‘Falta’, cartografia da resiliência

‘Falta’, cartografia da resiliência

Rodrigo Fonseca

28 de abril de 2021 | 16h14

Gelmini dirige Jorge Ivan Castañeda Salamanca em “Falta”

Rodrigo Fonseca
Do bigode de Nietzsche, entre palavras que endurecem carvão para fazer da filosofia um diamante, saltam aforismas como “Os maiores êxitos não são os que fazem mais ruído e sim nossas horas mais silenciosas”, que semearam de provocação a cabeça de Gustavo Gelmini. Na cabeça dele, hoje, inscreve-se na pedra do tumulto criativo a preparação para o filme “Falta”, a ser lançado nesta quinta-feira, da França para o mundo. O autor de “A Gaia Ciência” serviu muito bem ao diretor tijucano, hoje mestrando em Dança na Universidade Paris 8 e residente no Le Centquatre, durante a pandemia, enquanto rascunhava movimentos capazes de traduzir o isolamento, o lockdown. Friedrich N. serviu bem ao dizer pra ele, seu leitor: “O destino dos seres humanos é feito de momentos felizes e não de épocas felizes”. Serviu-lhe mais ainda com a percepção de que “a palavra mais ofensiva e a carta mais grosseira são melhores e mais educadas que o silêncio”. Tudo no novo curta do coreógrafo, videoartista e cineasta carioca parece abolir o ruído, começando pela apolínea composição entre o espaço de uma galeria francesa (o já citado Le Centquatre) e o corpo em tração de Jorge Ivan Castañeda Salamanca. Não parece haver fricção entre seus pés e o solo… só ficção. Uma ficção sobre resiliência, feita com lirismo, representando a arte de superar o abandono e curar as feridas do deslocamento sucessivo. Essa parece ser a medida do teatro e do cinema de Gelmini… uma medida de autor… um tema que transparece seu próprio êxodo, do documentário ao teatro, do Rio à Europa. A música de Bruno Speranza-Martagão ecoa na cena de Gelmini como um coro para a tragédia de resistir. Mas é um eco leve (e doce), quase translúcido como o figurino idealizado por Carolin Roider. Os movimentos, por vezes circulares, evocam a dimensão circundante do Eterno Retorno nietzschiano, num gesto de mão que parece sinalizar calmaria na tempestade de nossa incapacidade de aglomeração nestes tempos da covid-19. Nisso, o filme ganha um tamanho estética de crônica, funcionando como uma resposta bonita, em forma de centauro (meio corpo físico, meio audiovisual) da Dança à agrura de um mundo comatoso, em função da pandemia. Fã de Spielberg, que acaba de liberar o trailer de seu “Amor, Sublime Amor” versão 2021, Gelmini foi buscar num dos longas-metragens mais belos de seu realizador de cabeceira – “ET, o Extraterrestre”, de 1982 – algo de cinemático para tratar de uma época da História abduzida em sua própria inércia afetiva. Buscou a serenidade de olhar a geografia em sua volta para cartografar sua inquietude e a beleza dela oriunda. É como fez o ET, ao voar de bicicleta. É como faz Gelmini, ao deixar Salamanca decolar em torno de si mesmo. Revendo “Falta”, um outro filósofo do rodopio, do retorno, Mário Faustino (1930-1962), salta à memória, como reação ao poema dançado de Gelmini. Escreve Faustino: “Nasce do solo sono uma armadilha / Das feras do irreal para as do ser /− Unicórnios investem contra o Rei. /Nasce do solo sono um facho fulvo /Transfigurando a rosa e as armas lúcidas /Do campo de harmonia que plantei. / Nasce do solo sono um sobressalto. /Nasce o guerreiro. A torre. Os amarelos /Corcéis da fuga de ouro que implorei. /E nasce nu do sono um desafio. /Nasce um verso rampante, um brado, um solo /De lira santa e brava − minha lei /Até que nasça a luz e tombe o sonho, /O monstro de aventura que eu amei”. Que o monstro de “Falta” não nos falte na tela.

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