Eterno estranho no Paraíso, Jim Jarmusch faz da poesia a matéria-prima de ‘Paterson’

Eterno estranho no Paraíso, Jim Jarmusch faz da poesia a matéria-prima de ‘Paterson’

Rodrigo Fonseca

11 Abril 2017 | 14h41

“Paterson”, que estreia no dia 20 de abril no Brasil, segue a rotina de um motorista de ônibus que escreve poemas

RODRIGO FONSECA
Filme-fetiche do último Festival de Cannes, onde engoliu público e crítico com suas situações cômicas e com sua aposta na simplicidade como filosofia de vida, Paterson, estrelado por Adam Driver (o neto de Darth Vader em Star Wars VII), comprova que o tempo não arrefeceu a ousadia de Jim Jarmusch. Espécie de papa do cinema alternativo americano, cuja matéria-prima vem do rock’n’roll, da poesia de rua e do sentimento de desconexão, o realizador de cults como Estranhos no Paraíso (1984) permanece – 37 anos depois de sua estreia – encantado por tipos errantes, sem ambições e desajustados ao padrão progressista do American Way of Life. Não é por acaso que ele amplie essa sua volta ao circuito também pelos terrenos documentais, falando da iguana Iggy Pop nos acordes sensoriais de Gimme Danger!, exibido também na Croisette em 2016. Este ainda vai custar a aportar por aqui. Porém, o doce Paterson aporta no circuito brasileiro no dia 20 de abril.

Na trama de Paterson, coube a Driver a tarefa de viver um motorista de ônibus cujo prazer maior é escrever poesias. O tal Paterson foi batizado em referência à cidade onde nasceu e vive, e por onde passou seu ídolo: o poeta William Carlos Williams (1883–1963), um renovador da forma estética no verso americano. Mas Paterson não tem sonhos de renovação de linguagem: avesso ao uso de celulares e computadores, ele quer apenas conservar sua rotina em paz. Dirige de manhã, escreve estrofes nas paradas mais longas de seu coletivo, janta à noite os pratos insossos feito com quinoa e couve por sua mulher, a expert em cupcakes Laura – personagem antológica vivida pela iraniana Golshifteh Farahani -, e passeia com Marvin antes de dormir, regando o fim do expediente com uma cervejinha. Paterson gosta desse viver processual e consegue inventar metáforas belíssimas a partir da repetição diária. Não espere mudanças na trama nem viradas com surpresas. O que temos é essa liturgia, durante 1h53m, mas narrada com um bom humor e uma doçura contagiantes, de se ouvirem gargalhadas e soluços na sala de projeção.

Confira a seguir as reflexões estéticas de Jarmusch neste par de trabalhos inéditos.

Como a palavra outsider se aplica para os seus personagens hoje, passados 36 anos de sua estreia em longas, com Permanent Vacation?
JARMUSCH:
Eu não busco, conscientemente, estabelecer um paralelo entre meus filmes, mas é nítido neles a recorrência de personagens que tentam afirmar seu jeitão peculiar de levar à vida, avessos às convenções. Não é alienação o que me atrai, nem autismo, é, sim, a afirmação de um modo peculiar de lidar com as questões cotidianas. O que há de mais significativo no trabalho de Adam, na criação de Paterson é que ele é um ator reativo, que improvisa e inventa em reação às ideias que eu proponho. Isso torna o processo mais vivo.

Em Cannes, Paterson foi definido como “um filme sobre o nada”, por exaltar a beleza do cotidiano, sem viradas bruscas. Que dramaturgia é essa, sem solavancos? JARMUSCH: É uma dramaturgia que vem do cinema de Yasujiro Ozu, da minha relação com filmes dele como A Rotina Tem Seu Encanto e outras pérolas, nas quais é preciso observar o fluxo da vida. Paterson dialoga com essa tradição ao ressaltar a importância de preservarmos o encantamento em relação às coisas mais cotidianas da vida e não cairmos na desilusão, sendo esta uma força destruidora que segue de perto a evolução tecnológica do mundo.

E o quanto Paterson e Gimme Danger dialogam?
JARMUSCH:
Eles conversam mais na interseção da poesia. Ambos falam de poetas que não se estabelecem às convenções de comportamento do mundo.

Mas há outro ponto comum: a presença, em ambos, o montador brasileiro Affonso Gonçalves. Que tipo de parceria vocês estabeleceram?
JARMUSCH:
Estamos juntos desde Only Lovers Left Alive e não tenho interesse algum de deixá-lo partir, pois temos uma simbiose perfeita na edição. Affonso não requer muita instrução. Num jogo de olhares entre nós, ele sabe do que eu preciso.

Nos dois filmes, há uma certa evocação de técnicas tradicionais da indústria artística, seja a presença de um filme em preto & branco em Paterson, seja a reflexão sobre a cultura do vinil e das gravadoras em Gimme Danger. De que maneira essa discussão pode servir como uma crítica à cultura digital?
JARMUSCH:
Quanto mais a vida evolui, em termos técnicos, mais as tradições se fragilizam. Mas na Arte, por exemplo, os processos técnicos podem mudar a forma de captação e de edição e até abrirem novos suportes de recepção, mas eles não travam a transcendência. Nada tira o viço de velhos filmes, mesmo aqueles em P&B. Não por acaso, Paterson leva sua mulher ao cinema para ver um clássico de terror no cinema. Ele quer o prazer coletivo de ver um filme numa sala escura.

 

 

 

 

 

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