Estação Net Rio transborda de Wong Kar Wai

Estação Net Rio transborda de Wong Kar Wai

Rodrigo Fonseca

13 de maio de 2022 | 10h29

O set de filmagem de “Amores Expressos”, um dos sucessos do diretor de 63 anos, sumido das telonas desde 2013, e tem em seu currículo o prêmio de Melhor Direção em Cannes, em 1997 por “Felizes Juntos”

RODRIGO FONSECA
Numa luta por ocupação de seus espaços, e por uma maior mobilização dos espaços exibidores do Brasil, o Grupo Estação propôs uma belíssima retrospectiva de Wong Kar Wai, que abre espaço para sua obra-prima, “Amor à Flor da Pele” (“In The Mood For Love”, 2000), nesta sexta, às 19h. Há grafias com hífen do nome do realizador chinês de 63 anos, como Kar-wai e Kar-Wai, sendo a não hifenizada a mais corrente. Discussões gramaticais à parte, sua carreira vai ser esquadrinhada na retrospectiva que fica em cartaz no RJ até o dia 18 no Estação NET Botafogo 1. Em 2021, a plataforma digital de curadoria humanizada MUBI fez um trabalho memorável ao trazer alguns dos sucessos do cineasta para a streaminguesfera, com legendas em Português, e ainda fez uma parceria com o Festival do Rio numa homenagem a WKW. A atual seleção carioca inclui “2046: Os Segredos do Amor” (2004), com sessão neste sábado; “Anjos Caídos” (1995), que passa no domingo; “Happy Together – Felizes Juntos” (1997), que vai fechar o ciclo, na quarta; e “Amores Expressos” (1994), que abriu esse circuito, na última quinta. Em março do ano passado, a www.mubi.com estabeleceu uma ponte do Estadão com o artesão da fotografia em movimento que ajudou Kar Wai a esculpir as pérolas em destaque no Estação: o australiano Christopher Doyle.
“Tudo o que a gente fazia era desejo puro, pois o nosso diferencial, na história do melodrama, foi devolver ao gênero uma carnalidade e uma sensualidade que foram extraídas dele pelos códigos do moralismo. E era um trabalho colaborativo nosso, sem hierarquia. A força do que você vai ver nesses filmes recuperados em 4K pela MUBI se deve à direção de arte somada ao figurino somada à liberdade do elenco somada à oportunidade que a direção nos dava para criar de maneira conjunta”, disse Doyle ao Estadão.

Dedicado fotografar filmes desde “Aquele Dia na Praia” (1983), quando iluminou boas ideias de Edward Yang (1947-2007), transformando-as em planos tocantes, Doyle sempre ressalta o esplendor da força feminina na obra de Kae Wai. Basta revisitar imagens de atrizes como Maggie Cheung, Brigitte Li e Faye Wong nos filmes de maior sucesso do cineasta para que ele entenda o quanto da revolução que hoje circula pelos pleitos de “empoderamento” já estavam em crisálida no trabalho das grandes intérpretes asiáticas que se destacaram na década de 1990 e 2000.
“É da natureza desses filmes buscar o espaço da tela grande. Eles foram pensados como se fossem espetáculos visuais. Mas, no trabalho da MUBI, há um componente histórico essencial: todos precisamos saber como queremos compartilhar a explosão de ideias que nos tocam e o streaming despontou como um eixo que não nega o cinema, mas se soma a ele. Tem muita gente jovem fazendo vídeos na internet que tem alimentado bem a cultura da imagem. Precisamos estar abertos às mídias que existem mutuamente, seja uma plataforma, seja um festival”, disse Doyle ao Caderno 2 do Estado.
Cannes e Berlim aplaudiram o modo como ele e Kar Wai redefiniram a cartilha do melodrama, misturando mambo, Nat King Cole, The Mamas and The Papas, tons de vermelho e espelhos numa cartografia da Hong Kong dos anos 1960, 1990 e até de 2040. Cores explodem nas telas em filmes como “Amor à Flor da Pele”, que deu a Tony Leung o prêmio de melhor ator na Croisette, há 21 anos. “Estávamos sempre atentos ao ritmo, porque o drama pede uma melodia. Mas estávamos atentos também a questões que passam pelos afetos, pelo querer, pelo entendimento daquilo que nos leva a gostar de alguém”, disse Doyle. “O cinema que me inspira é o cinema do inesperado. Cada vez que eu filmo, preciso ir às locações, conhece-las, respeitar suas formas e seus desenhos. É do espaço que brota a luz. É do esparo que eu extraio a dinâmica de que a luz necessita em cada história”.
Sem lançar filmes desde 2013, quando abriu a Berlinale com a exibição de “O Grande Mestre”, Kar Wai está finalizando a série “Blossoms”, sobre um milionário que venceu na vida por seus próprios meios e um oportunista que cruza seu caminho. Já Doyle acaba de trabalhar em “Just 1 Day”, de Erica Li, e vai filmar o longa “Hunters in the Dark”, baseado em romance de Lawrence Osborne.

Filmagens de “Amor À Flor da Pele”

Paralelamente à mostra no Estação, vai ter Kar Wai no Vibra Open Air: no dia 29, às 22h, rola “Amor À Flor Da Pele” numa telona de 325m²? Evento de celebração da força do cinema presencial, ao ar livre, o Vibra vai mobilizar São Paulo, no Jockey Club paulistano, dos dias 25 de maio a 12 de junho. Além de projeções, sua programação multimídia inclui show exclusivos e uma área gastronômica de fino e farto cardápio. A venda de ingressos começou no último dia 4 pelo site www.openairbrasil.com.br, com possibilidade de troca por pontos do Premmia, programa de fidelidade dos Postos Petrobras em www.premmia.com.br.

p.s.: “Bill Raio Beta” é “O” quadrinho desta temporada, lançado pela Panini numa edição de luxo, com foco na luta do ET que herdou o martelo de Thor, nos anos 1980, para encontrar uma arma similar a seu Rompe-Tormentas. Daniel Warren Johnson assina roteiro e desenhos.

p.s.2: Nesta madrugada, às 4h30, “Giovanni Improta” (2013), de José Wilker, vai fazer a TV Globo sorrir de um modo “felomenal”.

p.s.3: ÀS 14h deste sábado, a Globo exibe “Velocidade Máxima” (“Speed”, 1994), com Keanu Reeves dublado por Reynaldo Buzzoni. É um marco do cinema de ação, cuja bilheteria beirou US$ 350,4 milhões.

p.s.4: Assistido por mais de 300 mil pessoas em oito anos, o projeto Beatles para Crianças chega novamente ao Rio de Janeiro depois de passar por Salvador, São Paulo e Belo Horizonte. O novo espetáculo do grupo, “A Misteriosa Viagem Mágica”, faz duas apresentações, dias 21 e 22 de maio, no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, com sessões no sábado, às 17h, e no domingo, às 16h. Com texto e direção de Fabio Freire e Gabriel Manetti, o show já começa na entrada da sala, onde público receberá um passaporte que garante sua participação numa viagem intergaláctica, com paradas nos planetas Vermelho, Azul e Maluco, em buracos negros que precisam ser iluminados com as lanternas dos tripulantes e até nas proximidades de onde mora o terrível Comedor de Sons. Este é o terceiro espetáculo do projeto, após o sucesso dos anteriores “Meu Primeiro Show de Rock” e “A Bagunça Continua!”. “Este terceiro espetáculo é um pouco mais teatral. Convida o público para uma viagem interplanetária, cheia de aventuras e com muita interação entre músicos e plateia”, conta Fabio Freire.

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