro de 1964). No longa de Baltzar, fotografado com excelência por Kimmo Koskela, uma garçonete vive uma paixão por um professor de Francês, sendo boicotada por sua mãe controladora.

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