‘Feliz Ano Velho’ em bolacha sabor excelência

‘Feliz Ano Velho’ em bolacha sabor excelência

Rodrigo Fonseca

19 de dezembro de 2019 | 10h52

Rodrigo Fonseca
Raras são as ocasiões em que o Cinema Brasileiro passa em revista os traços de excelência de sua produção dos anos 1980, era de “Ilha das Flores”, de “Pixote”, de “A Hora da Estrela”, de “Vera”, de “Os Saltimbancos Trapalhões” e do doído (mas lívido) “Feliz Ano Velho”, que volta, agora, em versão digital, numa delicada edição em DVD. Presente de Natal melhor para quem é cinéfilo de carteirinha não há. Baseada no romance confessional de Marcelo Rubens Paiva, de 1982, a produção promoveu o tráfego do então documentarista Roberto Gervitz para a ficção, pela via expressa da maturidade. Sete Kikitos coroaram o longa-metragem, incluindo o de júri popular e o prêmio de melhor roteiro de Gramado. A bolacha, que sai pela Sincronia Filmes, oferece como mimos ao espectador, nos extras: a) Comentário em áudio do diretor; b) Entrevistas com Marcos Breda, Malu Mader e Gervitz; c) Testes de elenco feitos no ano de 1986 (que seu realizador guardou em fitas VHS); d) Um comercial com Malu Mader feito para levantar recursos para a finalização; e) Um livreto com análise do crítico José Geraldo Couto.
Sua trama: Aos 17 anos, Mário (Marcos Breda) mergulha em um lago, bate a cabeça e fica tetraplégico. A paralisia física o coloca diante de sua imobilidade existencial. Seu medo de seguir o mergulha no passado de adolescente dos anos 1970 — auge da ditadura militar. Abandonado pelo próprio corpo, ele recompõe os cacos do que viveu e dá adeus à adolescência. Malu, atriz que sempre se impôs por uma certa doçura trágica, com ares das divas italianas (é a nossa Stefania Sandrelli), injeta um lirismo doloroso à cada sequência em que aparece. E Nanini tem uma de suas mais convulsivas atuações, ao lado de um potente Breda.
Gervitz cuidou da digitalização do filme com carinho de pai, em meio à realização de projetos como o .doc “Na Dança!” e a escrita do roteiro “Yaguar”. Na entrevista a seguir, o diretor de “Jogo Subterrâneo” (2005) fala de seu trânsito por um filme que merece ser visto e revisto à luz da saudade.

