‘Family Tree’ rega a estética HQ de Jeff Lemire

‘Family Tree’ rega a estética HQ de Jeff Lemire

Rodrigo Fonseca

25 de agosto de 2021 | 09h09

Rodrigo Fonseca
Bancas por toda a cidade de São Paulo, sobretudo as da Avenida Paulista, estão vendendo o encadernado “Sweet Tooth”, editado pela Panini Comics a partir da saga ecológica distópica publicada nos EUA de 2009 a 2013, quando a ideia de uma pandemia capaz de quarentenar o planeta só cabia em histórias em quadrinhos… em especial em quadrinhos tão geniais quanto os do canadense Jeff Lemire. O nome dele anda em alta desde que a Netflix transformou a luta do tal Dente Doce, o menino-alce Gus (interpretado por Christian Convery) e seu protetor, o grandalhão Jepperd (Nonso Anozie), em um seriado eivado de fantasia. Mas a obra de Lemire – que lançará um thriller sobrenatural inédito, chamado “Mazebook”, nas gibiterias americanas na segunda semana de setembro, via Dark Horse Comics – vai muito além do ambientalismo, de mãos dadas a uma mirada existencial nas tramas que escreve e desenha. Tem muita editora lançando coisas boas dele no Brasil, atenta à diversidade de gêneros perseguidos pelo escritor e ilustrador de 45 anos, sobretudo a Intrínseca, que importou da Image Comics uma joia dele: “Family Tree”, de 2019. O álbum brasileiro é um luxo só, bem traduzido por Fernando Scheibe.

Lemire, um existencialista nascido em Ontário, no Canadá

Entre flechas do Arqueiro Verde e elocubrações psicodélicas do Homem-Animal, nos quais deu o ar de seu traço, na DC Comics, Lemire aproveitou brechas na indústria – onde é disputado ainda pela Marvel, pela Top Shelf e pelo TKO Studios – pra criar um trabalho particularíssimo, sobre uma menina que, dia a dia, vai se transformando numa árvore. Nem pense no Groot, o monossilábico herói vegetal de “Guardiões da Galáxia”. A metamorfose da pequena Meg, em “Family Tree” tem mais conexão com o curta-metragem brasileiro “Um Ramo”, exibido em Cannes em 2007, por Juliana Rojas e Marco Dutra. Nele, folhas e caules começam a nascer da pele de uma mulher (Helena Albergaria) sem razão aparente, numa manifestação do Extraordinário (força nas raias do sobrenatural) entre nós. Mas, em Lemire, parece haver uma razão na mutação de Meg, que remonta a uma situação parecida com seu sumido pai, que, supostamente abandonou mulher e filhos, mas, na prática, não largou seu lar – ele virou uma araucária falante. Quem vem dizer isso a Meg e à mãe dela, a amargurada Loretta, é o avô cuja existência a menina desconhecia: Judd. Parecidíssimo com o ator Nick Nolte, Judd chega armado até os dentes para salvar sua netinha, sua nora e seu neto maconheiro, Josh, de uma horda violenta que anseia capturar as pessoas que se metamorfoseiam em folhagens e galhos.

Desenhado por Phil Hester, Eric Gapstur e Ryan Cody, “Family Tree” arrebata, página após página, pela maneira como Lemire trafega pelo existencialismo para tratar o assunto fetiche de sua obra: a manutenção da instituição família. São dele álbuns preciosos como “O Soldador Subaquático” (2012), “O Ninguém” (2009) e “Condado Essex” (2008). Tipos solitários, cuja rotina é um ímã de aspereza (mais a afetiva do que a física) – como o Jepperd de “Sweet Tooth” -, parecem ser a tradução de sua investigação filosófica, quase sempre mesclada a referências da identidade cultural canadense. “Meu desafio é espatifar arquétipos”, disse Lemire ao Estadão, em maio, semanas antes de “Sweet Tooth” estrear na streaminguesfera.
Nos anos 1980, quando os gibis em escala industrial, de publicação mensal, ganharam um status mais adulto, graças às reflexões políticas, morais e ontológicas de Alan Moore (“V de Vingança”), Neil Gaiman (“Sandman”), Frank Miller (“O Cavaleiro das Trevas”) e Grant Morrison (“Asilo Arkham”), editoras de escopo popularesco, com tiragens milionárias, passaram a investir em talentos que injetassem inquietações filosóficas nas narrativas quadrinizadas, gerando best-sellers autorais. Dos anos 2000 pra cá, poucos quadrinistas capazes de unir prestígio e sucesso de venda despontaram na seara dos super-heróis. As exceções: Mark Millar (“Kick-ass”), Garth Ennis (“The Boys”) e Lemire, que se distancia desses dois por timbrar sua escrita de intimismo e fugir de uma representação mais pop da selvageria. Não existem vilões em Lemire, nem vigilantes inquebráveis como o esqueleto de Adamantium de Wolverine, cujas histórias ele pilotou de 2016 a 2017, na fase “Velho Logan”. Existem, sim, fragilidades, atos de coragem e paixões.
“Trevas nos cercam, vez ou outra. As minhas histórias passam por elas, pelas trevas do nosso espírito, para falar de perseverança”, diz Lemire ao Estadão, na entrevista via Zoom promovida pela Netflix pra divulgar a saga de Jepperd e Gus, considerada sua obra-prima.

Desde novembro, ele vem trabalhando numa nova safra de histórias sobre o universo de Gus, ambientada 300 anos depois dos feitos a serem narrados na série. “Subversões podem ser emotivas”, diz o quadrinista, que, em “Mazebook”, narra a história de um inspetor imobiliário às voltas com uma ligação telefônica misteriosa: quem o chama, no celular, é a voz de sua filha morta, clamando por socorro.

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