‘Favela É Moda’, é potência e é longa no Curta!

‘Favela É Moda’, é potência e é longa no Curta!

Rodrigo Fonseca

23 de janeiro de 2021 | 11h01

Cena de “Favela É Moda”

Rodrigo Fonseca
Astro de um dos mais concorridos colóquios do seminário Na Real_Virtual, em 2020, Emílio Domingos viu sua estrela subir nos céus do documentário brasileiro – merecidamente – pela riqueza de sua abordagem pra favelas como espaço de potência, na arte, no comportamento e no exercício político de afirmação territorial de vivência. Esses aspectos geopolíticos se tornam matéria de poesia sua obra cinematográfica, seja ao retratar a dança como gesto de resiliência – no premiado “A Batalha do Passinho – O Filme”, de 2012 – seja no registro de estilosos cortes de cabelo aparados, raspados ou “tesourados” nas comunidades – como visto em seu “Deixa na Régua”, de 2016. O capítulo mais recente de sua cartografia de resiliência aposta na rotina de uma agência de modelos periféricos em “Favela É Moda”, de 2019. Esse estudo sobre a representação de corpos negros – ganhador do prêmio de Júri Popular no Festival do Rio 2019, onde recebeu ainda uma menção honrosa – acaba de entrar na grade do Canal Curta!, tendo sessões neste sábado, às 14h20; no domingo, às 21h20; na segunda, às 16h30; e na terça, às 10h30. O longa já está disponível no Curta!On, clube de documentários do Now, da Claro NET.

Qual é o diálogo que Favela É Moda trava com os seus demais .docs? O que eles formam, conscientemente, como sociologia ou como exercício antropológico?
Emílio Domingos:
A relação do “Favela é Moda” com a Antropologia se dá a partir do processo de filmagem. É um filme realizado ao longo de quatro anos, por meio de contatos e de imersão nessa agência de modelos. Ele é um filme que vou construindo a relação a partir dessa convivência e disso que os antropólogos chamam de “observação participante”. Os três filmes da trilogia – “A Batalha do Passinho”, “Deixa na Régua” e “Favela É Moda” – não possuem essa pretensão de serem uma sociologia da juventude periférica contemporânea. A gente pode falar da juventude negra contemporânea, pois não podemos esquecer que essas regiões são predominantemente negras. O que acredito é que os filmes são uma espécie de retrato de processos de afirmação dessa juventude. Processos que surgem de formas espontâneas. As formas de dança no funk, os salões de barbeiro, a moda são extensões do cotidiano dessa juventude. Eles mostram o quanto essa juventude é criativa, o quanto as pessoas criam formas e técnicas para sobreviver ou para desenvolver sua arte. “Favela é Moda” tem muito disso, acrescido de que, nesse filme, falamos sobre uma juventude negra periférica que chegou na universidade também. Existe uma grande articulação além dessa experiência cotidiana, já a partir da vivência e do pensamento universitário. Existe a soma de um conhecimento acadêmico à vivência do dia a dia.

Don Filó com Emílio Domingos nos bastidores do .doc sobre as equipes dos bailes soul do RJ Crédito: @Leo Bittencourt

Qual é a sua origem geográfica no RJ e o quanto ela te acompanha em suas investigações?
Emílio Domingos:
A minha origem geográfica, de certa maneira, tem uma relação com a origem social. Sou filho de um porteiro, crescido na Zona Norte do Rio. Curiosamente, eu sempre circulei pelo Rio, porque os meus amigos eram das favelas da Tijuca e eu ia à casa deles desde os nove anos. Ao mesmo tempo, os meus amigos da rua eram de classe média. Eu sempre conheci esses dois lados, na vivência da desigualdade, desde muito cedo. Morei em Del Castilho durante a infância, por uns dois ou três anos. Foi onde cursei a primeira série. Também morei com minhas tias em Pilares. Tenho uma vivência muito grande na Zona Norte. Vim morar na Zona Sul já depois da faculdade. Então, conheço bem esses variados universos e, de certa maneira, isso é uma influência no meu cinema e no meu olhar, sem dúvidas. O fato de eu conhecer um pouco essas diversas faces da cidade e conhecer diversas classes econômicas reflete na minha estética, sintonizada com a experiência de sofrer na pele essas questões que acompanham a desigualdade econômica e o racismo da nossa sociedade.
Quais são os próximos projetos da sua investigação documental sobre favelas?
Emílio Domingos:
O próximo projeto que posso adiantar é o “Rio Black Power”, um filme em que volto no tempo, vou para os anos 1970 e abordo questões referentes ao movimento Black Rio. A gente pode considerar esses bailes soul como sendo o início do baile funk em termos estruturais, pelas formações das equipes de som que temos aqui no Rio de Janeiro. Isso já tem mais de 50 anos e os moldes dos bailes de hoje foram forjados ali e se modificando ao longo do tempo, ficando mais eletrônicos e ganhando mais elementos da cultura brasileira. No início, havia uma grande influência da música soul americana. O baile Soul, de certa maneira, também tinha elementos de samba nas músicas, com músicos nessa pegada. Com o tempo, o funk foi ficando eletrônico e o uso dos samples e das colagens foi se assimilando a atabaques e percussão. Esse filme vai ter como base a trajetória de Dom Filó, o empresário que criou a maior equipe de soul dos anos 1970. A partir dessa trajetória dele, quero falar da cultura do baile soul no Rio de Janeiro.

p.s.: Nesta terça-feira, dia 26 de janeiro, às 18h, no Instagram, o projeto Conversa Literária, da poeta, escritora e professora Cintia Barreto recebe um dínamo da periferia, o compositor Gustavo Pacheco (DoisG), que se impõe como um experimentador de linguagens e como um cronista do viver na cena rapper. Sua poesia se impõe pela força da experiência e pelo rigor estético. Responsável por uma série de cursos de pós no RJ, a partir da Universidade Cândido Mendes, estudando autoras e autores negras/os e mapeando vozes femininas, Cintia é hoje uma Indiana Jones do lirismo nas Letras, revelando talentos e chancelando estéticas pautadas pela invenção. O papo com Pacheco (DoisG) rola no @conversa.literaria.oficial e @_doisg.

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