Evaldo Mocarzel em sua paixão siamesa

Evaldo Mocarzel em sua paixão siamesa

Rodrigo Fonseca

01 de dezembro de 2020 | 09h03

Rodrigo Fonseca
Envolvido na criação do roteiro de um thriller e preparado para lançar o ainda inédito “As Quatro Irmãs”, com a atriz Vera Holtz em família, Evaldo Mocarzel promoveu uma espécie de genealogia da simbiose entre cinema e teatro, nas telas e em outras latitudes audiovisuais, em sua sabatina no seminário Na Real_Virtual, que encerra nesta quarta um ciclo memorável de conversas com documentaristas. Susanna Lira, Lucia Murat, Joel Zito Araújo e Alberto Álvares foram alguns dos nomes que passaram pelo simpósio, a ser encerrado neste 2 de dezembro, com Walter Salles. Um dos mais prolíficos realizadores do Brasil, com 38 filmes rodados de 1999 para cá, sendo muitos deles dedicados às artes cênicas, Mocarzel ganhou prestígio no início da década passada com “À Margem da Imagem” (2003), “Do Luto à Luta” (2005) e “À Margem do Concreto” (2006). Ele ficou com a penúltima sala de zoom do evento organizado online pelo produtor Marcio Blanco, sob a curadoria do cineasta Bebeto Abrantes e do crítico Carlos Alberto Mattos. Aos 60 anos, o convidado da noite de segunda, egresso de Niterói, construiu parte de sua filmografia estudando a prática de trupes como o Teatro da Vertigem, em experiências em espaços urbanos que vão além dos palcos, como as margens do Rio Tietê. Para ilustrar essa conexão entre ele e a cena teatral, os curadores escolheram .doc “A Última Palavra é a Penúltima”. Neste longa-metragem de 2012, há um resgate da intervenção urbana que os grupos Teatro da Vertigem, Zikzira e LOT, do Peru, fizeram numa galeria subterrânea abandonada no centro de São Paulo, em 2008.
“Este ‘A última palavra é a penúltima’ é um filme rigorosamente observacional. Nele, eu simplesmente observei um motim de três elencos”, disse Mocarzel a Abrantes e Mattos. “Existe ali uma discussão sobre que é a interpretação hoje. O diretor de um grupo queria a resistência ao personagem, de outro queria um teatro mais físico e o último queria construir vetores. Os atores se rebelaram contra os diretores para discutir o que é interpretar hoje. Interpretar, é performar, é atuar. Acho que a discussão sobre performatividade permeia toda a arte contemporânea. Acho que esse filme tem uma discussão interessante nessa rebelião dos atores com diretores. É um filme simples que, de algum modo, desconstrói processualmente uma instituição dramática sem uma dramaturgia”.

Cena de “As Quatro Irmãs”

Em sua fala no https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, Evaldo falou sobre a importância de “extrair toda a poesia agônica que existe em territórios de abandono”, no que chama de “arquitetura do inesperado”.
“Quando eu era adolescente, vinha para o Rio e ficava na casa de uma prima. Ela me levou para assistir a peça “Antígona” e o filme “Luzes da Cidade”. Eu era jovem e, de alguma maneira, criei uma paixão siamesa pelo cinema e o teatro. Desde então alimento esse desejo de fazer os dois. O cinema é uma linguagem que vai interagir com a audição e a visão. O teatro é uma linguagem sinestésica por excelência, ele é audição, visão, tato, paladar, cheiro. Existe, logo, uma ‘cine-estesia’ entre os dois”, disse Mocarzel, que em meados dos anos 2000 traduziu, com Brigitte Riberolle, o livro “Notas do Cinematógrafo”, com ensaios de um de seus faróis: Robert Bresson (1901-1999), diretor de “Um Condenado À Morte Escapou” (1956). “O Bresson é um criador minimalista. Um criador por subtração. Com ele, aprendi que o artista tem que fazer de si mesmo um instrumento de precisão. Bresson não fazia propriamente documentários, mas buscava o real no corpo de seus modelos, buscava o fosforescente da alma”.

Ao apresentar Mocarzel, Bebeto Abrantes referiu-se a ele como sendo uma usina de produção, especialmente de documentários. “Ele fez .docs sociais, como a trilogia ‘À Margem da Imagem’, ‘À Margem do Concreto’ e ‘À Margem do Lixo’; .docs de temática cultural, como ‘As Quebradeiras’; .doc de temática pessoal e familiar, como o comovente ‘Do Luto à Luta’; e .docs (mais de duas dezenas) sobre a relação entre a linguagem do Cinema e do Teatro. Estes últimos compõe a faixa de seus filmes que a Curadoria do NA REAL_VIRTUAL Parte 2 escolheu como recorte para a penúltima sessão do Seminário Online. E, não apenas pela significativa quantidade desta produção, mas, sobretudo, pela qualidade e originalidade de construção das narrativas de cada um de seus filmes, feita em colaboração com os principais Grupos Teatrais de Vanguarda, da cidade de São Paulo”, explica Beteto. “O que essa parte da obra de Mocarzel nos revela é o fato de o Teatro – com suas muitas linguagens e métodos de criação – ser uma inesgotável fonte de inspiração para a produção de seus filmes, em suas várias etapas: pesquisa/roteiro, filmagens e montagem. Vejam os filmes ‘BR_3’ (2008), ‘KASTELO’ (2011), ‘HYSTERIA’ (2012) e o filme âncora de sua sessão, ‘A ÚLTIMA PALAVRA É A PENÚLTIMA’”.

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