Fantasporto testa o ‘Bikini Moon’ de Manchevski

Fantasporto testa o ‘Bikini Moon’ de Manchevski

Rodrigo Fonseca

26 de fevereiro de 2018 | 23h48

“Bikini Moon” tira sarro do reality shows

Rodrigo Fonseca
Na época em que Antes da Chuva (1994) virou o filme-fetiche do cinema cabeça, com suas artimanhas para desafiar as regras do tempo narrativo, o macedônio Milcho Manchevski, seu realizador, era disputado até por produtores de estética mais pipoca, avessos a autoralidades, dado ao prestigio daquele olhar sobre a atomização iugoslava. Porém, a originalidade do cineasta passou a ser encarada como uma iguaria de difícil de digestão, o que hoje faz com que ele leve sete anos para completar um projeto como Bikini Moon, exibido nesta segunda no Fantasporto. Um dos maiores eventos da cultura pop da Europa, consagrado há quase 40 anos como vitrine de luxo para terror, sci-fi e fantasia, o festival português, na cidade do Porto, lotou o Cine-Teatro Rivoli, seu centro nervoso, de fãs de Manchevski e curiosos por sua linguagem filosófica. Em seu novo trabalho, exibido na Mostra de São Paulo, uma sem-teto dos EUA atrai olhares de uma equipe de documentaristas, que desejam representar a vida dela como um conto de fadas. Mas ela vai subverter o projeto do grupo.

“As mídias digitais confinaram a gente ao registro contínuo: documenta-se tudo, e esse tudo recebe um status de verdade, mas quando é provisório. Criamos uma subserviência ao Real”, disse Manchevsky ao P de Pop.

No Rivoli, a segunda ainda tremeu com os sustos provocados por A Child Remains, de Michael Melski, sobre um casal numa estadia romântica numa casa que serviu de abatedouro para bebês nos anos 1970. Uma das maiores promessas do festival esta agendada para quinta: Aparição, de Fernando Vendrell sobre uma aluna de Latim que pode não ser deste mundo. Victória Guerra é o destaque do elenco. “A seleção do Fantasporto tem sempre uma preocupação de qualidade. Não importa o gênero de filme – e há de tudo no festival – mas tem de ser muito bom”, diz, sem falsa modéstia, a diretora do evento luso, Beatriz Pacheco Pereira.

Nesta terça é dia de o Fantasporto conferir Replace, produção de Norbert Keil sobre uma mulher que tenta substituir sua pele pela de outras. Essa trama rendeu a Keil o troféu Méliès de Melhor Filme Europeu no Festival de Bruxelas. Nesta sexta, Toni Venturi, que já está na cidade, vai exibir seu A Comédia Divina por aqui, mostrando a face mais feminina de Deus, na forma de Zezé Motta. Centrado nos esforços do Demônio para abrir uma igreja e recuperar sua popularidade diante do… digo, da Toda-Poderosa, o filme de Venturi é a única produção da América Latina em concurso no evento, que vai até 4 de março. Ele disputa com títulos como Ruin Me, de Preston De Francis (EUA); Ilawod, The Water Spirit, de Dan Villegas (Filipinas); Ajin: Demi-Human, de Katsuyuki Motohiro (Japão); e Les Affamés, de Robin Aubert, do Canadá. O resultado sai neste sábado, quando o mítico ator brasileiro Tony Ramos ganha uma homenagem por aqui, pelo conjunto de sua carreira, a partir de sua presença por aqui para a exibição de episódios da série Vade Retro, de Mauro Mendonça Filho.

Enquanto isso, no mundo das prospecções, Portugal sonha com uma vaga no 71º Festival de Cannes para Vitalina Varela, que acaba de finalizar. Trata-se do mais potente dos cineastas lusos em atividade.

 

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