‘Été 85’: o Ozon da saudade

‘Été 85’: o Ozon da saudade

Rodrigo Fonseca

19 de setembro de 2020 | 07h20

“Été 85” surpreende pela delicadeza de seu roteiro

Rodrigo Fonseca
Em dois momentos de tensão afetiva distintos toca Rod Stewart em “Été 85”, de François Ozon, sendo um deles um ponto de virada para uma trama com perfume de Jô Bilac (“Beije Minha Lápide”) sobre descobertas e escolhas da vida adolescentes. Em ambos, o Tempo, esse danado, para e vira poema numa investigação do prolífico cineasta parisiense sobre os anos 1980 e os sentimentos que por lá ficaram, ao lado de um ethos Ploc regado a The Cure. E nessa viagem proustiana a um passado (que só parece) perdida, o diretor de”Graças a Deus” (Grande Prêmio do Júri na Berlinale 2019) dá mais uma prova do quão essencial é para o cinema da França hoje. Qual Bertrand Blier foi nas décadas de 1970/80, ele é o campeão de bilheteria que alia sucesso a prestígio, o que se comprova não só pela vasta quilometragem de reflexões (sempre pontuada de elogios) provocada por seus filmes, mas também por sua onipresença em grandes festivais. Chancelada por Cannes (que este ano não saiu do papel), aplaudida em Toronto, sua nova produção agora bagunça corações em San Sebastián, no norte da Espanha. É o segundo dos 13 filmes selecionados para brigar pela Concha de Ouro do evento, iniciado na sexta. E veio com fôlego para ser laureado em especial por seu roteiro, que se baseia livremente no romance “Dance on My Grave”, de Aidan Chambers. É pena só a fotografia de Hichame Alaoie não acompanhar a toada selvagem da juventudes retratada na trama, nem pisar fundo no acelerador sinestésico em que sua vívida montagem se escora, na edição de Laure Gardette. Mas há momentos em que o grande Ozon de “8 Mulheres” (2020) e de “O Amante Duplo” (2018) supera o Ozon mais careta, de “Frantz” (2016) ou de “Jovem e Bela” (2013). Aqui, o fluxo hormonal da adolescência e o frenesi do cancioneiro rock dos 80s fala mais alto.

Pontuada de romantismo e embalada a The Cure, “Été 85” segue os passos do jovem Alexis (Félix Lefebre) que passa seus 16 anos em uma praia da Normandia, às voltas com seu pai sisudo e sua mãe sempre preocupada. Durante um passeio de barco que quase acaba em tragédia, ele é salvo por David (Benjamin Voisin), um jovem sedutor que vai mexer com os afetos e com os impulsos sexuais do rapaz. Mas David dá um tchau pro garoto ao conhecer uma jovem inglesa, o que vai tirar toda a estabilidade de Alexis. Essa perda de equilíbrio conduz um enredo sobre ritos de passagem ao terreno inflamável do ciúme e da incerteza, cumprindo a vocação autoral de Ozon em abrir progressões para a aritmética do variável e do improvável, chegando a um final surpreendente, sem jamais perder a ternura.

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