‘Estrada para Perdição’, um clássico nato hoje na TV

‘Estrada para Perdição’, um clássico nato hoje na TV

Rodrigo Fonseca

07 de maio de 2019 | 13h25

Mario Jorge dublou Tom Hanks na versão brasileira de “Road to Perdition’

Rodrigo Fonseca
Com o prestígio em alta por conta dos Oscars conquistados por “Beleza Americana” (2000), o inglês de origem portuguesa Sam(uel Alexander) Mendes – hoje envolvido com as filmagens do épico sobre a 1ª Guerra Mundial chamado “1917” – foi convocado para adaptar uma HQ de Max Allan Collins e Richard Piers Rayner sobre a atmosfera noir mítica do gangsterismo, que se chamava “Road to Perdition”. O gibi saiu aqui como minissérie pela Via Lettera. Era uma narrativa que dava um cunho quase religioso ao fardo dos matadores, elegendo como foco um assassino crudelíssimo nas ruas que, em sua casa, era um modelo de bom marido e pai zeloso: Michael Sullivan. Essa dimensão moral cativou Mendes, que deu à trama um tom misto de ação e épica geracional, calcado na escolha de Tom Hanks como seu protagonista. O ator – que este ano voltará às telas no papel do apresentador de TV Fred Rogers em “A Beautiful Day in the Neighborhood”, de Marielle Heller tem um desempenho memorável nesta versão do quadrinho de Collins para as telas, que, aqui, foi traduzido literalmente como Estrada para Perdição. Esta produção orçada em US$ 890 milhões, cujo faturamento nas bilheterias foi de US$ 181 milhões, vai ser exibido pela TV Globo esta madrugada, à 1h45, numa versão dublada primorosa da finada Herbert Richers. Foi Mario Jorge quem dublou Hanks, num trabalho que beira a excelência. Coube ao mito da voz Jomeri Pozzolli dublar Paul Newman (1925-2008).

Na cerimônia do Oscar 2002, o longa-metragem conquistou a estatueta de melhor fotografia, concedida postumamente a Conrad L. Hall (1926-2003). A luz dele dá um clima de fog à América da Grande Depressão. Tudo se passa no inverno de 1931, quando Sullivan ganha o pão de cada dia matando gente em nome do chefão irlandês John Rooney (Newman), que criou o assassino como se fosse seu filho. Vivido por Tyler Hoechlin, o moleque Michael Jr.  é o rebento mais velho de Sullivan, que morre de curiosidade sobre a profissão misteriosa do seu pai. Ao seguir seu velho, ele acaba testemunhando uma execução comandada por seu genitor. Isso torna o garoto um alvo. Rooney exige que Sullivan mate o menino, sem pena, como prova de lealdade. Mas o senso da paternidade falará mais alto. Jennifer Jason Leigh brilha em cena como a mulher de Hanks. Um Daniel Craig pré 007 vive o filho de Newman e Jude Law (em estado de graça) vive um criminoso perigosíssimo escalado para matar Sullivan.

Existe uma poesia triste neste longa, algo que evoca a mitologia bíblica de Abraão na leitura feita pelo filósofo Soren Kiekergaard no livro “O temor e o tremor”: o ônus do amor paterno é um desafio para os desígnios do Senhor. Mendes transpôs essa filosofia para o mundo do crime com uma delicadeza singular. Confere hoje no Corujão. Vale madrugar.

p.s.: Cannes escalou o cineasta cambojano Rithy Panh, laureado mundialmente com “A imagem que falta” (2013), para presidir o júri da competição Caméra d’Or, dedicada a filmes de cineastas estreantes. O festival francês, em sua 72ª edição, abre suas atividades na terça que vem, dia 14 de maio, com a projeção de “The Dead Don’t Die”, uma comédia de zumbis de Jim Jarmusch, com Tilda Swinton, Iggy Pop e Bill Murray.

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