Especulações sobre o Urso de Ouro 2022

Especulações sobre o Urso de Ouro 2022

Rodrigo Fonseca

16 de fevereiro de 2022 | 00h23

Mariette Rissenbeek, atual diretora da Berlinale, e Carlo Chatrian, seu curador, ficam nos extremos do tapete vemelho que recebeu a equipe de “Avec Amour et Acharnement”: a diretora Claire Denis, a atriz Juliette Binoche e o ator Vincent Lindon

Rodrigo Fonseca
Tumultuado pela imposição diária de testes de antígeno, pulseirinhas coloridas pra comprovar resultados negativos na triagem da covid-19 e burocracias kafkianas diversas, o 72º Festival de Berlim passou pela prova de fogo de realizar, presencialmente, sua prospecção anual de novas vertentes para o audiovisual, mesmo com o avanço da ômicron, revelando novos talentos e expondo que mestres d’outrora estão longe do cansaço. Dois dos mais arrebatadores filmes da competição pelo Urso de Ouro de 2002 – que anuncia amanhã, a partir das 19h da Alemanha, 15h do Brasil, seus vencedores – foram dirigidos por cabeças grisalhas. Uma delas, a de Claire Denis, com 75 anos, esbanja frescor na maneira visceral de esgrimar com os planos, dando um tom nervoso à saga de uma paixão alquebrada por fantasmas retratada em “Avec Amour et Acharnement”. Foi um longa pensado, escrito e rodado em 2020, como resposta à pandemia, em reação ao isolamento dos lockdowns em Paris. Juliette Binoche é uma radialista que fala com o mundo, buscando entender sobretudo as dificuldades enfrentadas por imigrantes. Seu coração bate por um empresário (Vincent Lindon, o Antonio Fagundes francês), até que um querer de outros tempos, um ex vivido por Grégoire Colin regressa. Esse retorno abre um precedente para que Claire aborde um dos temas centrais desta Berlinale, o amor, sob uma tempestade doméstica que se chama quebra de confiança. A outra cabeça esbranquiçada pelo Tempo é a de Paolo Taviani, que, aos 90 anos, regressa à capital alemã, uma década após ter vencido no evento germânico com “César Deve Morrer” (Urso dourado de 2012), para chorar a morte do irmão mais velho e parceiro eterno: Vittorio. Seu inusitado “Leonora Addio” tem a premissa mais original de todo o festival: um funcionário público precisa transportar as cinzas de Lugi Pirandello (1867-1936) de Roma pra Sicília, no Pós-Guerra, pra dissociar seus restos mortais (já cremados) de qualquer conexão com o fascismo, uma vez que sua tumba anterior era uma concessão de Mussolini. É um filme testamento, mas de uma criatividade ímpar.

“The Novelist’s Film”, da Coreia do Sul

Não se pode esperar algo de “criativo” de Hong Sangsoo, que retornou à Berlinale depois de um par de vitórias recentes no festival (ganhou o prêmio de direção, em 2020, por “A Mulher Que Fugiu”, recém-lançado no Brasil; e conquistou a láurea de melhor roteiro com “Encontro”, no ano passado). Mas sempre é possível tirar algo de transcendente dele, que concorre desta vez com “The Novelist’s Film”, falando de uma migração de pessoas que vão do centro de Seoul pra periferia. O sul-coreano é hoje um dos mais prolíficos diretores do mundo – e um dos mais reverenciados. A mudança de localidade e estrutura social é um ponto interessante prum evento que sempre teve uma mirada geopolítica. Mas, este ano, desde a abertura, com o caudaloso “Peter von Kant”, de François Ozon, percebe-se que o foco, desta vez, é mais o desejo, o querer e afetos afins do que questões cartográficas. Ozon nos deu um presente com a interpretação convulsiva de Denis Ménochet no papel de um cineasta apaixonado por um rapaz que o esnoba. É uma homenagem ao diretor e dramaturgo Rainer Werner Fassbinder (1945-1982). É a melhor atuação deste festival ao lado do belíssimo desempenho de Noémie Merlant em “Un Año, Una Noche”, no qual vive a sobrevivente negacionista de um atentado terrorista. O desempenho dela é de doer na alma.

Charlotte Gainsbourg em “Les Passagers De La Nuit”

Igualmente belo é a interpretação da cantora e atriz Charlotte Gainsbourg como a recém-contratada funcionária de uma rádio no painel da França dos anos 1980 construído com plena elegância por Mikhaël Hers em “Les Passagers de la Nuit”. Ainda falando de atuações de peso, Sigourney Weaver é “a” coadjuvante deste festival no papel de uma ativista em prol de lutas feministas em “Call Jane”, da diretora teatral e cineasta estreante Phyllis Nagy. Ela arrebata a plateia recriando um caso real, dos EUA de 1968, sobre uma célula de sororidade que apoiava gestantes necessitadas de aborto. Elizabeth Banks é a protagonista, que descobre a força desse grupo quando, no meio de sua gravidez, descobre que a gestação pode ser letal, uma vez que tem problemas cardíacos.

Os Alpes Suíços são desconsturídos em “A Piece of Sky” (“Drii Winter”)

Das surpresas de uma programação que festejou o melodrama e a solidariedade, duas das 18 produções indicadas ao Urso de Ouro merece destaque; “Drii Winter”, mais conhecido como “A Piece of Sky”. É uma devastadora trama vinda da Suíça, centrado o mundo rural daquele país, que espatifa a beleza dos Alpes ao narrar a rotina de um casal, interpretado por atores não profissionais. Anna é uma carteira e Marco, um fazendeiro. Eles se amam de um jeito que não lhes cabe no peito. Mas ele fica doente, de modo terminal, com um problema cerebral. Aí, o Paraíso nevado onde vivem é soterrado por uma avalanche. A surpresa dois vem da suarenta paisagem catalã, representado por “Alcarràs”, da espanhola Carla Simón. A diretora de “Verão 1993” (2017) reúne pessoas de diferentes cidadezinhas ibéricas, colhidas em festas locais, e as treina para atuar, de modo a transformá-las em intérpretes de peso. A partir do treinamento operacionalizado, Carla cria uma ficção, sobre uma família que vive do cultivo de pêssegos.

Não chega a ser uma surpresa o show de direção que o canadense Denis Côté dá no dionisíaco “Un Été Comme Ça”, mas é bonito ver sua evolução desde “Vic + Fló Viram Um Urso” (2013). Seu novo longa tem muito de “Persona” (1966) ao mostrar uma reunião de mulheres que comungam de inquietações diversas numa casa no lago.
Silêncios são a tônica do doído “Return to Dust” (“Yin Rin Chen Yan”), de Li Ruijun, diretor nascido em Zhangye, há 39 anos. É o trabalho de montagem mais delicado de todo o festival até agora, somado a uma fotografia igualmente pautada pelo lirismo, avessa a saturações. É um retrato de uma China rural, pintado a partir de um casamento arranjado entre um fazendeiro rústico e uma mulher com dificuldades de socialização. A partir do dia a dia deles, vemos uma transformação histórica daquele país. Mas o casório que surge como mera convenção vai, pouco a pouco, como o passar dos dias, dando lugar a um querer genuíno, que o cineasta consegue expressar de modo tocante a partir da covalência entre seu elenco central. É um fortíssimo candidato ao Prêmio de Contribuição Artística, por sua edição, assinada pelo próprio realizador, antes conhecido por “Fly With The Crane”, de 2012.
Que o diretor indiano M. Night Shyamalan, o presidente do júri, e seus colegas (entre eles, o cineasta cearense Karim Aïnouz) façam seu melhor na premiação.

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