Estrela de Ouro para a América do Sul

Estrela de Ouro para a América do Sul

Rodrigo Fonseca

08 de dezembro de 2019 | 10h52

“Tantas almas”: vitória no Festival de Marrakech

RODRIGO FONSECA
Candidato ao posto de mais estelar dos festivais de cinema da África, dado o esquadrão de celebridades em suas fileiras, Marrakech encerrou no sábado a sua 18ª edição com a consagração do cinema sul-americano: venceu a Colômbia do diretor estreante Nicolás Rincón Gille e seu “Tantas Almas”. É uma coprodução com o Brasil, a Bélgica e a França, filmada em Simití, que fica a oito horas de Cartagena, num trajeto de carro e de barco. A diretora de arte é a brasileira Laís Melo, artista fundamental para uma recriação do início dos anos 2000. Uma recriação que encantou o júri presidido pela atriz inglesa Tilda Swinton, com o pernambucano Kleber Mendonça Filho (“Bacurau”) entre seus votantes. Tilda deu a Estrela de Ouro de 2019 ao calvário de José, um pai enlutado, numa corrida contra a Natureza – e a civilização opressora – para reaver os corpos de seus filhos, mortos numa guerrilha política, em 2002. Gille, que tem um currículo pautado pela estética documental, estreia na ficção escancarando os desajustes políticos do governo colombiano e seu peso sobre seus habitantes. O pescador Arley de Jésus encarna José numa narrativa inspirada pela estética de Pedro Costa e seu “No quarto de Vanda” (2000).
“Foi um desafio a negociação com Arley, um homem evangélico, para conseguir fazer todas as representações de que necessitávamos, como cantar o que não fosse de sua religião. Mas ele foi generoso e trabalhamos uma série de exercícios de preparação”, disse Gille ao P de Pop.
Integraram ainda o júri as diretoras Rebecca Zlotowski (francesa) e Andrea Arnold (inglesa); a atriz franco-italiana Chiara Mastroianni; o ator sueco Mikael Persbrandt; o escritor e diretor afegão Atiq Rahimi; o realizador australiano David Michôd; e o cineasta marroquino Ali Essafi. Eles fizeram a cerimônia de premiação um dia depois da homenagem do evento ao ator e diretor octogenário Robert Redford, alvo de um tributo por sua trajetória de glórias e pelos 40 anos de sua estreia na direção, com “Gente como a gente”. Nas demais categorias, o Prêmio do Júri foi atribuído ex aequo. Ganharam “Last visit” (Arábia Saudita), de Abdulmohsen Aldhabaan (um tocante retrato da inadequação entre pai e filho), e para “Mosaic Portrait” (China), de Zhai Yixiang. O prêmio de direção foi para Ala Eddine Slim, da Tunísia, por “Tlamess”, sobre um soldado que se afasta de combate ao saber da morte da mãe.
Toby Wallace, que saiu de Veneza com o Prêmio Marcello Mastroianni, deixou Marrakech com a láurea de melhor ator por “Babyteeth”, da Australia. Já o troféu de melhor atriz foi dividido por Nichola Burley e Roxanne Scrimshaw, por “Lynn + Lucy”, do Reino Unido.

Prêmio Especial do Júri para “Last Visit”

De 30 de novembro até ontem, Tilda, Kleber Mendonça e seus companheiros de júri, presididos por Tilda, foram bombardeados com imagens dos seguintes filmes para julgar, além dos laureados: “A Febre”, de Maya Da-Rin (Brasil); a animação “Bombay Rose” (Índia), de Gitanjali Rao; “Mamonga” (Sérvia, Bósnia Herzegovina, Montenegro), de Stefan Malesevic; “The unknown saint” (Marrocos), de Alaa Eddine Aljem; “Mickey and the Bear” (EUA), de Annabelle Attanasio; “Nafi’s father” (Senegal), de Mamadou Dia; “Scattered night” (Coreia do Sul), de Lee Joh-young; “Sole” (Itália, Polônia), de Carlo Sironi). Entre os momentos de maior emoção do festival, as lágrimas corream solto da face grisalha do veterano diretor francês Bertrand Tavernier (de “Por volta da meia-noite”), também honrado com um tributo no local, quando ele foi assistir a palestra do ator Harvey Keitel.
Com o término de Marakech, as expectativas do cinema agora se voltam para a Berlinale 2020 (20 de fevereiro a 1 de março), que terá a atriz inglesa Helen Mirren, de 74 anos, como sua homenageada, com direito a receber o Urso de Ouro Honorário. Seus concorrentes e suas atrações paralelas vão ser anunciados a partir da semana que vem.

p.s.: Na madrugada de domingo pra segunda, à 0h56, a Globo exibe “Maré Vermelha” (“Crimson Tide”), de Tony Scott, com Denzel Washinton e Gene Hackman, em conflito em um submarino nuclear.

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