‘Fantasma Neon’, som do desmantelo em Locarno

‘Fantasma Neon’, som do desmantelo em Locarno

Rodrigo Fonseca

05 de agosto de 2021 | 14h40

Dennis Pinheiro e Silvero Pereira em “Fantasma Neon”

Rodrigo Fonseca
Teve Brasil na abertura do Festival de Locarno .74, na quarta-feira, uma vez que a RT Features, de Rodrigo Teixeira, é a produtora de “Beckett”, tenso thriller com John David Washington, mas vão ter outros sopros de brasilidade no evento suíço, incluindo um musical. “Fantasma Neon”, que vai ser projetado no dia 12, na mostra competitiva Pardi di Domani, disputa o troféu dos curtas-metragens contando o dia a dia de um entregador de comida, João, que singra o Rio com sua bicicleta. O papel pode dar ao talento mineiro Dennis Pinheiro um reconhecimento internacional à altura de sua força cênica, testada e aprovada nos palcos. Tem Silvero Pereira em cena também, febril. Mas o filme confirma também a potência do cineasta Leonardo Martinelli. Ele integra a atual programação da Première Brasil do Festival do Rio, iniciada nesta sexta no Estação Botafogo e no InnSaei.tv, com “O Prazer de Matar Insetos”. Na entrevista a seguir, ele explica ao Estadão como entrou no universo dos motoboys dialogando com os musicais da Metro, fazendo um “Guarda-Chuvas do Amor” regado a exclusões.

Qual é o Brasil que perpassa o teu “Fantasma Neon” e como ele ficou ainda mais inflamado após a tragédia da Cinemateca?
Leonardo Martinelli:
É um país em desmonte. Uma nação que gradativamente tem suas instituições enfraquecidas e seus direitos sociais e trabalhistas extinguidos. Nosso filme busca retratar apenas uma vida nesse cenário, um microcosmos que espelha a situação que afeta milhões de brasileiros, de forma material e imaterial. A tragédia de Cinemateca, por exemplo, era extremamente previsível e poderia facilmente ter sido prevenida caso o vigente governo quisesse. Suas chamas fazem parte desse projeto de desmonte e apagamento da cultura e da memória nacional.
Que cânones musicais você busca revisitar e de que maneira a brasilidade entra na coreografia do Dennis Pinheiro e do funk em cena?
Leonardo Martinelli:
Buscamos analisar o que constrói a estética e a mise-en-scène do musical clássico da era do ouro Hollywoodiana, assim como abordagens mais alternativas como as de Jacques Demy e Bob Fosse. Ao mesmo tempo, também buscamos referências dentro do cânone da música brasileira, que tem muitos álbuns com abordagens bem narrativas. Trabalhos como “Construção”, de Chico Buarque; “Estudando o Samba”, de Tom Zé; e “Stone Flower”, do Tom Jobim. O objetivo era atingir um ponto que abordasse de forma original o estilo do cinema musical clássico, ao mesmo tempo que subvertêssemos suas estruturas, trazendo canções de gêneros brasileiros como um pilar estrutural. Por isso, o filme o busca lançar uma flecha que amarra o funk carioca, o MPB e a Bossa Nova. Dennis Pinheiro materializa esse personagem do musical clássico que está lutando por uma vida melhor. Entretanto, a realidade do nosso país é outra, e é isso que o filme busca transmitir.
Todas, todos e todes as/os/es entregadores retratados no curta são motigirls e motoboys mesmo? São “não atores”? Como fica essa condição centauro de .doc e ficção?
Leonardo Martinelli:
O filme flerta com o híbrido e a etnoficção ao misturar entregadores reais e atores no elenco e na narrativa. O filme segue a linha principal de uma narrativa ficcional, mas suas arestas foram bordadas pela realidade, e essa realidade é tão esmagadora que acaba por entrar nessa ficção e exigir seu espaço lá. Por isso o filme traz depoimentos reais de situações que entregadores enfrentaram durante seus trabalhos, e reencenamos essas histórias com o viés ficcional. O gênero musical, um dos mais fantasiosos do cinema, entra pra causar um contraste entre o diegético e as possibilidades que o cinema pode trazer.

“A Máquina Infernal”

Neste sábado, cinco dias antes da exibição de “Fantasma Neon”, Locarno confere um outro curta nacional, “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis, que dialoga com a recente onda do “extraordinário”, ou seja, a vigência de vetores do inexplicável e do metafísico entre nós, a partir de um olhar, nas margens do terror, para o apocalipse em uma fábrica do ABC Paulista. Difícil não pensar na luz de “Christine, o Carro Assassino” (1983) diante da fotografia de Alice Andrade Drummond e Bruno Risas. A sequência de uma discussão sobre os rumos de uma linha de montagem evoca desde o seminal “A Classe Operária Vai ao Paraíso” (Palma de Ouro de 1972), do italiano Elio Petri, até o português “A Fábrica de Nada” (2017), de Pedro Pinho. A montagem de Cristina Amaral leva o clima sombrio à ebulição.
Falando de pequenos grandes filmes, ferve à temperatura máxima a mostra Pardi di Domani: Concorso Corti d’Autore. Ganhador do Urso de Ouro de 2021, em março, com “Bad Luck Banging or Loony Porn, o romeno Radu Jude leva sexta a Locarno o divertido “Caricaturana”. Concorrem com ele cineastas que alcançaram status recente de cult, como a portuguesa Salomé Lamas (no páreo com “Hotel Royal”), o suíço Cyril Schäublin (com “Il Faut Fabriquer Ces Cadeaux”) e os franceses Yann Gonzalez (com “Fou de Bassan”) e Bertrand Mandico (“Dead Flesh”). E ao lado dele há um mestre, o italiano Marco Bellocchio (recém-laureado em Cannes com uma Palma honorária) de volta com “Se Posso Permettermi”.

“Hinterland”

Dos longas-metragens em competição pelo Leopardo de Ouro, “Petite Solange”, da diretora Axelle Ropert, da França, é o primeiro destaque de Locarno, narrando a desagregação de uma família, entre traições e decepções de um casal (Léa Drucker e Philippe Katerine), do ponto de vista de uma menina que está chegando à adolescência, vivida por Jade Springer. Nesta sexta, dois filmes prometem sacudir as telas suíças: “Hinterland” e “Il Legionario”. O primeiro marca a volta às telas do diretor austríaco Stefan Ruzowitzky, ganhador de Oscar por “Os Falsários” (2007), numa história ambientada no fim da II Guerra, quando um soldado volta dos fronts incumbido de caçar um assassino que eliminou seus colegas de farda. É um fortíssimo nome na disputa oficial. Já o segundo é a principal aposta da seção paralela Cineasti del Presente, e parte do olhar do cineasta bielorrusso radicado na Itália Hleb Papou sobre uma brigada policial de Roma em que um cadete de origem africana precisa deter seus conterrâneos em uma ocupação. O festival chega ao fim no dia 14 com a sessão de “Respect”, com Jennifer Hudson em seu mais inspirado trabalho desde “Dreamgirls” (2006), narrando os percalços de Aretha Franklin na música e na luta contra o racismo.

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