Estranho e belo mundo de Sam Raimi na Marvel

Estranho e belo mundo de Sam Raimi na Marvel

Rodrigo Fonseca

05 de maio de 2022 | 12h50

RODRIGO FONSECA
Longe da tela grande, como realizador, desde o sucesso de “Oz: Mágico e Poderoso”, de 2013, Samuel Marshall Raimi é um artífice do terror, como comprova seu “Uma Noite Alucinante 3”, que a Amazon Prime disponibiliza em sua grade. À luz da mitologia judaica em que foi criado, o realizador utilizou escritas da Bíblia e referências a textos profanos, entre os quais o famigerado “Necronomicon”, o Livro dos Mortos, para criar uma dramaturgia particular, que se traduz por uma narrativa originalmente cinemática (calcada em movimentos de câmera), quase artesanal. Hoje em cartaz em quilos de cinemas com “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, um espetáculo visual esplendoroso na forma e inquieto na sua reflexão sobre nosso “assim é, assim lhe parece”, de todo o dia, ele despontou com “Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio” (“Evil Dead”), em 1983Rodado ao custo de “duas mariolas” (US$ 350 mil) perto dos valores gastos mesmo em filmes de baixo orçamento dos EUA, nos anos 1980, esta aula de artesania na movimentação da câmera e na manipulação de objetos transformou o diretor – que, então, era um curta-metragista – numa grife do horror. E isso anos antes de ele assumir a direção da franquia “Homem-Aranha” (2002-2007), com Tobey Maguire. Seu estilo elétrico, com mil reviravoltas por minuto, sacudiu os padrões do terror americano, já chacoalhado pela estreia de “Halloween” (1978), de John Carpenter. Mas a maneira de Raimi filmar era algo anárquico, incorporando a pobreza de recursos como uma estética de estranheza. E ele ainda lançou o ator Bruce Campbell, seu divo, no papel de Ash. Na trama – que foi reciclada pelo próprio cineasta, com alguns dólares a mais, em “The Evil Dead II”, de 1987 – um grupo de jovens libera um diabo incontrolável na Terra ao ler o “Necronomicon”. E o tempo passou… E ele chegou aos 62 anos… Mas certos sentimentos não envelhecem.

Fábio Azevedo dubla Benedict Cumberbatch com uma excelência digna de aplausos

Raimi aventurou-se em muitos registros, com destaque para um thriller… “Um Plano Simples” (1998), que concorreu ao Oscar de melhor roteiro. E, na esteira do trauma do 11 de Setembro, num momento em que a Marvel começava a se aventurar no cinema, ele assumiu o Aranha. E fez fortunas. Voltou a assustar pessoas revolvendo folclores hebraicos (o Dybbuk) em 2009, em “Arraste-me Para o Inferno”, que lançou em Cannes, com pompas de autor. Mas esteve no radar da cúpula marvete sempre. Faltava apenas uma HQ que não repetisse o estilo impresso nas peripécias do teioso Peter Parker. Nada mais adequado do que Stephen Strange, um ás do Ocultismo.
Se você desconhece o Mago Supremo, criado por Steve Ditko (1927-2018) na “Strange Tales” #110, de julho de 1963, vale dar um pulinho numa boa banca de jornal (no Rio, a dica: Banca do Bernardo e do Marcelo, na altura da Av. Rio Branco 100) e conferir o que a Panini Comics tem lançado dele. É uma boa antes de encarar o esfuziante “Doctor Strange in the Multiverse of Madness”, já em circuitão, amparado numa atuação preciosa do atorzaço inglês Benedict Cumberbatch (dublado no Brasil por Fábio Azevedo). Já está à venda o imperdível “Doutor Estranho: O Juramento”, reunindo o conteúdo (traduzido) de “Doctor Strange: The Oath” (2006) 1 a 5. Nele, Stephen Strange embarca na investigação paranormal mais importante de sua carreira, ao tentar solucionar uma tentativa de homicídio – a dele mesmo! E com seu amigo mais confiável também às portas da morte, Strange se volta para um canto inesperado do Universo Marvel para recrutar um novo e inesperado aliado. O premiado roteirista Brian K. Vaughan e o espetacular artista Marcos Martin unem forças para uma aventura que levará o Mago Supremo do submundo da cidade de York até as dimensões mais mortais na periferia da realidade.

