‘Fantasma Neon’ a caminho de San Sebastián

‘Fantasma Neon’ a caminho de San Sebastián

Rodrigo Fonseca

15 de setembro de 2021 | 12h24

Rodrigo Fonseca
Um mês depois de conquistar o Leopardo de Ouro de melhor curta-metragem em Locarno, em terras suíças, o musical “Fantasma Neon”, dirigido pelo diretor carioca Leonardo Martinelli, vai escancarar dilemas sociais do Brasil nas telas de San Sebastián, evento sexagenário que leva os temperos do norte da Espanha para o G7 dos grandes festivais, ao lado de Cannes, Berlinale, Veneza, Toronto e Roterdã. A programação da maratona cinéfila espanhola começa nesta sexta, com a projeção de “One Second”, de Zhang Yimou. Nascido no Andaraí, há 23 anos, Martinelli – realizador de curtas como “Copacabana Madureira”, de 2019, e “O Prazer de Matar Insetos”, de 2020 – vai exibir seu premiado filme nas telas de Donostia (nome de San Sebastián em Euskera, a língua local) no dia 21, na seção Nest. Sua trama fala sobre um entregador de comida, tipo i-Food, João (papel de Dennis Pinheiro), em meio à selva de ódios que a realidade contemporânea da covid-19 virou. Música e dança entram em cena como uma forma de sobreviver à aspereza do dia a dia, num debate sobre exclusões diversas, incluindo o racismo.

De que estrutura de produção você dispôs para o filme, em termos de orçamento, de equipe de cronograma de filmagem e de montagem? Como você avalia, hoje, o processo de fomento às curtas no Brasil?
Leonardo Martinelli:
O filme foi realizado com recursos do edital emergencial Aldir Blanc. Apesar de anos trabalhando no setor audiovisual, foi a primeira vez que nossa equipe conseguiu recursos de um edital público. O motivo disso foi a proposta do Edital Aldir Blanc, que focava numa mais ampla distribuição e desterritorialização dos recursos. Essa abordagem foi muito positiva, pois fez chegar recursos onde nunca se teve antes. Entretanto, em contrapartida, nossos prazos de realização foram bem apertados. Tivemos apenas três meses para realizar o filme, depois que recebemos o orçamento. Ao se aproximar do limite, esse prazo foi adiado, mas já havíamos feito todo nosso planejamento para o prazo original. Acredito que faltam estímulos para a produção de curtas-metragens no Rio de Janeiro. Alguns outros estados têm editais mais bem estabelecidos, mas no RJ a situação é bem instável. O que é uma pena, pois o curta pode ser uma plataforma para investir em novos talentos e democratizar o acesso aos meios de produção cultural.

Qual é o Rio de Janeiro que João simboliza?
Leonardo Martinelli:
João simboliza um Rio de Janeiro que luta por uma história diferente. É alguém que quer além do que a sociedade esperaria dele. Ao mesmo tempo, é alguém que questiona justamente as razões do se espera sobre ele. Essa revolta surge através do musical e das alegorias de assombração de um fantasma simbólico que lhe persegue.
Como foi o processo de composição da trilha sonora e das canções que João canta?
Leonardo Maerinelli:
As composições são de uma talentosa dupla carioca, José Miguel Brasil e Carol Maia. As letras são minhas e de Ayssa Yamaguti Norek, que também é produtora do filme. Nós quatro tínhamos reuniões semanais nas quais discutíamos referências e abordagens pra essa construção da malha musical do filme. Eu trazia como estava imaginando a construção cinematográfica das cenas musicais, e os compositores propunham abordagens a partir das referências que traçamos juntos. Tivemos reuniões com o ator Dennis Pinheiro para testar formas de cantar e testa alcances da voz dele, que sempre eram além do imaginável. Em paralelo, eu e Ayssa virávamos noites pensando em letras e possíveis rimas para enriquecer a narrativa e o universo musical do filme.

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