Ferdinando anima o almoço na TV

Ferdinando anima o almoço na TV

Rodrigo Fonseca

26 de setembro de 2021 | 09h54

RODRIGO FONSECA
Produtor da série “Cidade Invisível”, o carioca Carlos Saldanha, diretor brasileiro de maior visibilidade internacional nas últimas duas décadas, indicado a dois Oscars, vai temperar o almoço deste domingo com pitadas de animação na projeção de seu “O Touro Ferdinando” (2017) na “Temperatura Máxima” da TV Globo, em versão dublada. Sua bilheteria beirou US$ 297 milhões.

Leitura de cabeceira de gerações e gerações de americanos em formação escolar fundamental desde 1936, quando chegou às livrarias, “The Story of Ferdinand”, de Munro Leaf (texto) e Robert Lawson (ilustração), gerou controvérsia à sua época, por trazer um herói da não agressão, que faz da paz sua bandeira e carrega, no modo de ser, a certeza do que é. Tal postura trazia algo de incompatível com a lógica do conservadorismo. Em meio à Era Trump, o regresso do personagem, em forma de um longa-metragem animado, foi um gesto político… um gesto de coragem. E como ética e estética têm um casamento indissolúvel, o teor político das peripécias desse Muhammad Ali bovino se manifesta com elegância e sutil ironia, encapada sob uma narrativa de autoafirmação que pôs Saldanha n’outro patamar. O patamar dos autores cinematográficos. O patamar dos realizadores que emplacam uma obra-prima. Não há outro termo para definir o que o doce “Ferdinand” (título original) representa na filmografia do animador e no atual cenário das animações infanto-juvenis, tanto pela ousadia temática, quanto pelo requinte formal. Sua trilha sonora, composta por John Powell, arranca lágrimas.

Um show de cores, sendo o vermelho a coloração mais imponente, caracteriza a fotografia delineada pelo gaúcho Renato Falcão (diretor do cult “Festa de Margarette”) para traduzir a Espanha rural e uma Madri de touradas. A geometria dos cenários, e suas paisagens, são valorizadas na aposta em planos médios e planos abertos na gramática da direção, o que ressalta os detalhes dos locais, de forma ainda mais cuidadosa do que se dava em “Rio” (2011), até então o melhor trabalho de Saldanha. Ali, ficava mais claro o seu traço de autoria, que nasceu em 2002, com “A Era do Gelo” (e melhorou sobretudo no II, de 2006), seguiu por “Robôs” (2005) e perfumou a experiência em live action do diretor em “Rio, Eu Te Amo” (2014), com Rodrigo Santoro. Saldanha é um cronista de travessias, um narrador de jornadas nas quais um efeito externo obriga os protagonistas a sair de seu lugar de conforto e migrar. Há algo disso em “O Touro Ferdinando”, no deslocamento do personagem-título do bosque onde adolesceu para um pasto onde será selecionado para tourear. Mas a jornada que se passa dentro dele é menor do que as da fauna habitual de Saldanha. Ferdinando já sabe o que é (alguém que prefere cheirar flores a lutar) desde o começo, sem nunca ter tido dúvidas de seu eu. E é isso o que faz dele um herói de exceção… um herói do Contemporâneo.

Esse espírito resistente já se fazia presente na incursão anterior de Ferdinando nos cinemas: um curta-mertragem animado de 1938, dirigido por Dick Rickard, para a Disney. Mas a versão de Saldanha potencializa as escolhas do personagem, ao som de Pitbull e da “Macarena”.

É corajoso também o fato de não haver um vilão clássico na trama. Existe vilania na figura de El Primero, toureiro assassino que será um adversário de Ferdinando. Mas não é ele o adversário principal do personagem e sim o próprio teatro da vida, que outorga a cada um de nós papéis que nem sempre queremos desempenhar. O papel de besta enfurecida, geneticamente imposto a Ferdinando, é um arquétipo que ele rejeita. Sua travessia heróica no filme será convencer os demais disso. E, de quebra, propor uma reflexão sobre a brutalidade da prática da tourada, mas sem desrespeitar a importância que essa prática tem na cultura da Espanha. Não há lugar para nenhuma forma de desrespeito neste filme.

Seu posicionamento autoafirmativo se desenha na telona sem bandeiras. É um filme de celebração da vida, de correrias, desafios, gargalhadas… muitas, aliás, pois se trata do maior acerto cômico de Saldanha, sobretudo pela sazonal aparição de um coelhinho rosa (um candidato a Scrat, aquele esquilo-rato de “A Era do Gelo”). Os risos mugem dos outros touros que cercam Ferdinando e berram sempre que a cabra Lupe mostra os chifres. Ela é a treinadora do tourão quando este se vê obrigado a encarar uma arena. Lá fora, em língua inglesa, Lupe ganha a voz da comediante Kate McKinnon. Por aqui, na versão brasileira, entra Talitha Carauta, que valoriza, nas rubricas, todas as deixas de humor do roteiro original. Tem ainda Maísa e Otaviano Costa no elenco de vozes. A atriz e apresentadora dubla Nina, garotinha que cuida de Ferdinando, e Otaviano empresta o gogó ao cavalo Hans.
Como se trata de um filme de evoluções, seja para Saldanha, seja para a cultura de representação em Hollywood, é necessário um aplauso, ainda na seara da versão brasileira (dirigida por Manolo Rey), à interpretação de Duda Ribeiro, dublador de Ferdinando. Em inglês, o touro é John Cena, ás da luta livre que está em cartaz no Brasil em “Esquadrão Suicida”. E Duda entendeu bem as características de interpretação desse ex-atleta que virou astro. Um dos atores em dublagem mais elogiados do país, em destaque na TV por seu trabalho como a voz do Arqueiro Verde na série “Arrow”, ele galga um novo e mais próspero horizonte ao sublinhar, com delicadeza, toda a inquietação embargada nos mugidos de Ferdinando.

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