Festival de Brasília se emociona com ‘Vinte Anos’ e ‘Cícero Dias’

Festival de Brasília se emociona com ‘Vinte Anos’ e ‘Cícero Dias’

Rodrigo Fonseca

27 de setembro de 2016 | 09h33

“Vinte Anos”, de Alice de Andrade

RODRIGO FONSECA
Dois documentários de afeto, dois documentários de saudade, dois exercícios de “vou de volta”: o 49º Festival de Brasília nos presenteou, no registro da não-ficção, com um par de belos filmes centrados numa geografia dos afetos, ambos capazes de atestar o grau máximo de requinte formal de seus realizadores. De um lado temos Vinte Anos, de Alice de Andrade, cem por cento inédito; do outro, Cícero Dias, o Compadre de Picasso, de Vladimir Carvalho, já apresentado e elogiado no É Tudo Verdade. Ambos fazem do Tempo sua matéria de análise.

Misto de arqueologia da imagem com autoanálise (de obra), Vinte Anos é a jornada de volta de Alice a um filme feito em 1993, em Cuba: Luna de Miel. À época, a diretora do elétrico O Diabo a Quatro (2004) quis radiografar modos de amar e de viver a dois em um país que, como ela mesmo diz em seu novo longa-metragem, “alimentou o sonho revolucionário” de sua geração. O resultado, à época, foi um “filme-poema”. Passadas duas décadas, o fascínio e o amor pelas terras cubanas não arrefeceu. Era hora de voltar e ver o que se fez daqueles casais investigados nos anos 1990. O que se processa nesse regresso é, de novo, uma instância da Beleza: fala-se e processa-se o carinho, a partilha, a comunhão. A sequência em que uma família, outrora jovem, mas hoje bem sedimentada, explica que em seu lar, pobre, sempre cabe mais um, demonstra o amor em níveis plurais. Mas o encanto do filme vai além das generosidades. Ele está em sua operação narrativa.

Movida pelo sentimento de apuro e urgência de que a velha Cuba que conheceu possa se desmanchar no ar, por conta de sua abertura para o mundo (e para os EUA), Alice faz um exercício arqueológico de exumar suas imagens da década de 1990 e ver o que elas representavam sobre o sentimento de sua época. E a partir dessa revisão crítica do Pretérito, ela vasculha o Presente num dispositivo de mosaico, misturando quadros, alternando famílias, saltando paisagens. Existe o amor e existe a vida, que, quase sempre, é sua inimiga… mas, neste Vinte Anos, a vida é o terreno, é um ambiente que norteia modos de ser e instiga sonhos. O que importa ao filme são aqueles indivíduos e o projeto de país que eles aprenderam a amar. Mergulhar naquelas pessoas permite que a gente conheça um povo mais e melhor.

“Cícero Dias, o Compadre de Picasso”

Sobre o metafísico Cícero Dias, o Compadre de Picasso, em sessão na Mostra Brasília, o octogenário diretor paraibano reconhecido como um poeta da investigação, com uma obra mais calcada na força da palavra, expressa por meio de entrevistas, arquivos e pesquisas, passa para um outro e mais elevado (e enlevado) patamar: o de poeta da imagem. Desde O País de São Saruê (1971), Vladimir Carvalho não construía um discurso visual tão requintado, seja no arranjo da montagem, seja (sobretudo) no âmbito dos enquadramentos. Talvez a matéria-prima mais indireta do longa – a pintura de Cícero – tenha inspirado um arranjo narrativo de maior potência em termos de dramaturgia de plano do que o material visto nos docs anteriores dele, como O Engenho de Zé Lins (2006) e Rock Brasília (2011), no qual a musculatura investigativa chamava mais atenção do que sua epiderme fotográfica.

Aqui, vemos uma estrutura cíclica, na qual o porto de partida e o de chegada é o mesmo: uma lápide em Paris onde se lê “Eu vi o mundo… ele começava do Recife”. Dali pra frente, Vladimir exuma o corpo ali enterrado, mais preocupado em fazer uma história afetiva do Modernismo – e suas vertentes distintas – no mundo do que em formatar uma cinebiografia clássica. Entre arquivos e depoimentos, numa colcha de memórias, a câmera se abre e se fecha em túneis do Rio Sena, no colorido de telas, no branco de recordações em processo de despedaçamento. Sobram, intactos, a jornada de criação de um intelectual das tensões brasileiras e um périplo sobre as linguagens modernas alinhavadas no esperanto de uma pincelada.

Dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, Baile Perfumado (1996) será exibido esta noite no encerramento do Festival de Brasília, que recebeu ontem o último dos concorrentes ao Troféu Candango: o avassalador Deserto, o primeiro longa do ator Guilherme Weber como realizador. Nele, o cineasta produz um potente (e sensível) debate sobre ocupação das cidades, de início, trazendo um monólogo de Lima Duarte sobre o sentido da arte.