Estudos de Lars von Trier em múltiplas telas

Estudos de Lars von Trier em múltiplas telas

Rodrigo Fonseca

23 de setembro de 2019 | 02h34

Preparando a série “Études”, Lars von Trier diz que o tema de ‘The House That Jack Built’ é a cultura da indiferença Foto: Julien Mignot/The New York Times


Rodrigo Fonseca
Enquanto aguarda a finalização da série “Études”, o novo projeto de Lars von Trier, envolvendo dez episódios autônomos ligados a movimentos musicais, a Dinamarca celebra a obra de seu mais controverso realizador de várias formas, incluindo uma revisão urgente de seu trabalho mais recente, “A casa que Jack construiu”. Enquanto a cinemateca dinamarquesa lança uma caixa de DVDs com a obra mais polêmica dele, dos anos 2000 para cá, a biblioteca municipal de Copenhague faz uma projeção do longa-metragem lançado por ele em 2018. Embora nada disso esteja no Festival de San Sebastián, que corre a pleno vapor desde sexta, na Espanha, a maratona cinéfila dos bascos serve de vitrine para o titã cinéfilo dos escandinavos, com papos de corredor sobre sua nova empreitada e promoção de seu box de filmes em formato digital.
Nestes tempos em que a troca de ideias, o debate dialético, a conversa foram substituídas por linchamentos virtuais em redes sociais, a (ainda) imensurável reflexão filosófica (fantasiada de niilismo) oferecida por Lars von Trier em cada um de seus filmes passou a ser reduzida a mero sensacionalismo e sadismo. Consciente do vazio que passou a reinar nos espaços críticos, por conta do preconceito com as discussões intelectuais, o diretor dinamarquês, que sacudiu as convenções de representação do cinema em “Dogville” (2003) e “Dançando no escuro” (Palma de Ouro em 2000), resolveu reagir, depois do seminal “Melancolia” (2011), com egocentrismo. Ele hoje só fala de si. Essa reação, contudo, não desabilita aquilo que faz dele um titã da imagem: o requinte plástico. Um requinte aplicado à observação da desmesura moral e mental da Humanidade. Assim sendo, o febril “A casa que Jack construiu” é um deboche. A repetição de planos, a brutalidade transbordante, a sensualidade pueril: tudo isso está nesta narrativa – sobre doze anos de crimes na vida de um psicopata – como sintoma do despropósito ético que varreu nosso mundo. E a esse sintoma soma-se uma autoanálise: o cineasta retoma cenas de seus sucessos, que entram sem conexão direta à saga do assassino Jack (Matt Dillon, em um deslumbre de atuação), a fim de gerar o desenho psicanalítico de uma cabeça que se rejeita as tolices do real, e se imola pra nós em delírios criativos.
No domingo, na disputa pela Concha de Ouro, San Sebastián conferiu um concorrente da China: “Llamo and Skalbe”, de Sontha Gyal. Na trama, um casal apaixonado tem que abrir mão do sonho do matrimônio porque ele não completou seu divórcio legalmente e a ex pretende trazer problemas para os anseios românticos de seu antigo parceiro. Mas as razões disso não são movidas pelo egoísmo e sim por feridas profundas. Até o momento, no evento, que abriu as portas na sexta-feira, o longa em concurso com maior destaque é “Próxima”, da francesa Alice Winocour (de “Augustine”), no qual Eva Green vive uma astronauta com conflitos em um planeta não muito distante, chamado maternidade.

Porém a produção com mais visibilidade da mostra oficial foi exibida hors-concours: a dramédia argentina “La Odisea de Los Giles”, de Sebastián Borensztein, com Ricardo Darín e seu filho ator, Chino. Vista por 1 milhão de pagantes na terra de nossos hermanos, o longa põe o astro no papel de um ex-craque de futebol que, em 2001, no ano da falência financeira de sua pátria, reúne um grupo de vizinhos, em uma cidadezinha do interior, para abrir uma cooperativa.
San Sebastián segue até o dia 28, quando será realizada a cerimônia de premiação, precedida pela exibição de um filme surpresa, o que todos aqui acreditam ser o novo Woody Allen: “A rainy day in New York” (“Um dia de chuva em Nova York”). Este pode ser o longa de abertura do Festival do Rio, caso o evento se estruture com sua campanha atual de financiamento coletivo.

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