‘Falling’ no Festival do Rio, via Telecine

‘Falling’ no Festival do Rio, via Telecine

Rodrigo Fonseca

18 de julho de 2021 | 11h25

Viggo Mortensen dirige Lance Henriksen nos sets de “Falling”, que será exibido no dia 28 no Festival do Rio, via www.telecine.com.br

Rodrigo Fonseca
Uma das maratonas cinematográficas mais importante das Américas, o Festival do Rio renasce neste momento numa parceria com o Telecine, oferecendo um filme novo por dia, para ser visto via web, com direito a joias como “Slalom – Até o Limite”, agendado pra segunda e “O Mauritano”, que rendeu um Globo de Ouro a Jodie Foster, marcado para terça. Basta clicar o www.telecine.com.br para ver. No dia 27 será exibido o encantador “DNA”, da atriz e diretora Maïwenn, que foi um dos melhores filmes europeus de 2020 e ainda não estreou comercialmente por aqui. No dia 31, no encerramento, teremos uma imersão num universo prisional cercado de exclusões com “Noite de Reis”, egresso da Costa do Marfim, com direção de Philippe Lacôte. Mas a gema mais reluzente dessa seleção é “Falling”, que marcou a estreia do ator Viggo Mortensen como realizador. A projeção será no dia 28. É bonito ver essa reação do evento carioca, que demarca seu lugar como um garimpo de estéticas também nas minas da streaminguesfera.

Sobre “Falling”…
Ao ser incumbido de gastar alguns segundos cuidando de John, seu primogênito, em uma troca de fraldas, o rancheiro Willis – pilar afetivo do devastador filme “Falling” – olha para o bebê e se desculpa com ele: “Perdão por ter trazido ao mundo, já que algum dia você vai morrer”. Seu sincericídio não é um atestado de autenticidade. É um estandarte de intolerância, um substantivo cancerígeno que parece ser o tema central dessa história narrada com as tripas por um diretor estreante. Seu realizador é Viggo Mortensen, um dos mais aclamados atores em atividade no audiovisual, em todo mundo, na atualidade. Depois de três indicações ao Oscar, por seu modo febril de interpretar – obtidas com “Senhores do Crime”, de 2007; “Capitão Fantástico”, de 2016; e “Green Book: O Guia”, de 2018 – e depois de ter virado uma lenda pop como Aragorn, em “O Senhor dos Anéis” (2001-2003), Viggo emprega suas vivências num drama que passa pelas trincheiras do ódio para se se firmar como um estudo sobre a arte de saber envelhecer. Willis – que na juventude é defendido com fúria pelo ator sueco Sverrir Gudnason – enerva-se ainda mais ao se agrisalhar, sendo confiado ao ator Lance Henriksen (o agente Frank Black da série “Millennium”). Seu nervosismo explode com o passar dos anos, arrancando de Henriksen um desempenho áspero, de doer no peito da gente. Mas a medida da velhice, na alma desse irascível sujeito, tem como termômetro aquele neném das primeiras cenas, John, que, já adulto, ganha o talento – e que talento! – do próprio Viggo. O amargor de Willis no trato com o mundo piora com a idade, ao contrário do que se passa com John: este, quanto mais velho, sente-se mais bem amado, sente-se mais bem resolvido em sua orientação homossexual e vive livre do alcoolismo de sua juventude, abraçado à paz. Ao menos é o que parece. O que lhe falta é estender essa harmonia ao pai. Essa será sua jornada na trama escrita pelo próprio Viggo.

Exibido em janeiro de 2020 em Sundance, chancelado com a logo de Cannes e elogiado em Toronto, o périplo de John rumo ao amor de Willis passou com pompas, em setembro passado, no 68. Festival de San Sebastián, configurando-se como o mais delicado longa-metragem do evento espanhol. E sua exibição fez parte de uma homenagem a Viggo, que foi laureado com o Troféu Donostia pelo conjunto de sua trajetória, dos anos 1980 para cá. Uma trajetória que passa pela América do Sul, onde o nova-iorquino de origem escandinava cresceu, entre a Argentina e a Venezuela. Em nosso continente, ele buscou parcerias em cineastas como Ana Piterbag (“Todos Temos Um Plano”), Vicente Amorim (“Um Homem Bom”), Walter Salles (“On The Road”) e Lisandro Alonso (“Jauja”). Com eles, teve diferentes experiências do realismo e da fabulação, duas instâncias da essência do verbo “narrar” que se confluem em “Falling”.

Como Willis está beirando a demência, há momentos em que passado e presente se trombam na casa de John, onde os comentários homofóbicos e racistas de seu pai fazem arder a garganta do filho e de seu marido, o enfermeiro Eric (Terry Chen). Willis ofende o casal todo o tempo, assim como é hostil com sua filha, vivida por Laura Linney. Sua boca é um esgoto que vaza brutalidade. Mas, em seu amor incondicional, John sabe filtrar a sujeira e buscar a humanidade que sobrou no espírito alquebrado de seu velho. Esse processo de filtragem é retratado por Viggo com uma suavidade sedutora, traduzida na paleta de cores nunca saturadas da fotografia do dinamarquês Marcel Zyskind. Parceiro de Michael Winterbottom em “O Preço da Coragem” (2007), Zyskind torna palatável a temperatura num lar que está fora das CNTP, assim como o coração de John, que ama em demasia. Há uma sequência – antológica – na qual suas mágoas viram balas de metralhadora. Mas, nela, não temos um acerto de contas. Temos só um modo inusitado de troca de sentimentos. Algo que poder-se-ia chamar de carinho, ainda que numa língua seca… a língua do vitimismo.
Ainda em “Falllig”, vale atenção extra à participação, no elenco, do diretor David Cronenberg, que redefiniu o trajeto profissional de Viggo ao escalá-lo em “Marcas da Violência” (2005). O artesão do horror venéreo faz um proctologista que cuida de Willis.

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