Saiu também o ótimo “Doutor Estranho: Marvel-Verse”, ao custo batuta de R$ 26,90. Nessa antologia, o Mago Supremo protagoniza algumas de suas aventuras mais espetaculares aqui! Descubra como a busca de Stephen Strange por uma cura para suas mãos destruídas o levou a um mundo de magia e mistério. Acompanhamos sua batalha interdimensional contra a sinistra entidade Dormammu, pelas mãos do próprio Ditko. Nesse miolo, um triste Strange aborda o demoníaco D’Spayre e aprende como seria a vida se ele nunca tivesse dominado as artes místicas. Tem ali traduções de “Uncanny Origins” (1996) 12; “Doctor Strange” (1974) 55; “Marvel Adventures Hulk” (2007) 5; e “Marvel Adventures Super Heroes” (2008) 5.
É uma forma de entender melhor um personagem que Cumberbatch e Raimi lapidaram a cinzel, levado às raias do existencialismo.
Vertiginoso do começo ao fim, “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” é um atestado de autoralidade para um realizador de impressões digitais carregadas de tintas, que retoma parte dos códigos que começou a manipular de maneira quase artesanal a partir do cult “Darkman: Vingança sem Rosto” (1990). Uma direção de arte exuberante escava camadas inusitadas no Universo Marvel, representando um mundo de fantasia em seu ambiente mais misterioso: a loucura. A vilã aqui é a psiquê fraturada de Wanda, feiticeira que Elizabeth Olsen esculpe a cinzel. Qual na série “WandaVision”, hoje na Disney+, ela cria dimensões paralelas para poder ter filhos que gerou com seus poderes de alterar probabilidades. Mas a possibilidade de se apossar de um livro mágico, o “Vishanti” (traço do fetiche bibliófilo de Raimi), faz com que ela devasse o Multiverso, arrastando realidades consigo. A presença de sir Patrick Stewart como Professor Xavier mostra o quanto as artimanhas de Wanda perturbam diferentes instâncias marvetes, como o líder dos X-Men. Aliás, a presença desse ali é um convite para que o grupo de mutantes apareça. Assim como a presença de um certo cientista que estica, um tal de Reed, e o Rei dos Inumanos, Raio Negro.
Mundo e mundo da Marvel estão ali, de carne e osso. Mas o que mais chama atenção é forma como Raimi dialoga com a necromancia e com a existência das trevas ao revisitar o Estranho, o que dá uma evolução gritante para a franquia do herói. Só Guilhermo Del Toro fez algo similar, com “Blade 2”, há 20 anos.

O primeiro filme do Estranho está na Disney + e tem a direção precisa Scott Derrickson. Cifras confirmam um sucesso de bilheteria que encheu os cofres da Disney de $$: o longa-metragem custou US$ 165 milhões e arrecadou US$ 678 milhões, tendo recebido uma indicação ao Oscar de efeitos visuais. Todo esse êxito foi a confirmação artística de uma promessa: há uns onze anos, quando surpreendeu plateias ao mesclar terror, thriller jurídico, Laura Linney e Tom Wilkinson em “O Exorcismo de Emily Rose” (2005), Derrickson se fez notar no planisfério hollywoodiano como um talento a se lapidar, conectado às esferas do Sobrenatural. Mas o fracasso de seu caríssimo “O Dia em Que a Terra Parou” (2008), com Keanu Reeves, atrapalhou a consagração dele, mas não a sua evolução estética. O que torna a expedição audiovisual da Marvel pelos domínios da magia tão vigorosa – narrativamente – é a presença de um cineasta com pleno domínio da linguagem, em busca de esmerilhar seu estilo, apoiado em um elenco de dar inveja a qualquer drama padrão Oscar de Hollywood ou de sua esfera indie.

Feiticeira Escarlate: a vilã do longa de Raimi é a psiquê fraturada de Wanda, que a atriz Elizabeth Olsen esculpe a cinzel

Foi uma surpresa encontrar Tilda Swinton, Chiwetel Ejiofor, Mads Mikkelsen e Michael Stuhlbarg num mesmo filme. Assim como não é qualquer dia em que um cineasta filtra o mar de excessos de Cumberbatch e apara os faniquitos maneiristas com os quais ele destruiu Sherlock Holmes na série da TV do detetive. Se pensarmos que a escolha inicial para o Mago Supremo era Joaquin Phoenix, brota a curiosidade de saber o quão melhor este longa, já contagiante poderia ficar tendo um dos melhores atores do planeta em seu papel central. E isso foi numa época em que nem se cogitava a feitura de “Coringa” (“Joker”). Mas como Phoenix pareceu arriscado demais para a Disney, vigou Cumberbatch. E ele surpreendeu. E, agora, Raimi nos surpreende também, com sua excelência.

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