‘Falling’ volta a ecoar por Cannes

‘Falling’ volta a ecoar por Cannes

Rodrigo Fonseca

24 de maio de 2022 | 09h54

RODRIGO FONSECA
Debochado, David Cronenberg brincou com a imprensa durante a coletiva de “Crimes of the Future” (o mais provocativo e mais perfeito dos concorrentes à Palma de Ouro de 2022, entre os títulos já exibidos), no 75º Festival de Cannes que a relação de Viggo Mortensen com ele é de escravidão. Brincou dizendo que no primeiro projeto deles juntos, “Marcas da Violência”, de 2005, o ator parecia tê-lo rejeitado, o que provou não ser verdade, uma vez que os dois travaram uma longeva parceria. Parceria essa que mudou de lugar quando Viggo dirigiu seu primeiro longa “Falling – Ainda Há Tempo” (2020) – hoje disponível na streaminguesfera brasileira em várias plataformas. Tem “Falling” no Claro Now, no iTunes, na Apple TV, na Sky e na Vivo Play, entre outras. E, em meio ao sucesso GG da nova dobradinha entre eles, este belo longa voltou à tona.
Capaz de imprimir delicadeza num solo esturricado pelo desamor, “Falling – Ainda Há Tempo” é um drama sobre os espinhos da paternidade, observada do ponto de vista de um filho amoroso e no ponto de vista de um pai selvagem. A forma com que Viggo narra arrebatou elogios no mundo todo.
Depois de três indicações ao Oscar, por seu modo febril de interpretar – obtidas com “Senhores do Crime”, de 2007; “Capitão Fantástico”, de 2016; e “Green Book: O Guia”, de 2018 – e depois de ter virado uma lenda pop como Aragorn, em “O Senhor dos Anéis”, Viggo emprega suas vivências numa história que passa pelas trincheiras do ódio para se se firmar como um estudo sobre a arte de saber envelhecer. O personagem central é o rancheiro Willis, que na juventude é defendido com fúria pelo ator sueco Sverrir Gudnason. Devotado a seu rancho, ele se enerva ainda mais ao se agrisalhar, sendo confiado ao ator Lance Henriksen (o agente Frank Black da série “Millennium”). Seu nervosismo explode com o passar dos anos, arrancando de Henriksen um desempenho áspero, de doer no peito da gente. Mas a medida da velhice, na alma desse irascível sujeito, tem como termômetro aquele neném das primeiras cenas, John, que, já adulto, ganha o talento – e que talento! – do próprio Viggo. O amargor de Willis no trato com o mundo piora com a idade, ao contrário do que se passa com John: este, quanto mais velho, sente-se mais bem amado, sente-se mais bem resolvido em sua orientação homossexual e vive livre do alcoolismo de sua juventude, abraçado à paz. Ao menos é o que parece. O que lhe falta é estender essa harmonia ao pai. Essa será sua jornada na trama escrita pelo próprio Viggo.

Exibido em janeiro de 2020 em Sundance, chancelado com a logo de Cannes e elogiado em Toronto, o périplo de John rumo ao amor de Willis passou com pompas, em setembro passado, no 68. Festival de San Sebastián, configurando-se como o mais delicado longa-metragem do evento espanhol. E sua exibição fez parte de uma homenagem a Viggo, que foi laureado com o Troféu Donostia pelo conjunto de sua trajetória, dos anos 1980 para cá. Uma trajetória que passa pela América do Sul, onde o nova-iorquino de origem escandinava cresceu, entre a Argentina e a Venezuela. Em nosso continente, ele buscou parcerias em cineastas como Ana Piterbag (“Todos Temos Um Plano”), Vicente Amorim (“Um Homem Bom”), Walter Salles (“On The Road”) e Lisandro Alonso (“Jauja”). Com eles, teve diferentes experiências do realismo e da fabulação, duas instâncias da essência do verbo “narrar” que se confluem em “Falling”.
Como Willis está beirando a demência, há momentos em que passado e presente se trombam na casa de John, onde os comentários homofóbicos e racistas de seu pai fazem arder a garganta do filho e de seu marido, o enfermeiro Eric (Terry Chen). Willis ofende o casal todo o tempo, assim como é hostil com sua filha, vivida por Laura Linney. Sua boca é um esgoto que vaza brutalidade. Mas, em seu amor incondicional, John sabe filtrar a sujeira e buscar a humanidade que sobrou no espírito alquebrado de seu velho. Esse processo de filtragem é retratado por Viggo com uma suavidade sedutora, traduzida na paleta de cores nunca saturadas da fotografia do dinamarquês Marcel Zyskind.
Cronenberg, que redefiniu o trajeto profissional de Viggo ao escalá-lo no já citado “Marcas da Violência”, faz uma ponta em cena, como o proctologista que cuida de Willis.
Na trama de “Crimes of the Future”, que pode e merece ganhar a Palma deste ano, Léa Seydoux é Caprice, cirurgiã que trocou a Medicina pelas Artes Plásticas, trabalhando com performances ao lado de seu amante, Saul (Viggo), onde tatua órgãos e faz design em tumores corporais. É uma ficção científica fisiológica, com a marca autoral de Cronenberg.
Cannes termina no dia 28.

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