Festival de Marrakech à luz de Casablanca

Festival de Marrakech à luz de Casablanca

Rodrigo Fonseca

02 de dezembro de 2019 | 06h06

RODRIGO FONSECA
Considerado pela crítica mundial e pelo público (ponha aí uma legião de fãs) um dos maiores filmes da história do cinema, “Casabalnca” (1942) – ganhador dos Oscars de melhor filme, direção e roteiro – imortalizou no imaginário mundial a ideia de que a cidade marroquina que lhe empresta o nome é uma terra de romances e mistérios. Aproveitando a visita ao Festival de Marrakech, que recebe Harvey Keitel, nesta segunda-feira, para uma palestra sobre a arte de atuar, o P de Pop foi visitar o local, encarando duas horas e meia de trem, a fim de provar das iguarias do Rick’s Café. O espaço é uma homenagem ao personagem central do clássico de Michael Curtiz (1886-1962), o americano expatriado no Marrocos Rick Blaise (Humphrey Bogart, genial), cuja paixão por Ilsa Lund (Ingrid Bergman) é regada pela canção “As time goes by”, na voz de Dooley Wilson (1886-1953), o luminoso Sam. Lá, o menu é caro. Mas o cheesecake com chocolate quente vale o custo: R$ 43. A visita à Medina e à Mesquita Ancestral é igualmente refrescante para os olhos, e para a fé no intercâmbio cultural.

Nesta segunda, fora da competição oficial, a atração nº 1 do dia é a projeção de “Technoboss”, uma das sensações da Mostra de SP. Lançado em Locarno, em agosto, este experimento cheio de canto e de metafísica dirigido por João Nicolau (“John From”) bateu como uma injeção de ânimo nas veias da crítica, com seu humor galhofeiro e a revelação de um potencial astro: o advogado septuagenário Miguel Lobo Antunes. A comédia musical (cheia de aversões aos dogmas do realismo), vem arrancando elogios na Europa, mesmo quando divide opiniões, por sua singular comicidade e pelo carisma de Miguel. O veterano jurista, já reformado, afirma ser primo (sabe-se lá de que grau) do músico e compositor brasileiro Edu Lobo. Mas o sobrenome dele nos soa familiar por outras vias, a da literatura: o doce sujeito é irmão do escritor luso António Lobo Antunes, autor de “Os cus de Judas”. Diz ele que jamais atuou antes, tendo atraído o olhar de Nicolau ao dançar em uma festa. Mas quem vê seu desempenho, pautado pela leveza, requebrando-se em cena, duvida disso.

“Meu único objetivo no set era deixar o João feliz, agradá-lo… mantendo a esperança de que possa deixar os espectadores satisfeitos também”, disse Miguel a uma revista de Portugal, a “Metrópolis, ao fim da projeção de “Technoboss” a uma sorridente imprensa. “Pra uma pessoa que nunca fez nada no cinema antes, estrelar um filme inteiro é algo que só se faz às custas de muito trabalho. Ensaiei com Nicolau de junho a agosto do ano passado e tive umas aulas de canto”.

“Technoboss”: musical luso

Apesar de toda a sua humildade aparente, Miguel consegue fazer um levante contra os formalismos mais semióticos do cinema autoral europeu à frente de “Technoboss”. Essa mistura de “Harry and Tonto” (1974) com esquetes de Jacques Tati em “Meu Tio” (1958) contagiou a disputa por prêmios com seu humor e suas melodias. Aberto a maluquices como rebolar ao som de “Asereje”, Miguel brilha no papel de Luís Rovisco, mais antigo representante de uma firma de câmeras de segurança, monitores e sensores de cancelas. O dia a dia da SegurVale – Sistemas Integrados de Controle de Circulação é sua vida há três décadas. Só que sua reforma está para chegar. Na trama, editada por Nicolau em parceria com o cineasta italiano Alessandro Comodin (de “I tempi felici verranno presto”), vemos uma jornada do Sr. Rovisco para se manter na euforia, mesmo com a crônica da morte de sua vida profissional já anunciada. Um neto cheio de alegria e um gato, Napoleão, serão seus companheiros num périplo por hotéis e firmas, sempre regado a músicas que desafiam o realismo… mas nem tanto.

Marrakech termina neste sábado, com a entrega dos prêmios dados pelo júri de Tilda Swinton, com o reforço do pernambucano Kleber Mendonça Filho (“Bacurau”). A produção australiana “Dente de leite”, de Shannon Murphy, é o expoente (até agora) entre os 14 concorrentes. Mas no fim de semana, chega por aqui o devorador de láureas “A Febre”, da carioca Maya Da-Rin, laureado com o Candango de melhor filme e melhor direção em Brasília, no sábado. Um dia antes, Robert Redford passa por aqui para ser homenageado por sua obra.

p.s.: Em solo e telas brasileiras, a “Sessão da Tarde” desta segunda-feira é dedicada a Gabriele Muccino e seu “filme delícia” “Um bom partido” (“Playinh The Keeps”), com Gerard Butler no auge do carisma. Ele vive um jogador de futebol em tráfego pela zona da desordem afetiva e profissional que vai treinar uma seleção mirim para ficar mais próximo do filho. Affonso Amajones dubla Butler no Brasil.

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