Eternamente Nelson

Eternamente Nelson

Rodrigo Fonseca

02 de maio de 2020 | 15h25

RODRIGO FONSECA
Ao esbarrar com “O Iluminado” no Now Online, veio ao coração uma saudade ligada à mostra Simplesmente Nelson. No princípio era o verbo, no gerúncio: “Gravando”. Ok, estamos falando de cinema, onde a palavra-totem é “Ação!”, mas há um pedacinho da atividade cinematográfica, a dublagem, onde se fala em “gravar” e não em “rodar”, e Nelson Pereira dos Santos fez parte dela. Ele dirigiu a versão brasileira de um cult do horror: O Iluminado. Em 1980, Stanley Kubrick (1928-1999) chamou Nelson, que à época lecionava nos EUA, para dirigir a dublagem do longa. O realizador de Vidas Secas escalou Allan Lima para fazer a voz de Jack Nicholson e Betina Vianny para dublar Shelley Duvall. Tinha curiosidade para conhecer essa história melhor e, então, liguei para Nelson, a fim de entender qual foi a instrução que ele recebeu da lenda que nos legou obras-primas como Laranja Mecânica (1971). Era no mínimo exótico conhecer aquele encontro de mestres. A resposta veio em forma de uma historinha:

— Stanley e eu nos falávamos por telefone com regularidade para que ele estivesse a par do processo. Era praxe dele ter ingerência na dublagem de seus filmes pelo mundo a fim de evitar ruídos em relação à obra original. A única instrução mais rígida que eu recebi dele foi a ordem de não aliviar os palavrões e as palavras mais fortes— lembrou Nelson. — Stanley sabia que aquele texto tinha uma força narrativa única, que deveria ser preservada se vertida a outras línguas. E, embora ele tivesse uma fama de severo, comigo sempre foi um cavalheiro, trocando como se fôssemos colegas com muita proximidade. Foi um aprendizado.

Essa história me chegou no momento em que o diplomata Marco Farani, responsável pelo multiplex Cine Academia, em Brasília, resolveu aproveitar o espaço para fazer um festival de cinema internacional (com pompas) no Distrito Federal. Cada edição da mostra foi marcada pela publicação de um livro de entrevistas sobre um dínamo da arte de dirigir ou de atuar. Farani sabia que Nelson merecia um e confiou a mim essa tarefa. Foi assim que um telefonema para falar de dublagem com Kubrick evoluiu para um livro: Meu Compadre Cinema, uma conversa em forma de pingue-pongue com o cineasta, para mapear suas origens teóricas, suas heranças ideológicas, suas causas autorais, suas amizades, seus causos de bastidor, ou, como diz o subtítulo do livrinho, “seus sonhos, suas saudades, seus sucessos”.

Foi uma conversa de cerca de três longos encontros no bairro carioca do Humaitá, seguidos de um almoço light com peito de frango, alface, feijão e brócolis. E dali nós tiramos memórias da formação do Cinema Novo e da passagem de Nelson pelo exterior. No papo sobre processo, ele me deu uma pérola, útil nos processos que vim a ter nos anos seguintes dirigindo atores (no meu curta Corpo de Cristo) e trabalhando com teatro:

“Escalar atores é parte essencial da construção de um filme, pois eles serão seus parceiros. Para que isso funcione, eu não aplico testes. Não acredito neles. Sigo um outro método: entrevista. Eu entrevisto os meus candidatos, para saber o que eles pensam da história que eu quero contar, sobre a responsabilidade de estar no set, sob cinema. A escolha se dá a partir do tanto de doação que eu sinto de cada ator nessa entrevista. Dali nasce o filme. E as parcerias”, disse Nelson, com a generosidade de um professor, com a sabedoria de um cineasta que mudou nosso modo de olhar muitas e muitas vezes.

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