Euforias do Real: Mostra, Doclisboa e Sbragia

Euforias do Real: Mostra, Doclisboa e Sbragia

Rodrigo Fonseca

23 de outubro de 2020 | 11h55

Rodrigo Fonseca
Exultam-se as narrativas documentais nas mais variadas latitudes da lusofonia. Celebra-se a arte de documentar seja cá em Portugal, onde o P de Pop veio conferir o Doclisboa, seja aí no Brasil, onde a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo nos traz pepitas como “Chico Rei Entre Nós”, de Joyce Prado. Retratada em nosso cinema num cult de 1985 de Walter Lima Jr. que passava até na “Sessão da Tarde” na década de 1980, a história de Galanga – monarca guerreiro do Congo capturado por portugueses e escravizado em Vila Rica – retorna agora como uma narrativa documental de inclusão e resiliência pelas vias da maratona cinéfila paulistana, que partilha de algumas joias garimpadas aqui no evento lisboeta. “Nheengatu”, de José Barahona, sobre uma língua dos povos amazônicos, é uma delas. Também é esse o caso do colossal “Kubrick por Kubrick”, de Grégory Monro, com depoimentos raríssimos do realizador de “Laranja Mecânica” (1971) ao crítico Michel Ciment. Em terras brasileiras, já já, em onze dias, começa a segunda fornada do Na Real_Virtual, o simpósio sobre as artimanhas do Real organizado por Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes, sob produção de Marcio Blanco. A primeira fase do seminário, entre julho e agosto, fez uma sinergia de talentos com bambas como João Moreira Salles, Emílio Domingos, Petra Costa e Maria Augusta Ramos, que deslumbrou olhares este ano com “Não Toque Em Meu Companheiro”. Essa respeitada realizadora, que presidiu o júri de .docs na Berlinale de 2019 e foi ocavionada lá mesmo, na capital alemã, em 2018, pela obra-prima “O Processo”, vai ser um dos destaques de outro front da não ficção nas artes. Aliás, Maria Augusta e Susanna Lira, realizadora de “Torre das Donzelas” (2018), outra diretora que faz parte deste Na Real reloaded, ao lado de gigantes como Lúcia Murat, Joel Zito Araújo, Sandra Werneck, Jorge Furtado, Ana Luiza Azevedo, Silvio Da-Rin, Roberto Berliner, Evaldo Mocarzel, Claudia Priscilla, Kiko Goifman, Alberto Alvares Guarani, Vincent Carelli, Adorley Queirós, Eryk Rocha e Walter Salles. Susanna e Maria têm suas obras dissecadas no livraço “NOVAS FRONTEIRAS DO DOCUMENTÁRIO: ENTRE A FACTUALIDADE E A FICCIONALIDADE”, recém-lançado pelo jornalista e diretor Piero Sbragia. É dele o contundente “Descobrir: Os Criadores de Saci” (2014).

Cena de “Torre das Donzelas”

Com uma prosa arejada pela reflexão e pelo molho das palavras precisas, Sbragia discute a tendência contemporânea de romper a divisão rígida entre factual e ficcional. O livro, editado pela Chiado, traça um panorama da produção, ao longo do século XXI, a partir de uma análise sobre a forma como diferentes gêneros cinematográficos apresentam uma convergência, de modo a transpor barreiras entre fato e fábula. Já disponível no endereço eletrônico https//linktr.ee/Fronteiras, o livro reúne entrevistas inéditas e exclusivas, realizadas entre janeiro e março de 2020, com dez documentaristas de relevância mundial da Bahia, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Para ilustrar as páginas, o artista Gidalti Jr., vencedor do Prêmio Jabuti de melhor HQ em 2017 por “Castanha do Pará”, produziu caricaturas para cada conversa. Falam a Sbragia: Amanda Kamanchek (“Chega de Fiu Fiu”); Cristiano Burlan (“Elegia de Um Crime”, “Mataram Meu Irmão”); Eduardo Escorel (“Imagens do Estado Novo 1937-45”, “O Tempo e o Lugar”); Eliza Capai (“Espero Tua (Re)volta”, “O Jabuti e a Anta”); Geraldo Sarno (“Sertânia”, “Viramundo”); Juca Badaró (“As Cores da Serpente”); Orlando Senna (“Longe do Paraíso”, “Iracema – Uma Transa Amazônica”); Paula Trabulsi (“O Incerto Lugar do Desejo”, “Imagem da Tolerância”); e as já citadas Maria Augusta Ramos (“Não Toque em Meu Companheiro”, “O Processo”), e Susanna Lira (“Torre das Donzelas”, “Clara Estrela”).

