‘Estados Unidos pelo Amor’: excelência polonesa na tela

‘Estados Unidos pelo Amor’: excelência polonesa na tela

Rodrigo Fonseca

24 Dezembro 2016 | 14h06

“Estados Unidos pelo Amor”: prêmio de melhor roteiro no Festival de Berlim

RODRIGO FONSECA

Na próxima quinta, o circuito exibidor brasileiro fecha seu ano cinéfilo com um dos filmes mais arrebatadores produzidos pelo Velho Mundo em 2016, tendo CEP polonês: Estados Unidos Pelo Amor (United States of Love), laureado com o troféu de melhor roteiro no Festival de Berlim, em fevereiro. Neste domingão de Natal, haverá sessão dele no Rio de Janeiro, às 16h15, na reabertura – em pompa e gala – do Estação Net Barra Point, maior presente de Papai Noel para os cariocas, por se tratar de um espaço de prés e de estreias de longas-metragens autorais. E o drama uterino de Tomasz Wasilewski tem toda a inquietação narrativa característica deste ambiente.

Saca Kieslowski, de A Dupla Vida de Véronique (1991), e outras delícias? Pois então… Estados Unidos Pelo Amor parece um filme do Kieslowski – aliás, parece com os melhores trabalhos deste mestre. A angústia que ele deixa é igualizinha a que Não Matarás (1988) dava na gente. Realizador do drama de tom homafetivo Arranha-Céus Flutuantes (2013), Wasilewski é um cineasta de 36 anos que tinha apenas 9 quando a Polônia passou por uma reestruturação econômica sob os ecos do fim do regime soviético. Morava numa casa com mãe, irmã e amigas de ambas. Os códigos do feminino governam seu olhar de mundo e, a partir deles, foi cerzido este que é o mais uterino dos concorrentes ao troféu máximo do certame berlinense. Temos quatro protagonistas, um antagonista (a solidão, esse bicho safado) e um destino (o vazio).

Numa estrutura narrativa quase episódica, que se desliga de uma personagem e salta para outra sem dizer adeus, começamos com uma mulher infeliz no casamento, de olho em um padre. Depois, caímos no colo de uma diretora de escola apaixonada por um homem casado. Por fim, damos as mãos a uma professora de Russo cujo coração bate por uma vizinha. E esta, a quarta mola propulsora da trama, sonha virar modelo e faz o que pode para isso, até se deixar fotografar por quem não presta.

 

Não há como desgrudar um segundo do discurso sobre a errância dos afetos que Wasilewski construi com uma fotografia de cores esmaecidas. Sente-se o trágico ao redor, mas ele não chega quando a gente espera. Tragédias supõe descabelamento, joelhos ao chão, berros… Aqui, não. Aqui é cinema polonês roots, com a frieza habitual que os cineastas flagram numa tentativa de – pelas vias da transcendência de olhares e de gestos – expor a dor por sobre o silêncio e a retidão. Não é Ida (2014), aquele carro alegórico que recebeu fogos de artifício há um ano por seu exibicionismo fotográfico. A coisa aqui é séria: é uma observação minuciosa do desconforto, da azia sentimental de esperar o que não se tem (e não chegará).

Houve quem se incomodasse (e até vaiasse) na Berlinale a exposição sem pudor que o filme faz de corpos das mais variadas idades, a despeito da flacidez, das gordurinhas. Mas, para inventar cicatrizes do coração e da alma, Wasilewski precisa exumar pele e carne. O resultado é um espetáculo incômodo, porém… vivo.

Ainda no domingo, no Rio, lá no Barra Point, tem também o western contemporâneo A Qualquer Custo (Hell or High Water), que pode render um Oscar a Jeff Bridges, pelo papel de um tira velho de guerra às voltas com dois irmãos ladrões de banco. Este passa às 18h30m. E às 21h rola o bárbaro filme de horror Invasão Zumbi (Train to Busan), da Coreia, candidato máximo a cult. Ho! Ho! Ho!