Festival CineRio fala sério sobre o humor

Festival CineRio fala sério sobre o humor

Rodrigo Fonseca

16 de outubro de 2021 | 09h27

“Fala Sério, Mãe”: um fenômeno nacional de bilheteria

RODRIGO FONSECA
Leucócito falante em defesa do audiovisual brasileiro num organismo de exibição com os vasos entupidos de atrações estrangeiras, Ingrid Guimarães está num voo para a streaminguesfera após ter firmado fama na TV aberta, na Globo, e nas telonas, consagrando-se como a maior campeã de bilheteria do país. A Amazon Prime agora é seu novo terreno de ação, onde ela chega com fome de reinvenção. Mas em paralelo aos trabalhos dela por lá, um dos filmes mais tocantes da atriz, “Fala Sério, Mãe!” (2017), vai ser exibido e debatido esta tarde num evento 0KM que promete refletir sobre a sinergia entre público, distribuição, exibição e crítica no país: o Festival CineRio. Dura sábado e domingo, num empenho bárbaro de (re)oxigenação do setor idealizado por Amanda Lima e Mônica Varella.
Nesses dois dias de evento, a proposta é discutir, informar e avaliar assuntos pertinentes ao cinema atual. Um dos objetivos é promover o desenvolvimento e a difusão de produções nacionais. Durante a programação, serão ainda exibidos de forma gratuita outros longas, como “De Pernas pro Ar 3” (Distribuidora: Paris Filmes), “Cinderela Pop” (Distribuidora: Galeria Distribuidora) e “Todas as Canções de Amor” (Distribuidora: Galeria Distribuidora). Os filmes serão exibidos online, pelo Vimeo. O público interessado fará um cadastro na página https://festivacinerio.espacoz.com.br/ e receberá um e-mail com o acesso ao conteúdo gratuito dessa maratona. Entre os dois filmes de cada dia haverá uma mesa virtual, com a mediação da jornalista, apresentadora e redatora Renata Boldrini, com participações de especialistas e representantes das distribuidoras para debatera diversidade de nossa produção audiovisual.

Comovente, “Fala Sério, Mãe!” não é um quaquaquá sobre maternidade: é um ensaio comovente (e bem engraçado) sobre cumplicidade. Interessa mais a ele o abrigo que existe em cada abraço do que o esgar passageiro de uma piada para cumprir tabela. Há, em cada palmo dos 15 e tantos anos de convivência entre Malu (Larissa Manoela, uma acrobata de gestos finos) e sua mãe, Ângela (Ingrid), muitas deixas para risadas, em especial na tomada dedicada a um ônibus escolar. Mas elas são apenas cobertores de lã para o frio encanado que vai se espalhando pela narrativa, a inflar e tremular a biruta de orientação empunhada pelo diretor Pedro Vasconcelos (aqui em seu trabalho mais maduro), sinalizando fins de ciclo, conflitos irreconciliáveis da Mãe Natureza com os sentimentos possessivos de quem ama o incondicional amor de gestação. E o que nos dá essa medida de saúde afetiva é um glóbulo todo saltitante, cheio de graça mesmo quando se faz parecer desengonçado, chamado Ingrid Guimarães. Ela é a Gal Gadot da neochanchada. Seu laço que impõe a verdade (do humor) nos amarra toda a vez que ela arregala os olhos e mostra as canjicas em seus lábios. Ingrid é a Mulher-Maravilha do cinema para multidões… e é assim não por mobilizar as massas, mas por traduzir, a cada papel, com a singularidade da boa atriz que é, as carências que nossas crises financeiras não soterram – aliás, pelo contrário, elas só aumentam com nossas inseguranças materiais. Se Dercy Gonçalves celebrizou nosso jeitinho pícaro de sair dos problemas pela tangente da inteligência… se Sonia Braga encarnou nosso empoderamento mais vulcânico, Ingrid traduz com sua comicidade relâmpago as veias abertas de uma América Latina que sofre não só pela falta de $, mas de afago. E dessa falta a Sociologia não dá conta. Ela não tem partido.
Em meados dos anos 2000, gostando-se ou não da política que foi vigente em nossa Presidência naqueles dias, houve um programa de reforma econômico que incluiu as classes C e D numa pirâmide identitária de subjetividades. Foram anos de emergência financeira: não emergência como desastre, mas como progresso. E nesse período, em que o crédito possibilitou às classes outrora desvalidas (e invisíveis) o direito de serem notadas (pela aquisição de bens), criou-se um novo cogito cartesiano aqui neste país: consumo, logo existo. Esperava-se que nossa Literatura pudesse dar conta desse fenômeno da Era Lula (e de parte da Era Dilma), mas não deu: estava ocupada demais com a blogosfera ou com a autoficção para isso. O Teatro também não teve êxito. Já a TV… esta arriscou e acertou (em cheio) com a telenovela “Cheias de Charme” (2012). Mas, bem antes da telinha, a telona o fez, com “De Pernas Pro Ar” (2010), uma explosão de bilheteria no qual Ingrid era uma Meg Ryan de Vicente de Carvalho: uma emergente que buscava o prazer na satisfação profissional. Dali vieram “Qualquer Gato Vira-Lata” (2011); “Até Que a Sorte Nos Separe” (2012); “Vai Que Cola” (2015); “Um Suburbano Sortudo” (2016) e por aí vai, numa linha de êxitos que pavimentaram a estrada da dita neochanchada (comédia ligeira de registro das intempéries sociais do povão). Ora arisca, ora manhosa, num perfil à la Goldie Hawn de que o imaginário nacional necessitava, Ingrid viveu, na telona, múltiplos amores e muitas maternidades, ensinando pra gente o modo brasileiro de manipular o objeto pontiagudo (que causa tétano) chamado amor. Mas os anos passaram. Lula terminou o mandato. Dilma não teve o mesmo direito. Novos gestores chegaram e, com eles, uma onda conservadora instalou-se entre nós, fazendo com que nossa Cultura sofresse uma série de agressões. Mas a euforia da emergência das classes C e D parece acabado, com a explosão da bolha de crédito. Aliás, quem era de classes mais altas até desceu do Olimpo, na dança das cadeiras da crise. Com um cenário desses, o riso não é mais o mesmo. Os filhos estão partindo… Os ninhos estão ficando vazios. Por isso, a neochanchada da vez é menos celebrativa e mais pé no chão: fala de peitos mordidos por bebês, cólicas menstruais, separações sem conciliação. Inspirado na prosa best-seller (e necessária) de Thalita Rebouças, o belo “Fala Sério, Mãe!” é fogo que arde e dói, por ser um produto do Agora histórico, por ser um sintoma do Contemporâneo.

