Existe o amor, e existe a vida, sua inimiga: ‘A Despedida’ enfim chegou

Existe o amor, e existe a vida, sua inimiga: ‘A Despedida’ enfim chegou

Rodrigo Fonseca

07 de junho de 2016 | 10h32

Nelson Xavier e Juliana Paes: Kikitos de ator e atriz em Gramado

Nelson Xavier e Juliana Paes: Kikitos de ator e atriz em Gramado por ‘A Despedida’

Daqueles filmes de tocar a alma, sem jamais exagerar na dose de açúcar, A Despedida foi uma das maiores surpresas que o Festival de Gramado revelou para o mundo, por uma aposta fiel a um talento que já havia consagrado anos antes: Marcelo Galvão, de Colegas. Quando ele saiu da Serra Gaúcha com o Kikito de melhor filme, em 2012, por sua aventura sobre três portadores de Down, Fernando Meirelles, realizador de Cidade de Deus, deu uma declaração à imprensa dizendo: “Se tivesse que citar três diretores em quem o cinema deve prestar atenção, Marcelo seria um deles”. Pois a confiança de Meirelles se justifica com este novo e devastador exercício de percepção dos afetos, só que aqui deslocada para o tempo de madureza, para o solstício do corpo, na paixão de um nonagenário por uma jovem de 30 e poucos com o espírito fraturado. Só o jogo de armar entre os corpos da entidade Nelson Xavier e de uma Juliana Paes (em estado de graça) já garante complexidade suficiente para que o longa-metragem se incruste, com conforto, no imaginário cinéfilo.

 

Arrisca-se até dizer que, como toda temporada de Dia dos Namorados exige um belo romance, este é o candidato ideal ao posto de “o” filme de amor do ano.

 

Laureado com 15 prêmios internacionais, a começar por quatro troféus Kikito (atriz, ator, diretor e fotografia) em terras gramadenses, A Despedida faz uma experiência sensorial na forma em diferentes níveis. Nos primeiros 12 minutos, sente-se um descomforto com a sonoridade, como se algo estivesse ruidoso, até descobrirmos que estamos compartilhando da ausência do aparelho auditivo do protagonista, Almirante (Xavier, soberbo), de 92 anos. Dali pra frente, a concepção fotográfica de Eduardo Makino parece ocre, embaçada, como se mimetize os olhos já cansados de seu personagem, ganhando foco, clareza e abrangência cena a cena. A direção de arte é carregada de cores brandas até alcançar uma dimensão mais retinta no momento em que o Almirante chega ao quarto cor de vinho de Fátima (Juliana, que ilumina a cena não só pela beleza rascante, mas pela maturidade do risco).

 

Alinhado com a linha (autoral) de Galvão de narrar figuras deslocadas de suas zonas de comodidade, A Despedida se move a partir de duas jornadas: a primeira é o esforço de Almirante para chegar à casa de Fátima; a segunda, é seu périplo para dar à amante prazer e carinho. Embora a narrativa exista para fazer jus ao título, não é um filme de melancolia nem de luto: trata-se de um manifesto sobre o poder autorregenerativo do querer, mesmo entre gerações espaçadas pelo Tempo, este senhor feudal do viver.

 

Galvão fez um filme que se afirma nas latitudes do desejo, neste momento em que o cinema latino-americano encontra novas vozes políticas, reabrindo feridas da ditadura (sobretudo no documentário, pela vertente chamada “álbum de família”, na qual cineastas falam de seus parentes) ou esmiuçando questões de estratificação social (no chamado “classe média blues”, que produziu Que Horas Ela Volta?, Casa Grande e o preciosos Campo Grande). Mas não chega sozinho, tendo parentes latinos como, por exemplo, Ixcanul, lá da Guatemala, ou Venecia, lá de Cuba.

 

Cotação: Excelente

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