Roberto Gervitz: a mil com novos projetos

Quem era o Gervitz da feitura daquele filme e o quanto dele ficou em você?
Roberto Gervitz:
É uma pergunta difícil que, se for feita no ano que vem, provavelmente terá resposta diferente. O que e como a gente lembra tem muito a ver com o momento que estamos vivendo – e isso está presente no filme. Mas posso dizer que eu estava saindo de um labirinto no qual eu me paralisei por um bom tempo, pelo medo de seguir. A persona que eu havia construído já não me servia. Eu queria me libertar das amarras que me protegiam e cerceavam ao mesmo tempo. Mas havia o medo do “mergulho”, o medo desse encontro com a solidão necessária para crescer. Conhecia o Marcelo do 2º grau. Eu me surpreendi ao saber que ele tinha ficado tetraplégico e escrito um livro. O livro estava na segunda edição, não era o fenômeno editorial que veio a se tornar. O que me pegou fundo foi a imagem da imobilidade. Metáfora do que eu estava atravessando. Poucos anos antes, em 78/79, eu havia feito com o Sergio Toledo Segall o filme “Braços Cruzados Máquinas Paradas”, um .doc de longa metragem inserido no movimento operário e na luta pela democratização do país. Com o sucesso desse filme, premiado em Leipzig, exibido no Fórum de Berlim, na Mostra de São Paulo e visto por muita gente aqui no Brasil, eu projetara para mim um futuro de documentarista ligado aos movimentos socias. Mas eu tinha 20 anos e, de repente, tudo isso entrou em xeque, pois havia muita coisa mal resolvida em mim. Ao final dessa espécie de crise, senti que havia coisas que eu só poderia dizer com a ficção e mergulhei nesses universos paralelos ao real, onde reinava a metáfora, a poesia, a dúvida. Muitíssima coisa ficou de “Feliz Ano Velho”, principalmente esse prazer infinito, lúdico, aberto e intenso que a ficção pode ser para quem filma e escreve.
Que sentimento é esse?
Roberto Gervitz:
Há uma sensação infantil de onipotência ao fazer ficção, como se eu estivesse “Brincando de Deus”, título de um livro que escrevi sobre os filmes e trabalhos que havia feito até 2010. Talvez esse encantamento, esse convite à ousadia, à reflexão e à expressão de coisas que nos são caras e íntimas, seja o que mais tenha ficado de “Feliz Ano Velho”.
De que maneira o romance de Marcelo Rubens Paiva mexeu com seu imaginário durante a feitura do longa, nos anos 1980?
Roberto Gervitz:
Eu li o romance do Marcelo em pouco mais de um dia. Devorei-o, pois era a primeira vez que um livro falava da experiência de nossa geração, que cresceu em plena ditadura. O que estava no livro era o dia a dia, a linguagem, a forma de ser de uma juventude urbana de classe média, que havia crescido na São Paulo de meados dos anos 1970. Até então, éramos tidos como alienados, que em nada se interessavam por política ou pelo país, o que era uma caricatura absurda. O movimento estudantil, em 1977, fez passeatas que estimularam o movimento operário, muito mais reprimido pela ditadura, a sair da semiclandestinidade das fábricas a vir para as ruas. E o livro, apesar da realidade trágica – um jovem que já perdera o seu pai para os órgãos de repressão e que com 19 anos, de um dia para o outro, ficara tetraplégico por uma fatalidade -, tinha um discurso solar, erótico, fruto da energia admirável do Marcelo de querer reconstruir sua vida. De alguma forma, eu, que estava paralisado pelo medo de viver, recebi um choque de alta voltagem ao ler o livro. E fiquei com vontade de falar exatamente de uma paralisia que não era somente minha, mas comum a muitos amigos que me cercavam. Mas eu não queria fazer sociologia, nem um discurso geracional, e, sim, refletir sobre esse longo adeus à adolescência, sobre o tempo, sobre o medo, sobre o amor e sobre a morte. O filme tem uma atmosfera mais angustiada do que o livro, mais sofrida, pois eu queria expressar os conflitos que me afligiam sem dourar a pílula.
Você rodou “Feliz Ano Velho” onde, com quantos anos e com que tamanho de equipe?
Roberto Gervitz:
Eu comecei a escrever o roteiro no final de 1982. Foi um processo bastante longo e sofrido: eu tinha 23 anos e quase nenhuma experiência com ficção. Aprendi muito, ralei bastante. Eu ganhei um edital na Embrafilme que não cobria todo o custo do filme e, depois de mais de um ano e meio de luta, juntamente com o Claudio Kahns, produtor do filme, conseguimos levantar os recursos necessários. A Lei Sarney (que depois virou Lei Rouanet, nos anos 90) tinha acabado de aparecer. Os recursos levantados a partir de muito trabalho nos permitiram boas condições de produção para a época. O filme nos colocou grandes desafios. Formamos uma excelente equipe com Cesar Charlone, na Direção de Fotografia, Clóvis Bueno, como Diretor de Arte, e uma equipe técnica de muitos jovens. Era uma energia muito forte e bonita. Creio que a equipe técnica contava com cerca de 30 a 40 pessoas em média. No elenco, que além do protagonista, Marcos Breda, contei com Malu Mader, Carlos Loffler, Betty Gofman e Arnaldo Damiano no elenco jovem. Tinha ainda Eva Wilma, Isabel Ribeiro, Odilon Wagner e Marco Nanini. Rodamos em cerca de 12 semanas, de meados de agosto a meados de novembro de 1986.
Como foi o processo de restauração do filme e de que ponto você revisou ou até modificou questões técnicas do longa? Ainda existe o negativo original? Tá com você?
Roberto Gervitz:
Finalizado em 1988, em 35mm e som Dolby Stereo, os negativos de “Feliz Ano Velho”, embora poupados na feitura das muitas cópias para o lançamento, foram armazenados em más condições – um destino comum a todos os filmes à época. Só em 2002, a Cinemateca Brasileira construiu depósitos climatizados. Além de riscos e sujeira, o negativo do filme apresentava extensas manchas de fungos – o maior problema para o restauro. Assim, feita a digitalização em 2K, uma equipe coordenada por Patrícia De Fillipi, na 02Pós, procedeu ao restauro que durou três meses. As fitas de 1/4 com a mixagem original, guardadas por 30 anos em um armário na Tatu Filmes, estavam em ótimo estado de conservação. Elas passaram por um processo de desumidificação e, a partir daí, a JLS remasterizou o som digitalmente, equalizando-o para os novos tempos, em 5.0. O resultado é impressionante e pôde ser apreciado pela primeira vez na sessão da Mostra Internacional de São Paulo, em outubro de 2018. Foi uma sessão emocionante. Os negativos originais estão guardados na Cinemateca Brasileira.

