‘Festa’ de Sally Potter pode levar a diretora ao Oscar

‘Festa’ de Sally Potter pode levar a diretora ao Oscar

Rodrigo Fonseca

30 de agosto de 2017 | 18h12

Timothy Spall inflama um debate político e afetivo em “The Party”, de Sally Potter

Rodrigo Fonseca
Faltaram cineastas mulheres na disputa pela estatueta de melhor direção na cerimônia de 2017 da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas isso pode (e deve) mudar no ano quem vem, não apenas em relação às já oscarizadas Sofia Coppola (com O Estranho Que Nos Amamos) e Kathryn Bigelow (Detroit), mas por conta da veterana cineasta inglesa Sally Potter. Rola um zumzumzum na indústria de que o novo longa-metragem da realizadora de cults como Orlando – A Mulher Imortal (1992), The Party, pode concorrer ao Oscar em múltiplas categorias. A própria cineasta, que nos deu trabalhos memoráveis como Ginger & Rosa (2012) e Porque Choram os Homens (2000), pode ser laureada por esta aula de ironia, exibida pela primeira vez durante o Festival de Berlim, em disputa pelo Urso de Ouro. Saiu de lá com o Guild Film Prize.  

Pequenininha em termos de duração (são só 71 minutos, sendo cada um deles mais delicioso do que o outro), esta comédia em preto e branco é precisa nos alvos políticos ao mirar hipocrisias dos ingleses (e de outros povos da Europa e das Américas). Foi o filme mais ovacionado da Berlinale este ano – em parte por sua concisão, mas muito por sua habilidade de destilar fel sem perder a elegância. Não há uma frase sequer no roteiro, escrito pela própria cineasta, que não esbanje escárnio, sobretudo por sair da boca da nata do cinema europeu, começando com Timothy Spall, o eterno Rabicho da franquia Harry Potter. A seu lado estão astros de distintas gerações e nacionalidades, vide o irlandês Cillian Murphy (o desertor de Dunkirk), a britânica Kristin Scott Thomas (de O Paciente Inglês), a americana Patricia Clarkson (de Vicky Cristina Barcelona) e o mítico ator alemão Bruno Ganz, o anjo de Asas do Desejo (1987).

“Foi bom sentir o meu texto saindo dessas bocas tão abertas à irreverência”, disse Sally ao P de Pop em Berlim. “No fundo, meu desejo era explorar o quanto a esquerda se enfraqueceu na Inglaterra”.

Kristin Scott Thomas, Patricia Clarkson (ao fundo) e Bruno Ganz integram o naipe de valetes no baralho da cineasta inglesa

Além do tom sufocante do visual P&B impresso pelo fotógrafo Aleksei Rodionov, toda as estratégias de direção buscada por Sally em The Party alimentam um clima de claustrofobia. Ambientado em alguns cômodos de uma casa, a trama acompanha as confusões que se instauram durante uma ceia na casa da nova Ministra da Saúde do Reino Unido, Janet (Kristin) no momento em que seu marido, o ex-professor Bill (Spall, genial), faz um par de revelações bombásticas aos convidados. Estão nessa festa: um casal de lésbicas (Cherry Jones Emily Mortimer); um investidor do mercado financeiro com o nariz inflamado de cocaína, Tom (Cillian); a melhor amiga de Janet, April (Patricia, cujos diálogos são os mais ferozes do filme) e seu namorado germânico, o espiritualista Gottfried, vivido por Ganz numa atuação hilariante.

“Quando eu comecei a dirigir, em 1969, quase não se falava na presença feminina atrás das câmeras, o que poderia fazer de mim uma das pioneiras. Mas não penso muito nesse rótulo, embora ele me dê orgulho”, diz Sally. “Existem muitas outras contradições”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: