Evaldo Mocarzel na ‘crítica genética’ do real

Evaldo Mocarzel na ‘crítica genética’ do real

Rodrigo Fonseca

30 de novembro de 2020 | 13h02

Um 3×4 de Evaldo Mocarzel no seminário Na Real_Virtual desta quarta: realizador niteroiense tem 38 filmes em seu currrículo, de 1999 até hoje

Rodrigo Fonseca
Especial emoção – e dívida afetiva – marcará a fala do cineasta, dramaturgo e jornalista Evaldo Mocarzel na penúltima noite do seminário Na Real_Virtual, a iniciar seus papos às 19h desta segunda-feira. Organizado sob a curadoria do crítico Carlos Alberto Mattos e do diretor Bebeto Abrantes, produzido por Marcio Blanco da Imaginário Digital e apresentado via web na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, somando cerca de 250 ouvintes inscritos por noite, o simpósio desta noite vai dissecar a relação do realizador niteroiense de 60 anos com o teatro, tendo como motor de arranque o .doc “A Última Palavra é a Penúltima”. Neste longa-metragem de 2012, há um resgate da intervenção urbana que os grupos Teatro da Vertigem, Zikzira e LOT, do Peru, fizeram numa galeria subterrânea abandonada no centro de São Paulo, em 2008. O filme em si traz momentos comoventes. Mas a comoção em questão aqui é outra. Em sua primeira incursão pelo Festival de Cannes, há 14 anos, quando aplaudiu a vitória de Ken Loach e seu “Ventos da Liberdade” na disputa pela Palma de Ouro, o P de Pop, com zero experiência de mostras internacionais, foi procurar Evaldo em busca de conselhos. “Chega aí, brodaço, vamos trocar uma ideia sobre a cobertura”, disse ele, carinhoso.

Tímida, a decisão de recorrer à sabedoria desse diretor veio, em primeiro lugar, por ter sido ele um dos editores que revolucionaram o conceito de Jornalismo Cultural no Brasil, em sua gestão no Caderno 2, aqui do Estadão. Segundo: pelo fato de ele ser, naquele momento, um farol de surpresa na investigação de processos relacionais, provando em filmes como “À Margem da Imagem” (2003) que toda convivência é uma dramaturgia. No início de 2006, seu “À Margem do Concreto” ribombou no É Tudo Verdade, numa sessão badalada, retratando a dinâmica dos sem teto de São Paulo. “É um filme piquete”, definiu o diretor Eryk Rocha, todo embatucado, à saída da projeção. Era uma época de ebulição na trajetória de Evaldo e ele deu a este que vos tecla (então Bonequinho de O Globo) conselhos essenciais sobre a Croisette. A busca por tais dicas teve ainda um terceiro motivo, na chave da amizade: gerações de jovens repórteres e resenhistas encontraram no Tio Mocarzel um conselheiro devoto à tese de que se deve filtrar as seleções e preservar o olhar. Numa lição de generosidade, ele indicou: “Antes de você viajar pra Nice, leia todas as revistas e jornais da imprensa europeia que puder, pra saber o que se passa em Cannes e tente saber o máximo de cada realizadora e de cada realizador sem deixar perder o efeito surpresa. Como tem Pedro Almodóvar concorrendo (com “Volver”), lembre-se de que ele, um diretor de importância imensa, é valoroso não apenas por seus filmes, mas também por suas declarações. O que ele diz é tão relevante quanto aquilo que ele exibe. E o (então) Ministro da Cultura Gilberto Gil vai… Grude nele, respeitando sempre, é claro, os horários dos filmes. Mas não fique só na obviedade de cobrir as pautas oficiais de Gil. Tente saber o que ele pensa de cinema, saber de que filmes ele gosta”. O que foi dito ali foi feito na Croisette. E deu certo. Aliás, ali e em futuras edições de Cannes, de Veneza, de Berlim, de San Sebastián, de Locarno, de Marrakech.

Cena de “As Quatro Irmãs”

Evaldo sempre esteve nas retinas, inclusive nos festivais em que ele mesmo se impôs como atração. E isso aconteceu muitas vezes, dada a prolífica obra dele: de 1999 até hoje, fez 38 filmes, listados em seu canal https://www.youtube.com/c/EvaldoMocarzelOficial/playlists. “Filmei assuntos muito diferentes mas sempre conectados pela percepção de que tudo é dramaturgia, alimentada pela minha paixão siamesa pelo teatro e pelo cinema. O recorte que Mattos e Bebeto fizeram no seminário Na Real parte dessa minha relação com as artes cênicas. E ela vem por um olhar de documentarista que quer aprender com o teatro e por uma vontade, como cineasta, de promover uma ‘crítica genética’ da cena, um termo acadêmico que designa o estudo dos processos de criação artística. Esses filmes que fiz sobre teatro são uma forma de desconstruir os processos do teatro de grupo no Brasil”, diz Evaldo ao P de Pop, que tem gratidão eterna a dedicar a ele.

Gratidão não apenas pelas dicas de outrora, mas pelos trabalhos de escavação cênica que ele empreendeu ao longo de sua carreira, dirigindo longas como “Do Luto À Luta (melhor filme no Cine PE 2005) ou escrevendo peças como “RG” (2004) e “Fome de Notícia” (2010). “Por vezes, no teatro, um gesto aparentemente simples é fruto de meses de experimentação. Ao fazer um documentário sobre um processo de grupo, o que eu consigo é esgarçar essa pesquisa”, diz Evaldo, que editou cadernos preocupados com a discussão de patrocínio para as artes no Brasil e edições quilométricas devotadas a Fellini e a Bergman. “Tenho imenso carinho e respeito por tudo o que o Ubiratan Brasil, o Luiz Carlos Merten e o Luiz Zanin Oricchio fazem no Estadão. Aprendi muito ali, no jornalismo, a ficar atento aos assuntos à minha volta e a olhar para eles com o máximo de atenção… e de rapidez… à diversidade, sem nunca perder o valor da reflexão. Foram edições enormes do Caderno 2 que fizemos”.

https://www.youtube.com/c/EvaldoMocarzelOficial/playlists

Envolvido agora em um projeto sobre o ator Sérgio Mamberti, Evaldo prepara agora o roteiro de um thriller de ficção e tem um longa zero KM para lançar: “As Quatro Irmãs”, sobre a atriz Vera Holtz. “Evaldo é um dínamo de pensamento e produção. Basta ver o seu canal no Youtube, repleto de vídeos, filmes, entrevistas etc”, diz Carlos Alberto Mattos, ao pensar a curadoria do Na Real_Virtual. “No nosso encontro desta segunda-feira, vamos explorar sua atuação nessa fronteira entre as práticas coletivas do teatro contemporâneo e o olhar do cineasta que se propõe não só a registrá-las, mas a fazer-se parceiro e instigador. Estou certo de que vamos abrir novas avenidas de percepção do público a respeito desse diálogo tão pouco conhecido”.
No frigir das inquietações documentais das Américas, o Na Real_Virtual termina nesta quarta, após um papo com Walter Salles, e vai deixar imensas saudades quando terminar, com a promessa de virar livro e, quiçá, filme: “O .doc dos .docs”. Na torcida para que haja mais, logo, logo.

p.s.: É dia de “Bacurau” na “Tela Quente”, às 22h45, com Mauro Ramos dublando Udo Kier.

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