Estreia sexta a Palma de Ouro de 2021: ‘Titane’

Estreia sexta a Palma de Ouro de 2021: ‘Titane’

Rodrigo Fonseca

24 de janeiro de 2022 | 16h30

Rodrigo Fonseca
A partir desta sexta-feira, ao clicar www.mubi.com, assinantes da plataforma de maior quilate autoral da streaminguesfera poderão conferir o filme vencedor do prêmio máximo do Festival de Cannes de 2021: “Titane”, de Julia Ducournau. Um filme que divide e causa brigas, como as boas Palmas de Ouro. Aquelas que ficaram para sempre. Criada em 1939 e entregue na França pela primeira vez ao diretor Cecil B. DeMille (1881–1959), por “Aliança de Aço”, a Palma dourada já coroou expedições ecológicas (como “O Mundo Silencioso”, de Jacques-Yves Cousteau e Louis Malle), explorações semiológicas (“Blow-up”), tratados políticos (muitos, e bons, de “Pai Patrão”, dos Taviani; a “Eu, Daniel Blake”, de Ken Loach; passando pelo monumental “Missing”, de Costa-Gavras), fábula (“Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”) e até o drama social brasileiro, com “O Pagador de Promessas”, há exatamente 60 anos. Nem sempre o que o júri de Cannes decidiu agradou. Até hoje ninguém sabe com que qualidades “A Bossa da Conquista” (“The Knack …and How to Get It”), de Richard Lester, arrebatou o troféu, em 1965, dobrando um time de jurados chefiando pela atriz Olivia de Havilland (1916-2020). Da mesma forma, é difícil entender, hoje, como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” possa ter sido preterido, em 1964, quando Fritz Lang (1890-1976) e seus votantes decidiram coroar “Os Guarda-Chuvas do Amor” – que, fato, é um dos maiores musicais da História, mas não deveriam ter deixado a pérola de Glauber sem nada. Qual foi o sentido da Palma dada ao insosso “Sono de Inverno” de Nuri Bilge Ceylan? Mas há muitas Palmas que mudaram a maneira de lidarmos com as narrativas, vide a de “Pulp Fiction”, em 1994, e a de “Rosetta”, em 1999. Quem sabe não seja esse o destino da láurea dado a Julia.

Agathe Rousselle é uma serial killer que muda de identidade e de gênero para fugir da polícia

Revelada com “Grave” (“Raw”, 2016), a cineasta parisiense enxerga o corpo como um lugar de revelações e de transcendência, a julgar pelo processo revolucionário que suas protagonistas passam a partir de um gatilho de seus organismos. Com a entrada de “TITANE” na MUBI, um dispositivo de transmissão de filmes que podem se visto em ambiente doméstico por celular ou por computador, o espectador pode habitar esse sistema biológico e compreender como a realizadora entender o corpo como emissor de verdades, como formulador de conspirações.
Em seu novo longa, uma mulher na casa dos 20 e tantos anos engravida após uma relação sexual sem preservativo. Mas seria difícil encontrar camisinhas que dessem conta de seu parceiro: um… carro. Por cerca de nove meses, após uma transa em que latarias metálicas de agitam, Alexia (Agathe Rousselle, em devastadora atuação) vai expelir um líquido que parece óleo diesel de sua vagina. Por vezes, a secreção é graxa. São imagens que, faladas, soam quase caricatas, soam como piadas. Mas filmadas com elegância e visceralidade, essas imagens produzem o que pode, desde já, ser considerado “O” filme do ano. Não por acaso, coube a ele a Palma de Ouro. É a segunda vez na História que a láurea vai para uma realizadora, sendo a neozelandesa Jane Campion a vencedora anterior, laureada em 1993, por “O Piano”.

Fervendo num ritmo de panela de pressão, “Titane” investe nessa exortação da potência corporal, típica de Julia, mostrando a carcaça humana como um templo de afirmação do livre arbítrio, num estudo sobre identidades performáticas. Cannes premiou-a (graças ao júri presidido por Spike Lee), mas a Croisette dividiu-se num Fla x Flu tipo “Amei” x “Odiei” ao fim de sua projeção. San Sebastián viveu a mesma situação. O Festival do Rio idem. Houve gente saindo das sessões quando Alexia bate o próprio rosto contra uma pia, a fim de deformar seu nariz. Deformar-se é parte da reinvenção pela qual a personagem há de passar quando se assume, sem culpa, como serial killer, dando um ponto final à existência de homens que passam dos limites na aproximação a ela e dando um adeus a mulheres que não reagem a seus carinhos furiosos como ela espera. E ela mata usando um pau de cabelo como arma. Mas é a segunda transformação por que a moça passa. A primeira acontece em sua infância, quando um acidente rodoviário impõe a instalação de uma placa de titânio em sua cabeça. Ali ela vira ciborgue. Ali vem um espírito cronenberguiano desta alegoria sobre a condição maquínica da civilização, nestes tempos em que somos, a cada dia mais, centauros de nossa tecnologia. Antes de Julia lançar essa fábula dark sobre o devir chassi em cada um de nós, a diretora pernambucana Renata Pinheiro já havia tratado do tema em seu vicejante “Carro Rei”, um dos destaques na 25ª Mostra de Tiradentes, atualmente online.

Ambos têm parentela com “Crash: Estranhos Prazeres” (Prêmio do Júri em Cannes, em 1996), do já citado David Cronenberg. Lá, acidentes de carro excitavam pessoas marcadas por cicatrizes. Em “Titane”, Alexia, que também ostenta uma ferida cicatrizada na pele, só tem orgasmos com veículos de quatro rodas, levando consigo o fruto desse prazer. Fruto esse que vai se desenvolver numa assustadora aproximação da narrativa com os códigos do horror. O que dilui o tom sombrio – mas não o clima de bizarrice – é a relação que Alexia estabelece com um bombeiro (Vincent Lindon, em excepcional atuação) que enxerga nela o filho que perdeu. É o germe de um amor paterno que vai descambar para algo sem nome, surpreendente como cada fotograma desta aula de biologia existencialista. A biologia de tempos ciborgues.

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