‘Eternos’: o título já sugere sua excelência

‘Eternos’: o título já sugere sua excelência

Rodrigo Fonseca

04 de novembro de 2021 | 13h52

RODRIGO FONSECA
Que gratíssima surpresa é “Eternos” (“Eternals”), um espetáculo reflexivo sobre nossa essência predatória a partir do que seria nossa matriz – ou seja, o Absoluto. Sequências de ação da mais refinada adrenalina se conjugam com discussões existencialistas sobre o senso de propósito no longa-metragem, que acaba de chegar às telas, com o selo Marvel Studios. Há no roteiro de Chloé Zhao (também diretora, num trabalho primoroso), Patrick Burleigh e Ryan Firpo uma sintonia com o conceito sartriano de “A Náusea”: “O indivíduo nasce sem motivo, dura por fraqueza e morre por acaso”. É uma história sobre lacunas e sobre o ouro de tolo que nos oferecem para vedá-las, surpreendendo a esquemática do maniqueísmo herói x vilão comum ao subgênero da aventura que as narrativas de super-heróis se tornaram. O respeito de sua realizadora pelos quadrinhos de Jack Kirby (1917-1994), recentemente encadernados numa edição de luxo da Panini Comics, é louvável. Na trama, um supergrupo de seres criados para se enxergarem como entidades galácticas é forçado a se reunir, após séculos de distância, para deterem excessos de seu criador, uma força ligada aos Celestiais, uma raça que concebeu o universo, sob bases arquitetônicas e arqueológicas.

Chloé Zhao explica uma cena à atriz Gemma Chan, a Sersi

Ao fim de uma sessão do longa no Rio de Janeiro, o P de Pop postou:
Imagine se “Superman – O Filme”, aquele, o de 1978, que todos amamos, fosse dirigido por Terrence Malick. O resultado seria “Os Eternos” (“The Eternals”). Chloé Zhao é imparável. Não bastasse toda a beleza de “Nomadland”, ela ainda nos dá o mais ontológico dos filmes de super-herói, capaz de tangenciar todos os pleitos políticos de inclusão de nosso tempo sem fazer de sua abordagem uma bandeira – ao contrário do que o execrável “Old Guard” fez, com uma Charlize Theron caricata. Salma Hayek e Angelina Jolie, aqui, sob a batuta de Chloé, transpiram experiência e humanidade, ampliando a dimensão transcendentalista de uma aventura que, por vezes, faz a gente lembrar do monolito de Kubrick. Lauren Ridloff merece o mesmo elogio. Gemma Chan, ao lado delas, agiganta-se em um atuar elegante, que dá carne e alma à Sersi das HQs. No elenco, Ma Dong-seok (de “Invasão Zumbi”) é um sol, no papel de Gilgamesh. Mas há um tanto de luz de igual beleza nas atuações de Kumail Nanjiani (hilário como Kingo) e de Brian Tyree Henry, que acaba de ser aplaudido na sessão do Cine São Luiz, em seu trabalho como Phastos. Que surpresa boa a Marvel nos deu. Sei que vai sobrar vaia pra Bonsucesso agora, mas: cinco minutos desse lívido “Os Eternos” contagiam e transcendem mais do que o soporíferZzzzzz “Duna”.
Em setembro, o 69º San Sebastián realizou uma sessão especial em tributo a Chloé Zhao e seu “Nomadland”. Foi uma sessão realizada em conjunto com a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, a Fipresci, que elegeu a longa-metragem como “o filme do ano”, a partir de uma votação envolvendo todos os seus signatários pelo mundo. Sua produtora foi a atriz Frances McDormand. Ela e Chloé receberam estatuetas da Academia de Artes e Ciências Cinematográfica de Hollywood por sua tocante construção dramatúrgica.
Há um ano, esse drama on the road saiu da Terra das Gôndolas com o Leão de Ouro. No fim de 2020, a associação de críticos dos EUA, cujo presidente é Justin Chang (do “The L.A. Times”) deu ainda a este road movie baseado em fatos reais os prêmios de atriz (para Frances) e de direção, pavimentando a consagração de Chloé. Revelada em Cannes, em 2017, com “Domando o Destino” (“The Rider”), ela volta às telas com o que pode ser “O” filme da Marvel pós Vingadores: “Os Eternos”.

Frances McDormand e a diretora nos sets de “Nomadland”

De uma simplicidade franciscana, “Nomadland” estampa em seu currículo o People’s Choice Award do TIFF – Toronto International Film Festival, prêmio de público do evento canadense que, via de regra, consagra futuros ganhadores de Oscar, como se viu com “Quem Quer Ser Um Milionário”? (2008), “12 Anos de Escravidão” (2013) e “Green Book” (2018). Seu engenho narrativo lembra muito o de Jorge Bodanzky e de Orlando Senna em “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1974). O que Frances (no papel de Fern) faz com um furgão nas estrelas dos Estados Unidos é parecido com o que Paulo César Peréio fazia com seu caminhão pelas curvas do Norte. Os dois são agentes catalisadores de reações de atores não profissionais, de pessoas que vivem a demolição de um mundo que se crê em configuração. Os dois vivem (ou ensaiam) viver amores nas rodovias, como é o caso do quase romance de Fern e Dave (David Strathairn, brilhante) no diálogo travado entre Chloé e o livro homônimo de Jessica Bruder.
O que se vê nessa narrativa muitas vezes silenciosa, embalada (nas horas precisas) pela música de Ludovico Einaudi, fotografada sem exibicionismos por Joshua James Richards (de “Glory Days”), é algo já testado outras (e muitas vezes) no cinema, dos anos 1940 até hoje. Tem, sim, uma alma neorrealista nele – o neorrealismo possível no tal “novo normal” avesso a heroísmos de hoje -, mas a espinha dorsal vem de exemplos anteriores… vem de um pré-modernismo. Vem de “As Vinhas da Ira” (1940), de John Ford. Ali, sem o apoio de tratados sociológicos, Ford mostrou que, diante do esgotamento dos dispositivos da ficção (frente às bestialidades da vida de carne e osso), um pacto com o Real, ainda que sutil, pode dar uma oxigenada boa no cinema. É uma forma de devolver oxigênio a pulmões inchados pelo gás carbônico da fábula. É isso o que Chloé faz numa América que há muito depende da Marvel e da DC para pagar suas contas cinéfilas. Sua “Terra de Nômades” não tem vigilantes de uniforme. Aliás, tem só na tela, quando Fern passa por uma sala de exibição que está exibindo “Os Vingadores” (2012). Ex-professora avessa a uma aposentadoria antecipada, para não morrer de fome pelo baixo soldo à sua espera, ela é vítima de um downsizing econômico que leva sua cidade ao colapso. Sem lar, ela cai nas vias expressas e nas quebradas do mundaréu, queimando pneu e conhecendo gentes de todo tipo. A cada encontro vem uma lição que nos comove.
E “Eternos” é igualmente comovente.

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