Festival de Locarno aposta em autores de peso

Festival de Locarno aposta em autores de peso

Rodrigo Fonseca

01 de julho de 2021 | 08h37

Gênio maldito, Abel Ferrara apronta mais uma, agora em Locarno, apoiado no carisma de Ethan Hawke

RODRIGO FONSECA
Após um ano de hiato presencial, quando premiou o projeto do documentário “Chocobar”, da argentina Lucrecia Martel, Locarno, integrante suíço do G7 dos maiores festivais de cinema do mundo (ao lado de Cannes, Veneza, Berlim, Roterdã, Toronto e San Sebastián), confiou sua 74ª edição ao crítico e curador Giona A. Nazzaro, apostando numa renovação de seu garimpo, e, a julgar pelas jazidas douradas, de curtas e longas, divulgadas por ele na manhã desta quinta, a escolha curatorial do evento deu certíssimo. Só a presença de Abel Ferrara entre os diretores autores em disputa pelo Leopardo de Ouro de 2021 – com “Zeros and Ones” – já é suficiente para comprovar a força da seleção de Nazzaro. O evento vai de 4 a 14 de agosto, com dois curtas-metragens brasileiros na seção competitiva Pardo Di Domani: “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis (um dos curadores da Mostra de Tiradentes) e “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli, com dois brilhantes atores, Silvero Pereira e Dennis Pinheiro. O longa de Ferrara tem Ethan Hawke na farda de um soldado empenhado em impedir uma conspiração terrorista, deixando claro que o diretor artístico de Locarno (um fã declarado dos thrillers de Hong Kong) apostou em gêneros. Tem sci-fi sobre UFOs (o espanhol “Espíritu sagrado”), comédia sobre orientação sexual (“Cop Secret”) e fantasia, caso do esperadíssimo “Paradis sale”, de Bertrand Mandico, diretor francês que virou queridinho da revista “Cahiers du Cinéma” com “Os Garotos Selvagens” (2017). Há já uma torcida se formando em torno de “La Place D’Une Autre” (“Secret Name”), de Aurélia Georges, hoje uma das promessas francesas na direção. Essa seleção de concorrentes vai ser julgada presidido pela diretora americana Eliza Hittman, incluindo os cineastas Kevin Jerome Everson (EUA) e Philippe Lacôte (Costa do Marfim) e as atrizes Leonor Silveira (Portugal) e Isabella Ferrari. O júri dos curtas é composto pelo diretor palestino Kamal Aljafari, a produtora francesa Marie-Pierre Macia e a artista plástica e cineasta romena Adina Pintilie. O filme de abertura é um thriller da Netflix (que ficou de fora de Cannes, cujo festival começa no próximo dia 6), “Beckett”, dirigido por Ferdinando Cito Filomarino e estrelado pelo filho de Denzel Washington: o talentoso John David Washington, de “Infiltrado na Klan” (2018) e de “Tenet” (2020). Rodrigo Teixeira é um dos produtores, via RT Features. Ele vive um turista americano envolvido em uma conspiração na Grécia.
Na apresentação feita nesta quinta, um dos destaques foi a seleção de títulos da novíssima secção “Curtas de Autor”, onde encontramos nomes como Salomé Lamas (“Hotel Royal”), Yann Gonzalez (“Fou de Bassan”), Radu Jude (“Caricaturana”), Jay Rosenblatt (“How do you mesure a year”) e até Marco Bellocchio (“Se Posso Permettermi”). Destaque maior veio da lista de filmes quer serão exibidos na Piazza Grande, a praça principal de Locarno, como “Free Guy”, com Ryan Reynolds (o Deadpool) num mundo de videogame; o thriller “Ida Red”, de John Swab, com Melissa Leo controlando uma organização criminosa da prisão; e “Respect”, de Liesl Tommy, com Jennifer Hudson vivendo a cantora Aretha Franklin.

“Fantasma Neon”, com Dennis Prinheiro e Silvero Pereira

Na seção das retrospectivas, Locarno relembra a obra de Alberto Lattuada (1914-2005), que saiu premiado de Veneza, em 1947, por “Delito”, a assinou “Mulheres e Luzes” (1950), ao lado de Fellini, tendo rodado 37 longas e duas séries, além de ter dirigido um dos segmentos do documentário “12 registi per 12 città” (1989). Na projeção dedicada à História do Cinema, vão ser exibias joias como “O Destino” (“Al-massir”, 1997), de Youssef Chahine (1926-2008). Em mostras paralelas, Locarno dá espaço ao documentarista português Joaquim Pinto e seu parceiro Nuno Leonel exibindo “Pathos Ethos Logos”. Na lista de homenagens, o festival nº 1 da Suíça vai conceder honrarias à atriz franco-italiana Laetitia Casta (o troféu Excellence Award Davide Campari); à produtora americana Gale Anne Hurd (o Premio Raimondo Rezzonico e o Pardo Alla Carriera; o fotógrafo italiano Dante Spinotti (um Leopardo pelo conjunto de sua obra); e o gênio de Hollywood John Landis, que nos presenteou com “Um Lobisomem Americano Em Londres” (1981), e será presenteado com o Pardo d’Onore.

Longa nigeriano integra a disputa pelo Leopardo de Ouro

Competição Internacional
“The Giants”, de Bonifacio Angius (Itália)
“The River,” Ghassan Salhab (Líbano, França, Alemanha, Qatar)
“Juju Stories”, de Abba T. Makama, C.J. ‘Fiery’ Obasi e Michael Omonua (Nigéria, França)
“Medea”, de Alexander Zeldovich (Rússia)
“Soul of a Beast”, de Lorenz Merz (Suíça)
“Petite Solange – Axelle Ropert (França)
“Luzifer,” Peter Brunner (Áustria)
“Zeros and Ones,” Abel Ferrara (Itália, Alemanha, EUA)
“Heavens Above”, de Srdjan Dragojevic (Sérvia, Alemanha, Macedônia, Eslovênia, Croácia, Montenegro, Bósnia-Herzegovina)
“The Odd-Job Men”, de Neus Ballús (Espanha)
“A New Old Play”, de Qiu Jiongjiong (Hong Kong, França)
“Espíritu sagrado” (“The Sacred Spirit”), de Chema García Ibarra (Espanha, França, Turquia)
“Cop Secret”, de Hannes Þór Halldórsson (Islândia)
“Secret Name” Aurélia Georges (França)
“Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”, de Edwin (Indonésia, Singapura, Alemanha)
“Paradis sale”, de Bertrand Mandico (França)
“Gerda”, de Natalya Kudryashova (Rússia)

Melissa Leo pode ser indicada ao Oscar por seu desempenho em “Ida Red”

PIAZZA GRANDE
“Beckett”, de Ferdinando Cito Filomarino (Itália)
“Hinterland”, de Stefan Ruzowitzky (Áustria, Luxemburgo)
“Monte Verità”, de Stefan Jäger (Suíça, Áustria, Alemanha)
“The Alleys”, de Bassel Ghandour (Jordânia, Egito, Arábia Saudita, Qatar)
“Free Guy”, de Shawn Levy (EUA, Canadá, Japão)
“Ida Red”, de John Swab (EUA)
“Yaya e Lennie – The Walking Liberty”, de Alessandro Rak (Itália)
“Rose”, de Aurélie Saada (França)
“Respect”, de Liesl Tommy (Canadá, EUA)
“Vortex”, de Gaspar Noé (França/Bélgica/Mônaco)
“Sinkhole”, de Kim Ji-hoon (Coreia do Sul)

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