Faróis da Berlinale: ‘Greta’ no Canal Brasil

Faróis da Berlinale: ‘Greta’ no Canal Brasil

Rodrigo Fonseca

17 de fevereiro de 2020 | 09h48

Rodrigo Fonseca
De carona na chegada do 70º Festival de Berlim, que arranca nesta quinta-feira, com a exibição hors-concours de “My Salinger Year”, de Phillip Falardeau, o Canal Brasil vai passar a semana radiografando sucessos recentes do evento, pinçados de competições recentes, como o doído documentário “Fogo no mar” (2016), a ser exibido nesta quarta, às 20h, e o cult “Sinônimos”, que passa no domingo, dia 23, às 23h. Mas vai ter filme brasileiro nesse bonde berlinense também: “Greta”, o vencedor do último Cine Ceará, revelado na Panorama da maratona germânica, terá exibição na emissora às 23h do próximo sábado, dia 22. É uma tocante viagem ao universo solitário do bas-fond LGBTQ+ do Ceará a partir de uma história de amor oblíqua.

Monstro sagrado dos palcos, imortalizado na TV como o Lineu de “A grande família” e como astro cômico de novelas eternizadas no coração do Brasil, como “Brega & Chique” (1987) e “Êta mundo bom!” (2016), Marco Antônio Barroso Nanini deixou seu nome gravado na 69ª edição da Berlinale, em fevereiro passado, numa atuação que devastou plateias de múltiplas nacionalidades. Ele é a alma “Greta”, filme no qual confessa ter embarcado por entusiasmo com o roteiro e com a chance de apostar na ousadia. Longa-metragem de estreia do cearense Armando Prata, esta releitura livre da peça teatral “Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá”, de Fernando Mello, faz um estudo (corajoso, sem pudor com tabus sexuais) do desamparo afetivo, radiografando a noite de Fortaleza. Fora da briga pelo Urso de Ouro, este folhetim cheio de fel sobre o enfermeiro septuagenário Pedro (Nanini) entrou na mostra Panorama como um forte (quiçá o mais possante) candidato ao troféu Teddy, láurea sobre filmes ligados às culturas trans e homoafetivas. Não ganhou, mas fez barulho forte. Ao fim de sua projeção, os europeus se perguntavam “Que ator monumental é esse?”, encantados com a dimensão de angústia que Nanini dá a Pedro, um gay já grisalho, solitário e fã de uma diva do cinema.
“Eu só espero que, no Brasil, quando o público for ver ‘Greta’, os meninos não estejam de azul nem as meninas de rosa”, brincou Nanini na Berlinale, alfinetando a frase da ministra Damares Alves sobre identidade de gêneros. “Pedro é um herói da vida, que encontra na solidariedade um meio de resistir às várias marés da vida”.

Com uma tônica similar ao do cinema do artesão alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), de “O medo consome a alma” (1973) e “Lili Marlene” (1981), “Greta” gravita de saunas gays a shows de cantoras trans para mostrar onde Pedro vai entorpecer o vazio em que vive. A dor que o consome é a falta de uma parceria. Mas, ao ajudar um rapaz acusado de assassinato, Jean (Demick Lopes, numa atuação impecável), a fugir do hospital, ele acaba se afeiçoando ao sujeito, abrindo uma porta inesperada para o querer. Uma porta cujas dobradiças estão enferrujadas. A fotografia é assinada por Ivo Lopes Araújo, um dos mais requintados artistas da imagem hoje no Brasil.
Falando da Berlinale nº 70, que vai até 1º de maço, confira a lista de títulos que estão em luta por prêmios:
Filmes em competição
“First Cow”, de Kelly Reichardt (EUA)
“Berlin Alexanderplatz”, de Burhan Qurbani (Alemanha)
“Schwesterlein” (“My Little Sister”), de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond (Suíça)
“Siberia”, de Abel Ferrara (EUA)
“Le Sel des Larmes”, de Philippe Garrel (França)
“The roads not taken”, de Sally Potter (Reino Unido)
“Undine”, de Christian Petzold (Alemanha)
“The Woman Who Ran”, de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)
“El prófugo”, de Natalia Meta (Argentina)
“Favolacce (Bad Tales)”, de Damiano & Fabio D‘Innocenzo (Itália)
“Effacer l’historique”, de Benoît Delépine e Gustave Kervern (França)
“Todos os mortos”, de Marco Dutra e Caetano Gotardo (Brasil)
“DAU. Natasha”, de Ilya Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel (Ucrânia)
“Sheytan vojud nadarad” (“There Is No Evil”), de Mohammad Rasoulof (Irã)
“Irradiés” (“Irridiated”), de Rithy Pahn (Camboja)
“Never rarely sometimes always”, de Eliza Hittman (EUA)
“Rizi (Days)”, de Tsai Ming-liang (Taiwan)
“Volevo nascondermi”, de Giorgio Diritti (Itália)

Dos realizadores de vasta ficha de bons serviços prestados às narrativas escalados para concorrer, a grife de maior adoração é Abel Ferrara (“Vício Frenético”), nova-iorquino de 68 anos, encarado sempre como um maldito, pelas abordagens viscerais da moral ocidental. Ele volta a campo com “Sibéria”, estrelado por Willem Dafoe. E a prata da casa não foi esquecida: Christian Petzold, maior cineasta em atividade na Alemanha nos últimos 20 anos, volta com “Undine”, brincando como o mito das sereias. Só não houve espaço, na caçada ao Urso, para títulos da Netflix, deixando evidente uma ofensiva da indústria do audiovisual ao boom do streaming, que já havia encontrado um terreno fértil pra si na capital alemã.
Nas mostras paralelas, os principais destaques são a projeção de “Pinóquio”, uma superprodução à italiana de Matteo Garrone (“Gomorra”), com Roberto Benigni (de “A vida é bela”) como Geppetto, e a animação da Pixar “Dois Irmãos: Uma jornada fantástica” (“Onward”), de Don Scanlon, dublada por Tom Holland e Chris Pratt. E tem Johnny Depp em “Minamata”, de Andrew Levitas. Ele dá vida ao fotógrafo W. Eugene Smith (1918-1978), famoso pela natureza ensaística de seu trabalho, sobretudo na documentação de guerras. O filme aborda sua incursão ao Japão, onde ele registrou vítimas de envenenamento por mercúrio. A presença de Depp deve elevar a temperatura do festival.

p.s.: Um ano depois do fim da Berlinale 2019, um de seus melhores filmes segue inédito por aqui: um melodrama daqueles de arrancar berreiros chamado “So long, my son”, de Wang Xiaoshuai. Aos 53 anos, o diretor chinês já foi premiado em solo alemão por “In love we trust” (2008) e por “Bicicletas de Pequim” (2001). Seu novo longa é um doído painel das transformações sociais da China, da década de 1980 em diante, a partir da experiência afetiva de um casal devastado pelo luto, decorrente da morte de um filho, ainda criança, nas águas de um canal. Wang Jingchun e Yong Mei saíram da capital alemã com os prêmios de melhor atriz e ator pelo desempenho comovente que têm em cena.

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