Num papo por whatsapp com o P de Pop, Sbragia explicou a estrutura de seu “NOVAS FRONTEIRAS DO DOCUMENTÁRIO”:
O livro deixa como seu saldo mais precioso uma percepção da força da oralidade na narrativa documental, seja no registro do depoimento, seja numa expressão poética. Mas qual é a longevidade da palavra, da fala, do relato para o cinema documental neste momento em que o filão parece encontrar um novo espaço nas plataformas de streaming?
Piero Sbragia:
Acredito que, em 2020, nesse cenário de pandemia, de ignorância ativa, de desinformação, de ultra-política e de pós-verdade, a palavra nunca teve tanta força. Veja a quantidade de documentários que foram lançados e que reforçam a importância de narrativas com credibilidade contra as trevas que parecem pairar no Brasil, nos Estados Unidos, e em muitos países que transformaram as fake news/mentiras em políticas de Estado. O streaming tem muito espaço para documentários, pois são filmes feitos, geralmente, com menos dinheiro do que a ficção. Em momentos de crise, como agora, os documentários ocupam lugar de privilégio, enquanto as super produções patinam e encontram dificuldades justamente por custarem muito dinheiro. Isso por si só já traz uma mensagem importante: cinema é ação! Vale muito mais uma narrativa audiovisual que possa ser consumida do que uma narrativa que não é consumida. O melhor filme vai ser sempre aquele que chega nos espectadores e, nesse caso, os documentários estão chegando com força.
Como foi feita a seleção das/os entrevistadas/os? O que o conjunto de filmes dessa turma aponta sobre o documentário nacional hoje?
Piero Sbragia:
A seleção obedeceu três critérios básicos: primeiro que eu tivesse o mesmo número de mulheres e homens nas páginas do livro; segundo que eu tivesse diferentes experiências cinematográficas: desde gente com um longa apenas no currículo a gente com mais de 50 anos de cinema; terceiro que as pessoas escolhidas tivessem feito filmes que me tocassem fundo. E, nesse último critério, usei como parâmetro a sala de aula. Desde 2013 dou aulas de documentário em universidades de São Paulo. Quando passo “Chega de Fiu-Fiu”, “Espero Tua (re)Volta” e “Torre das Donzelas”, por exemplo, meus alunos e minhas alunas choram copiosamente. São filmes que deixam as pessoas em transe, não só pelos temas, mas pela estética e pela maneiras como a narrativa é apresentada. E, pra mim, é uma alegria sem tamanho ver Geraldo Sarno, aos 82 anos, criar um filme tão poderoso como “Sertânia”, que apesar de ser uma obra de ficção usa muito material documental de filmes anteriores dele. Nossos documentários estão no Oscar, em Veneza, em Berlin, no Cinéma du Réel. O Brasil hoje é vanguarda no documentário mundial! E o é principalmente por essa característica de os nossos filmes serem obras na quina entre a factualidade e a ficcionalidade. São representações do real que assumem elementos de ficção para construir narrativas poderosas.

Cena de “A Morte Branca do Feiticeiro Negro”

De que maneira a nossa ficção hoje se encontra municiada de elementos documentais e onde o documentário brasileiro mais se conecta com a ficção?
Piero Sbragia:
A ficção hoje é dependente do real. Diria até que vivemos uma ditadura de filmes de ficção “baseados em fatos reais”, o que só demonstra a importância da não negação da realidade. De que adianta um sujeito afirmar que a Terra é plana? Nosso planeta vai continuar sendo redondo, as canetas vão continuar caindo no chão se a gente as soltar e o cidadão terraplanista não vai conseguir mudar a realidade, mesmo que faça um filme tentando. É interessante, no entanto, perceber a outra via. O caminho que o documentário brasileiro percorre em direção à ficção, principalmente depois de “Iracema – Uma Transa Amazônica”, de Orlando Senna e Jorge Bodanzky. O que é real e o que é ficção nesse filme? Desafio qualquer um a me apontar isso. Orlando diz pra mim na entrevista que está no livro que faz filmes nessa quina, entre ficção e realidade. Da mesma maneira que Eduardo Escorel alerta para os perigos de lidar com o real. E de fato: como lidar com nossa realidade em 2020 e não enlouquecer? Esse desafio intrínseco ao documentarista me parece ser o desafio de todas as brasileiras e brasileiros. A conexão com o real torna-se mais impactante com o auxílio dos elementos ficcionais. Veja, por exemplo, “A Morte Branca do Feiticeiro Negro”, de Rodrigo Ribeiro, prêmio revelação do Festival Internacional de Curtas 2020. Como falar das memórias de um passado escravagista sem aqueles ruídos angustiantes e aqueles efeitos de imagem alucinantes? A ficção ajuda a tornar o documentário mais acessível e evita até aquele tradicional formato de “talking heads”, cabeças falando sem parar.

Neste sábado, o Doclisboa transborda lirismo com “É Rocha e Rio, Negro Leo”, de Paula Gaitán em um de seus trabalhos mais inspirados. Nele, compartilhamos com a cineasta de uma tarde com o músico, compositor, poeta, sociólogo e pensador Negro Leo. Ele expressa as suas ideias sobre o desenvolvimento da música bem como sobre a política brasileira e internacional, a ascensão das religiões neopentecostais e a sua obsessão pelas redes sociais, fazendo um paralelo com a sua própria vida.

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