Falta pouco para o seu Oscar chegar, DiCaprio

Falta pouco para o seu Oscar chegar, DiCaprio

Rodrigo Fonseca

02 de fevereiro de 2016 | 00h31

Oscar à vista:

Oscar à vista: “O Regresso” já é blockbuster nos EUA

Depois de uma longa espera – de muito compartilhamento via web, por conta de um vazamento que assombrou Hollywood – enfim o western dark O Regresso (The Revenant), de Alejandro González Iñarritu, estreia no Brasil neste fim de semana de carnaval, com fome de bilheterias gordas, tão obesas quanto as contabilizadas lá nos EUA, onde papou já US$ 138,4 milhões. Esse dinheiro todo deu prestígio ao filme e fez a cama na qual Leonardo DiCaprio vai se deitar no próximo dia 28, durante a cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, abocanhando o Oscar de melhor ator que merece há muito tempo. Como um esquenta para a estreia, o canal a cabo MaxPrime exibe nesta quarta (dia 3/2), às 14h, a produção que já havia confirmado a maturidade do astro, tateando pelas bordas do riso: O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013). Tem reprise dele no domingo, às 18h20m.

Numa atuação memorável, DiCaprio ganhou o Globo de Ouro de melhor ator de comédia em 2014 por

Numa atuação memorável, DiCaprio ganhou o Globo de Ouro de melhor ator de comédia em 2014 por “O Lobo de Wall Street”, indicado a cinco Oscars mas esnobado na Academia

Maior sucesso de bilheteria de Martin Scorsese em arrecadação global, com um faturamento estimado em US$ 392 milhões, O Lobo… preenche uma cédula que o septuagenário cineasta nova-iorquino – um dos maiores diretores da História – jamais preencheu com propriedade: a cédula do sexo. Os votos do realizador na sexualidade sempre oscilaram entre o voto nulo e a discrição extrema, como um fruto da névoa católica opressora em sua criação em Little Italy. Cabo do Medo (1991) havia sido seu flerte mais direto com o erotismo. Mas, 22 anos depois, a história (de timbres e tintas reais) de Jordan Belfort, o investidor da bolsa que chegou à condição de milionário entre fraudes e macetes escusos, serviu para excitar Scorsese. Situações atípicas em sua obra e na de seus contemporâneos de Geração Easy Rider (a leva de realizadores responsável por uma hemodiálise audiovisual nos EUA de 1967 a 1980, com filmes de engajamento político e crítica social) pontuam a transposição ás telas da jornada corrupta de Belfot, a começar por uma vela usada para fazer um fio-terra no personagem encarnada com majestosidade por Leonardo Wilhelm DiCaprio. Cenas de muito topless, aeróbicas vaginais, transas coletivas – elementos antes incompatíveis com o olhar de mundo cristão carola de Scorsese – entram aqui num desfile hormonal sem pudor. É o Scorsese mais libertário, mais bem resolvido com seus tabus pessoais, mais debochado (e sem culpa) quanto ao uso de entorpecentes. É, enfim, um trabalho de maturidade de quem já amadureceu faz décadas – desde, no mínimo, Depois de Horas (1985). Por isso, é tão estimulante ver um senhor de 71 anos (sua idade à época da estreia mundial do longa-metragem, em 2013) agir como um adolescente púbere encantado com a força do desejo.

É em meio a turbilhão sensual (e sensorial) que Scorsese promove o que se chama nos estudos de dramaturgia de “narrativa de segundo campo”. Trata-se de uma narrativa onde o foco não é a evolução e a correção do caráter do personagem e sim o quanto a sua “jornada (anti-)heróica” pode render de discurso sobre a sociedade, ou no caso, sobre o microcosmo chamado USA, os Estados Unidos do neoliberalismo. E Belfort, na releitura abusada de DiCaprio,é a síntese do cógito neoliberal. Scorsese abre sua experiência sexualizada detonando o limite de fabulação que separa filme e realidade: Belfort olha para a câmera e conversa conosco, deixando visível um distanciamento da mentira que criou ao seu redor para subsistir. Ali, Scorsese deixa de ser o intermediário de seu conto moral e faz plateia e protagonista conversarem sem interlocução de ninguém.

Belfort (DiCaprio) toma uma lição de hedonismo de seu guru Mark Hanna (Matthew McConaughey)

Belfort (DiCaprio) toma uma lição de hedonismo de seu guru Mark Hanna (Matthew McConaughey)

Com olho nos olhos do espectador, Berlfort deixa claro a sua cupidez, a sua voracidade: de origem pobre e família fracassada, quer absorvero mundo inteiro agora que tem idade para legislar sua própria vida. E vai engolir o que houver ao seu redor. Autor que é, Scorsese sempre volta ao mesmo tema: há sempre um Cordeiro a ser imolado em nome de um deus menor do que o Deus católico, no caso, aqui, o deus-mercado, o deus-capital. Ao longo de seus 180 feéricos minutos, esta produção de US$ 100 milhões documenta ficcionalmente a imolação de Belfort e seu (autos)sacrifício em prol das exigências capitalistas se converter suas “criancinhas” em fariseus. E conforme Belfort vai se afastando de sua sanidade, embebedado nas benesses do dinheiro, ele vai se afastando do sonho de prosperidade afetiva que o trabalho poderia proporcionar. E já que a mais-valia tende a acabar, como profetizou um certo barbudo alemão no século XIX, Belfort vai perdendo sua alma num calvário antimarxista alheio a lutas de classes, ávido pelo sangue de todos. Esta homilia nos é contada com o charme da fotografia do mexicano Rodrigo Prieto e o reforço de coadjuvantes como Matthew McConaughey, pleno de si na pele do guru onanista de Belfort.

* Esta é uma versão recauchutada do texto publicado originalmente no catálogo da mostra Os Melhores Filmes do Ano da Associação de Críticos do Rio de Janeiro, em 2014, sediada pelo Centro Cultural Banco do Brasil.

Scorsese dirige Andrew Garfield em

Scorsese dirige Andrew Garfield em “Silence”

p.s.: Já que a conversa levantou a bola de Scorsese, rola a boca pequena que o Festival de Berlim, em sua 66ª edição (11 a 22 de fevereiro), vai projetar um material inédito de Silence, o novíssimo trabalho do cineasta, baseado no romance de Shuzaku Endo. A trama recria o Japão do século XVII a partir da jornada rumo ao Oriente de dois padres jesuítas (Andrew Garfield e Adam Driver) em missão atrás do sacerdote (Liam Neeson) que os educou. A adaptação custou US$ 51 milhões. E já se fala em Oscars…

p.s.2: Entre os longas-metragens lançados até agora na disputa pelo Oscar, poucos dão tanto prazer quanto Trumbo – Lista Negra, do mesmo Jay Roach que dirigiu Entrando Numa Fria (2000) e a franquia Austin Powers (1997-2002). Bryan Cranston prova que a química entre ele e a plateia não se limitava à cálculos estequiométricos de Breaking Bad e sim a um talento em depuração, que se descortina em gestos milimétricos em sua composição da cruzada pela liberdade de Dalton Trumbo, um mago do roteiro.  

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