Fantasporto acolhe ‘A Comédia Divina’ e séries da Globo

Fantasporto acolhe ‘A Comédia Divina’ e séries da Globo

Rodrigo Fonseca

03 Janeiro 2018 | 11h13

Murilo Rosa morde a maçã da vilania em “A Comédia Divina”: ironia na reflexão sobre a mídia

Rodrigo Fonseca
Vitaminado por diálogos provocativos que saltam aqui e acolá e por uma afrodisíaca participação de Juliana Alves como um súcubo danadinho, A Comédia Divina marcou um gol na partida pela ampliação da presença brasileira em telas estrangeiras: o filme vai representar o país na seleção competitiva de um dos maiores festivais de horror e fantasia do mundo, o Fantasporto, em Portugal. Centrado nos esforços do Demônio para abrir uma igreja e recuperar sua popularidade, o filme de Venturi é a única produção da América Latina em concurso no evento, que vai de 20 de fevereiro a 4 de março, no Teatro Rivoli, no Porto. Ele disputa com títulos como Ruin Me, de Preston De Francis (EUA); Ilawod, The Water Spirit, de Dan Villegas (Filipinas); Ajin: Demi-Human, de Katsuyuki Motohiro (Japão); e Les Affamés, de Robin Aubert, do Canadá. A abertura será com o terror espanhol Marrowbone, de Sérgio G. Sánchez.

“Só exceções de nosso cinema costumam chegar ao circuito estrangeiro. Por isso, fazer parte de um festival de gênero, do porto do Fantasporto, abre uma possibilidade de encontrarmos novos espaços no mar do audiovisual para nossos filmes”, diz Toni Venturi. “Esse espaço, na Europa, pode estar, por exemplo, na TV”.

Tony Ramos em “Vade Retro”

Existe a grife Globo Filmes (que este ano completa 20 anos) por trás de A Comédia Divina. Mas a presença do plimplim no Fantasporto vai para bem além do braço cinematográfico da emissora. O festival repete sua parceria com o canal – iniciada em 2017 com uma mostra do melhor da grade da rede – e apresenta episódios de duas séries de requinte. De um lado vem a hilária Vade Retro, um produto do diretor Mauro Mendonça Filho, com Tony Ramos no lugar do Trem Ruim e a supracitada La Iozzi de advogada; do outro, está Carcereiros, thriller prisional com Rodrigo Lombardi, feito com a grifa autoral do cineasta José Eduardo Belmonte. Também no pacote global entrou o telefilme Meio Expediente, de Santiago Dellape.

O que existe de mais chamativo em A Comédia Divina para as plateias do Velho Mundo? Bem… Trata-se de um exercício autoral com lampejos de leveza. Bamba nos gramados do real, seja no .doc (O Velho – A História de Luiz Carlos Prestes) seja no drama social (caso do profilático Estamos Juntos), o cineasta Toni Venturi pisa aqui no campo da Comédia encarando sua cartilha não como adversária mas como um espaço a explorar o Fla x Flu entre a fé a liberdade plena… sobretudo a de pensar. Por isso, essa sua partida contra a letargia do humor dá a ele um placar favorável na seleção brasileira de diretores que contestam convenções morais da sociedade. O que Venturi faz nesta produção, que estreou aqui durante o Festival do Rio 2017, é discutir a fronteira entra os verbos “crer” e “ser livre” na zaga da prática midiática, investigando o papel da TV na aceitação diária de práticas religiosas que, nem sempre, primam pela caridade. Sua fonte aqui é o conto A Igreja do Diabo, de Machado de Assis.

Seu atacante nesse jogo é Satanás, defendido com todo o carisma que Murilo Rosa tem e todas as fragilidades humanas que ele sabe traduzir entre risadas gordurosas de júbilo diante da pequenez humana. Cansado de ser menos assustador do que as atrocidades dos mortais, ele vai encarar o Criador – aqui na forma de uma mulher negra, no caso uma das mais mitológicas atrizes de nosso cinema: Zezé Motta – ao decidir seguir o papel de evangelizador, fundando uma seita. Gritos de “Quem quer dinheiro” funcionam – para qualquer bom entendedor – como uma dedada no orifício televisivo de nosso imaginário pop. De quebra, ainda tem a hilária elegia da gula, com hambúrgueres no lugar de hóstias.

Tentação da carne: Raquel (Monica Iozzi) reza pelo credo da cobiça

Em meio às guloseimas de Satã, entra em cena a iguaria maior, Monica Iozzi, na pele de Raquel, uma repórter de escrúpulos duvidosos que cai nas garras do demo e se empapuça de suas cutículas com o desejo de brilhar na TV. Existe um tônus romântico em torno de Raquel, mas Monica dribla seu determinismo lírico, apostando numa figura tridimensional, que sente, que sofre… mas que chafurda no enxofre da cobiça quando vê os holofotes da oportunidade brilharem. A atuação dela torce obviedades da nossa moral e põe pimenta no filme, que derrapa um pouco nos excessos de música e na falta de retidão de sua dramaturgia na investigação do que há de demoníaco em gente como a gente. Isso dá certo até certo ponto da narrativa, depois desanda. Mas, nem por isso, a graça se esvai. Tampouco a ironia. Visualmente, a direção de arte de Ana Rita Bueno acentua as incongruências entre Céu e Inferno, sem resvalar em objetos cênicos óbvios.

 

Na reza pela reflexão, A Comédia Divina mexe com certos Absolutos de nosso cinema, tirando a fantasia da inércia.