Apoiado no script por Ingrid, pela própria Thalita, por Dostoiewski Champangnatte e por Pedro Vasconcelos, o Neal Israel da comédia brasileira contemporânea – o roteirista Paulo Cursino – dá ao espectador, em “Fala Sério, Mãe!”, um inventário de cicatrizes e colisões irretrocedíveis, na qual a fotografia algumas vezes “lavada” acentua o perfil de painel de relações. Com vasta experiência na TV, como ator e diretor, e saído de duas experiências de longa metragem no cinema (“Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 2017; e “O Concurso”, de 2013), Vasconcelos encontra aqui (enfim) uma (bem-vinda) identidade – além de um ethos e de um logos próprio – como cineasta, falando de feridas inerentes à conjugação cotidiana do verbo “amar”. E Ingrid entra nisso como a mãe descabelada que faz do zelo sua Estrela de Belém. Isso até Fábio Jr. aparecer… numa sequência inesquecível… de uma atriz difícil de esquecer e que aqui demarca definitivamente seu lugar entre os patrimônios de nosso cinema. E ó… vale um aplauso o empenho do ótimo Marcelo Laham como o maridão de Ângela. Ele já havia brilhado na peça “E Se Eu Não Te Amar Amanhã?”, de Julia Spadaccini, e aqui tem seu quinhão de luz, numa dobradinha azeitada com Ingrid.

p.s.: Neste domingo, chega ao fim a edição 2021 do Cabíria, hoje o mais ativo festival das Américas na reflexão sobre as estéticas produzidas por realizadoras. Para o desfecho de uma maratona de filmes, painéis de discussão e estudos de caso, a curadoria agendou pra este 17 de outubro um debate com a cineasta Lucia Murat, marcado para as 19h. Com mediação da jornalista Flávia Guerra e participação da também cineasta Julia Murat, filha de Lucia, o encontro será acessível em Libras no YouTube do Telecine. Em homenagem à diretora, uma mostra com quatro de seus filmes está disponível na plataforma VIDEOCAMP e o recém-lançado “Ana. Sem Título” será disponibilizado neste sábado, dia 16, por apenas 24 horas no Telecine Play. Vale uma olhada.

p.s.2: Além de badalar “Peacemaker”, com John Cena, e “Adão Negro”, com The Rock, a DC Fandome, evento nerd dedicado às HQs da editora responsável pela Mulher-Maravilha, vai badalar o gibi “BATMAN: O IMPOSTOR”. Essa é “a” aposta para vendas milionárias. É uma minissérie vitaminada pela arte sombria de Andrea Sorrentino. O roteiro de Mattson Tomlin dialoga com o filme “The Batman”, estrelado por Robert Pattinson, previsto para estrear em março. Na trama, o jovem Bruce Wayne caça um assassino que finge ser um vigilante. Na trama, a detetive Blair Wong voltou sua atenção para Wayne como uma fonte de informações sobre o paradeiro do Morcegão. A DC Fandome rola online neste sábado, a partir das 16h.

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