Exílios de Abel Ferrara à Mostra

Exílios de Abel Ferrara à Mostra

Rodrigo Fonseca

26 de outubro de 2020 | 06h14

RODRIGO FONSECA
Das iguarias todas do cardápio de 198 produções da Mostra Internacional de São Paulo .44, falou-se aos montes do .doc “Kubrick por Kubrick”, da estreia de Djin Sganzerla na direção (“Mulher Oceano”) e do drama metafísico do Lesoto “Isso Não É Um Enterro, É Uma Ressurreição”, porém nada foi mais falado na chave da controvérsia do que “SIBÉRIA”. É um Abel Ferrara maior, com toda a inquietação do realizador de “Maria” (Grande Prêmio do Júri de Veneza em 2005). Mas não é todo mundo que topa Ferrara, laureado este ano no Lido com um troféu honorário pelo conjunto de suas homilias existenciais. Por lá ainda desovou um documentário zero km, “Sportin’ Life”, feito em reação à pandemia. Este, exibido em San Sebastián como filme surpresa do festival espanhol, vai estar na Mostra também. Basta ir ao Mostra Play para curtir as joias da maratona cinéfila paulistana, que segue até o dia 4.

Em fevereiro, Ferrara levou a Berlinale à “Sibéria” e saiu da capital alemã ovacionado na luta pelo Urso de Ouro. Sua nova ficção é um tratado existencialista, centrado nas doenças de inadequação e do excesso.

“Vocês chamariam este filme de político?”, perguntou Abel à sua equipe em reação a uma pergunta do P de Pop em Berlim. “Não sei se é político, se eu sou político, se eu vou além da viagem musical que fazemos aqui. Falta autoentendimento no mundo e tenho a percepção de que estamos filmando em busca de uma certa consciência do que somos e do que sentimos. Falta um espaço para as pessoas se olharem nestes dias onde tudo é conectado e onde se rumina pouco as narrativas que a gente consome. É por isso que eu estou sempre retratando pessoas que estão buscando encontrar paz e equilíbrio. A fé é parte dessa busca, dessa trilha por resistência e por serenidade. Tenho interesse pela habilidade que muitas pessoas ainda têm de crer no Altíssimo, em Buda,no Céu ou seja lá no que for. Eu acredito que exista o Absoluto, em parte por conta de minhas origens italianas cristãs, e em parte pelo fato de o cinema ter me apresentado ao Sagrado… um outro Sagrado, humanizado, que veio por Pasolini, um rockstar da invenção nas telas”.

Willem Dafoe no papel de Clint: “Abel é um diretor com quem troco muito”

Realizador de longas cultuados mundo afora como “Rei de Nova York” (1990) e “Vício Frenético” (1992), Ferrara faz uma espécie de autobiografia em “Tommaso”, que lançou em Cannes, em 2019, e, dela, ele extraiu a centelha de “Sibéria”. Estrelada por Willem Dafoe, seu habitual parceiro, a produção narra a saga de um diretor, ator e professor de atuação americano, residente na Itália, que lida com conflitos de amor e com a educação de sua família pequena. Ele dá aula de encenação a uma claque de europeus enquanto cuida de sua filha. “Eu trabalho em trupe, em equipe, trocando ideias, num processo criativo que leva tempo, e este filme é parte desta construção em equipe”, diz Ferrara, que construiu a trama de “Sibéria” a partir das pesquisas com Dafoe.

“Abel é um parceiro com quem troco muito há muito tempo”, disse Dafoe em Cannes, há um ano.

Radicalidade não falta ao mergulho mais recente dele e Abel às veredas dos códigos ficcionais. Em Berlim também houve rixa em torno das impressões que “Sibéria” gera, tal se vê agora na Mostra, em papos de rede social, cheios de som e de fúria.
Houve quem saísse exaurido e irritado de “Sibéria”, em sua projeção para a imprensa, em especial em uma sequência na qual um peixe fala. Tudo é parte de um engenho cosmológico do diretor para retratar um cruzada em rota para a espiritualidade. A fotografia de Stefano Falivene brinca com sombras e luzes, em tons de vermelho, conforme Clint (Dafoe, em uma imponente composição) gravita pelo mundo, indo da neve ao deserto. Em suas andanças, ele cruza com figuras misteriosas, como uma grávida sedenta por vodca e carinho.

“É um filme de exílio”, diz Ferrara. “É um filme de solidão”.

p.s.: Lançado já no Globoplay, “Breve Miragem de Sol”, de Eryk Rocha, ganhou uma sobrevida presencial no circuito carioca, no Espaço Itaú 3, às 20h50, até quarta. Ganhador dos prêmios de melhor fotografia (Miguel Vassy), montagem (Renato Valone) e ator (Fabrício Boliveira) na Première Brasil do Festival do Rio de 2019, esta cartografia da solidão segue as andanças de um taxista no Rio de Janeiro em busca do dinheiro para pagar a pensão do filho. Um dos trabalhos mais lúdicos do diretor de “Rocha Que Voa” (2002), o longa iniciou sua carreira pelo BFI London Film Festival, há um ano.

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