Fértil de poesia, ‘Deserto’ chega para radicalizar as telas

Fértil de poesia, ‘Deserto’ chega para radicalizar as telas

Rodrigo Fonseca

13 de setembro de 2017 | 01h27

Rodrigo Fonseca
Encasulado quase um ano em uma crisálida autorreflexiva, maturando como vinho em tonéis de espera pela degustação mais generosa, Deserto, o primeiro (e obrigatório) longa-metragem do ator Guilherme Weber no posto de cineasta, enfim foi decantado a ponto de servido ao público num brinde à Arte, na maiúscula, na vivência: estreia quinta agora. Antes passou pelo Festival de Brasília, setembro passado, onde ganhou o troféu Candango de melhor direção de arte, coroando a atmosfera com um pé no circense, outro na erosão construída por Renata Pinheiro. Merecia bem mais. Porém, festival é festival… e festivais passam. Grandes filmes ficam. Este veio pra ficar, como carta de intenções na perenidade do Teatro e do Circo como instância de revolução, como investigação sobre ocupação de cidades. Seu ambiente: uma vila fantasma. É numa espécie de aldeia descarnada que Weber – numa maturidade de mise en scène que muitos aí, com fama de gigantes, não têm – rumina a questão da descartabilidade. É o mesmo tema perseguido em sua prestigiada peça Os Realistas.

Ali, no palco, onde a selvageria dos lugares não-verbais (da ausência de alcance da linguagem, e, portanto, da civilidade) é freada pela cerebralidade, o assunto-fetiche do diretor-autor Weber era perseguido sob um viés existencialista. Era uma rubrica dada já na dramaturgia de Will Eno, da qual a encenação era derivada. Mas, no Cinema feito com “C”, na caixa alta da caça por sentidos, não há freios para o selvagem: a Natureza chama a sobrevivência. E sobreviver é uma intransitividade comungada por uma trupe no qual a solidão é a sequela do abandono da possiblidade artística. Tem algo de Tim Burton, parece El Topo (1970), do santo Jodorowsky, e lembra o tesouro nacional As Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Traz (1967). Mas no Weber audiovisual, a toada é menos existencial e mais marxista, quase gramsciana. O palco dele aqui abre cortinas  para o espetáculo da dominação do fraco pelo forte, da luta de classes dentro da classe artística. Acima (e antes) de tudo, Weber fez uma declaração de amor à Arte.

Numa atuação transcendente, Lima Duarte lidera a trupe de circo-teatro de “Deserto”: melhor direção de arte em Brasília, em 2016

Parente de A Viagem dos Comediantes (1975), de Theo Angeolopoulos (1935-2012), o belo Deserto tirou sua trama do romance Santa Maria do Circo, do mexicano David Toscana. Parte dele para narrar a errância de um maltrapilho grupo de circo-teatro pelos confins de um país com um Sertão de esturricada paisagem. O grupo tem um líder (vivido por Lima Duarte, numa participação curta, mas devastadora). O líder, com ares de Anthony Quinn em La Strada (1954), só professa amor por uma porquinha esquálida e por seu cântaro de cachaça. Os demais, sobretudo as mulheres mais velhas (Cida Moreira e Magali Biff, de embatucar razões) e uma jovem (Pietra Pan), amargam a fome e o autoritarismo do patrão vivido por Lima.

Tudo parece mudar quando eles chegam a uma cidadezinha esvaziada. Parece Sertão, formação geográfica que Weber define como o Complexo de Édipo estrutural do povo brasileiro. Cansados de tanta andança, eles enxergam ali mais do que um pouso: existe uma nova pátria, mãe gentil. Artistas, eles enxergam na aridez plena um projeto de país (mais Brasil de hoje, impossível!) e decidem fundá-lo. E, para isso, cada ator deve virar um “ator social”, e assumir um papel, a ser definido por uma rifa de bilhetinhos sorteados a esmo. A menina, por exemplo, tira um papel nada adequado a seu corpo: “caçador”. Já o homem forte do circo (Márcio Rosário, a maior surpresa do elenco, numa interpretação de dilacerar) fisga o papel de “prostituta”. Isso leva esse Maciste a se feminilizar, cena após cena. Já a mulher careca e morfética (Magali) se torna a médica, curando feridas a lambidas, numa perversão erótica de um filme carregado de uma exótica sensualidade. É um filme tesudo, sem medo da opulência, do excesso de palavras, de baba, de delírios, de trânsitos entre as identidades sexuais, de beijos com buços e bigodes, de lacunas no peito.

No esmaecimento da fotografia de Rui Poças, sempre ocre, levemente tenebrista, o universo daqueles atores vai caminhando para a decadência, para a doença. É como se a corrupção fosse um destino inevitável para uma nação que se funda do degredo, da mesma forma como o Brasil começou. Aquela pátria se funda, nos primeiros minutos do longa, com a morte do líder (depois de um comovente monólogo de Lima), abrindo deixa para novos empoderamentos, que caminham para a falência, para o tal deserto do título: deserto de esperanças.

Almas danadas num “árido movie”

Com um roteiro escrito a quatro mãos com a romancista Ana Paula Maia (de Carvão Animal), especialista na cartografia da brutalidade, Weber faz de sua estreia um gesto de resistência expressa como um filme seminal, de ousadias mesmo em seus instantes de maior classicismo. Que a Sorte o contemple em sua chegada ao circuito e reserve a ele seu título de direito: um dos maiores filmes nacionais de 2017. E olha que a safra tá boa…

Cotação: Excelente

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