Europa 61 no Porto do cinema autoral

Europa 61 no Porto do cinema autoral

Rodrigo Fonseca

28 de setembro de 2021 | 17h03

Emmanuel Mouret nas filmagens de “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait”

Rodrigo Fonseca
Recordista de indicações ao César, o Oscar francês, em 2021, “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait” ganha uma nova e nobre vitrine, agora em terras (e telas portuguesas), com a mostra Europa 61 – Semana do Cinema Europeu, de regresso à cidade do Porto desde o dia 23. O evento chega ao fim nesta quarta, ocupando salas do Cine Trindade. Uma seleção de 13 filmes, oriundos de 13 países distintos, pretende refletir não só as preocupações imediatas de uma Europa em contexto pandêmico, mas também todas as suas transformações de base, sejam políticas, econômicas ou sociais. “Nunca mais nevará”, da dupla polonesa Małgorzata Szumowska e Michał Englert, será a atração de encerramento da maratona lusitana. Por ela passaram pérolas estéticas como “A raposa na toca”, de Arman T. Riahi (Áustria); “A sombra da violência”, de Nick Rowland (Irlanda); e “A virgem de agosto”, de Jonás Trueba (Espanha).
Com foco na tese de que o amor é um analgésico para as dores do mundo. O drama “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait”, história de uma paixão das mais descabeladas e regadas a interditos morais, consagrada a precisão de Emmanuel Mouret como realizador. Sua narrativa mostra o encontro inesperado entre dois jovens que se apaixonam, mesmo ela já estando envolvida com um outro homem, de quem está grávida. Cannes viu o filme no início do ano passado, convidou-o para a seleção de 2020 e deu a ele sua logomarca, mesmo não podendo executar sua competição de longas, em maio passado, como esperado, por conta da pandemia. Mas o símbolo do maior festival de cinema do mundo ajudou um bocado em a carreira comercial dessa produção na França, onde vendeu 250 mil ingressos antes de o lockdown das salas – e de todas as demais atividades daquele país – ser anunciado, no fim de outubro.
“Seguimos protótipos afetivos que o cinema nos deu e que, na prática, servem para serem desmontados pela vida, em seu cotidiano. Os filmes modificaram comportamentos ao longo de toda uma tradição de romantismo nas telas, em que a França foi muito ativa, sob muitas perspectivas distintas. A mais frequente dessas perspectivas é o cinema palavroso, é o nosso apreço por conversar que revelam nossas fraquezas e angústias e desnudam certezas”, disse Mouret ao Estadão em entrevista via Zoom durante o Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, em janeiro – um evento do governo de seu país para a promoção de seus longas mundo afora. “Tentei refletir sobre a fronteira entre o desejo e o amor genuíno com esse filme”.

Nascido em Marselha e conhecido por trabalhos sobre idílios, como “Só um beijo, por favor” (2007), “Faça-me feliz” (2009) e “Um novo dueto” (indicado ao Leopardo de Ouro de Locarno, em 2013), Mouret gravita por influências de Éric Rohmer e François Truffaut no caudaloso retrato do enamoramento que imprime em “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait”. Incluído em quinto lugar na lista dos dez melhores filmes de 2020 da revista “Les Cahiers du Cinéma”, o longa foi rodado em meio ao esplendor natural de Vaucluse, no sudeste francês. Seu enredo se esgueira por entre os sentimentos que explodem quando a gestante Daphne (Camélia Jordana) recebe a visita de Maxime (Niels Schneider), primo de seu namorado, François (Vincent Macaigne), que precisou ser ausentar. Ao longo de quatro dias a sós, Daphne e Maxime terão apenas um outro por companhia. Entre passeios de bicicleta e longos papos vespertinos, eles vão compartilhar vivências e memórias de antigas relações. A cada conversa, uma tensão bem parecida com a de Meryl Streep e Clint Eastwood em “As Pontes de Madison” (1995) vai fervendo entre eles, à temperatura máxima.
“Existem delicadezas que requerem o silêncio”, disse Mouret.

p.s.: Uma nova edição da Mostra de Cinema de Pitangui corre a todo vapor nas Gerais, Seu foco está no tema “Cinema e Educação”. O evento será inteiramente gratuito e ocorrerá de forma presencial entre os dias 8 a 12 de outubro próximo, com a exibição de filmes em praça pública. Antes, de 15 a 27 de setembro, foram oferecidos quatro cursos para 60 alunos de diferentes idades. Neles, os alunos produziram um total de 28 curtas metragens, que serão exibidos na tela grande, em praça pública durante a programação da Mostra, além de disponibilizados na internet. As inscrições para os cursos, também gratuitas, podem ser feitas pelo site https://mostracinemapitangui.com.br/.

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