‘Fargo’ da Via Dutra chega ao Shell Open Air

‘Fargo’ da Via Dutra chega ao Shell Open Air

Rodrigo Fonseca

24 Maio 2018 | 13h28

Fotografia de Dante Belluti injeta cores documentais à narrativa de thriller à la Irmãos Coen de “Como É Cruel Viver Assim”

Rodrigo Fonseca
Maior cinema a céu aberto das Américas, quiçá da Terra, com sua tela de 325m², o Shell Open Air receberá nesta sexta-feira, 21h, um filme nacional à altura de suas dimensões agigantadas: uma espécie de “Fargo da Via Dutra” chamado Como É Cruel Viver Assim. Um dos achados de maior valor simbólico do Festival do Rio 2017, esta produção é pilotada pela diretora carioca Julia Rezende, campeã de bilheteria com a franquia Meu Passado Me Condena (2013-15), conhecida por retratos das crises afetivas da juventude (Ponte Aérea). Ela embaralha todas as certezas que o cinema brasileiro tinha sobre sua estética ao rodar um thriller criminal à moda Irmãos Coen. Engraçado, mas desesperançoso e violento, o longa-metragem é uma adaptação da peça teatral homônima de Fernando Ceylão (o melhor texto dele), sobre quatro fracassos profissionais, de Nilópolis, que se envolvem num sequestro. É difícil não pensar no cult Fargo (1996) vendo as viradas surpreendentes do enredo filmado por Julia.

Fabíula Nascimento é o destaque do elenco, como a dona de uma lavanderia que embarca com o namorado falido (Marcelo Valle) no projeto do rapto de um ricaço da Barra. Existem sacadas cômicas hilárias no roteiro, mas sua reflexão sobre a falência moral é mais forte (e alarmista) do que o riso.  Com traços de investigação antropológica em seu olhar para Nilópolis, Como é Cruel Viver Assim se impõe na tela pelo colorido esmaecido da fotografia de Dante Belluti (um talento ainda pouco reconhecido), capaz de valorizar a arquitetura pouco explorada da Baixada Fluminense. Na trupe de atores, o veterano Otávio Augusto brilha no papel do poderoso chefão, fã de doces de Cataguases, chamado Velho.

A presença desse filme no espaço nobre do Shell Open Air é um sinal de respeito ao trabalho de Julia, um bicho do dito “Cinema de Mercado”, com o “c” e o “m” escritos com a caixa alta das cifras gordas…. (se é que ainda não se entendeu que Julio Bressane também tem um mercado, que o cinema pernambucano tem seu mercado…). Este filmaço que ela dirigiu segue um plot mais tragicômico do que seu padrão habitual de Julia. De fato, parece haver uma paleta de cores em Como É Cruel Viver Assim que não havia em seus longas de antes, na presença da violência, no retrato para a sobrevivência das espécies, numa lupa para a vida suburbana. Não por acaso, o filme chamou atenção em sua passagem pelo Marché du Film do Festival de Cannes, lugar onde, pelo praxe, não esperar-se-ia uma figura do cinemão sul-americano.

Mesmo em seus longas de padrão varejão, Julia, agora envolvida em De Pernas Pro Ar 3, tem algo de diferenciado. Seu cinema de humor é diferenciado sobretudo na comparação com o ethos da neochanchada (um filão sintonizado com a ascensão das classes C e D, subjetivando figuras que subiram na pirâmide social durante a Era Lula e a Era Dilma, de pernas pro ar pro consumo, até que a sorte nos separasse deles). Existe uma delicadeza de múltiplos matizes na maneira como Julia faz uma crônica de costumes a fim de fazer rir. Uma delicadeza de menina, uma delicadeza de mulher, uma delicadeza de quem domina (e regurgita) referências da Era Ploc e dos anos 2000, de Chaves a Freaks and Geeks, lidas à luz de uma brasilidade à moda Central do Brasil (1998) capaz de falar frontalmente com a mais desconhecida de todas as audiências do Presente: os millennials. Julia talvez seja (ou filme como) uma deles, daí falar com essa plateia – a consumidora mais ávida de toda a cauda longa do Mundo Contemporâneo – de modo frontal.
p.s.: Nesta quinta tem Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994) no Shell Open Air.