Como você, que teve uma ligação essencial com as lutas políticas dos anos 1970 e80, tem visto o atual turbilhão político no cinema brasileiro?
Roberto Gervitz:
Estamos assistindo a um desmonte comparável ao que foi feito com a Embrafilme, no final do governo Sarney, e levado adiante com força total no governo Collor, por Ipojuca Pontes, seu preposto. Como naquela época, há hoje, também, um componente indiscutível de ressentimento contra os produtores, criadores e trabalhadores culturais por terem posições mais progressistas. Estamos assistindo a frequentes manifestações de profundo desrespeito na Cultura e na Educação, como ocorreu com Fernanda Montenegro e, mais recentemente, com Paulo Freire. Hoje, diferentemente da era Collor, há um componente fundamentalista evangélico que vem com uma força em nada presente nos anos 1990 – há um ódio religioso, medieval em consonância com o que ocorre em várias partes do mundo com outras religiões. Por exemplo, fala-se em filtros para a aprovação de filmes em editais, isso é censura, algo inconstitucional. Por outro lado, em comum com Collor, há uma mentalidade neoliberal na economia que tende à desregulamentação do mercado audiovisual, o que sabemos não ser possível em nenhum país que queira ter uma cinematografia de peso. O setor cinematográfico enfrenta total paralisia. Está se atirando no lixo muito do que foi conquistado no momento em que testemunhamos uma cinematografia forte, diversa e premiada nos mais importantes festivais internacionais. A política para o audiovisual inexiste. O governo já trocou, em menos de um ano, quatro vezes o Secretário do Audiovisual. Quem vai presidir a Ancine é um pastor que não tem a menor formação na área. Haveria ainda muita coisa para falar, mas é importante que os governantes e os dirigentes tenham a consciência de que eles não estarão aí para sempre. Passarão. O cinema brasileiro já enfrentou momentos terríveis e os superou, não sem alto custo, mas nunca deixamos de seguir fazendo filmes. E, hoje, o setor é muito grande e contribui de maneira considerável para o emprego, geração de impostos e para o PIB. O setor reage, é organizado e profissional.
E o que vem pela frente, pra ti, em sua resistência artística, em sua perseverança?
Roberto Gervitz:
Acabo de terminar um documentário de longa-metragem, “Na Dança!”, sobre dançarinos imigrados. Eles não gostam do termo refugiados por razões óbvias. São mestres nas danças populares de seus países: Líbano, Angola, Senegal, Egito, Colômbia, entre muitos outros. E estou escrevendo um roteiro intitulado “Yaguar”, inspirado na história real de minha família. É a história de Leo, 27 anos, que busca o tio, guerrilheiro desaparecido nos anos 1960, mas, para isso, ele se envolve na caçada a um yaguar, com o homem que o matou.

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