Especulações sobre a Croisette: o que pode disputar a Palma de Ouro

Especulações sobre a Croisette: o que pode disputar a Palma de Ouro

Rodrigo Fonseca

25 de março de 2019 | 10h24

Taron Egerton encarna Elton John em “Rocketman”: aposta pra Cannes

Rodrigo Fonseca
Coroado com dois Oscars de melhor direção – um por “Birdman” (2014) e outro por “O regresso” (2015), o mexicano Alejandro González Iñárritu vai presidir o júri do Festival de Cannes, agora em sua 72ª edição. Este ano, a Croisette abre suas telas para o cinema autoral de 14 a 25 de maio, e há uma forte especulação de que a abertura terá um tom pop com “Rocketman”, a cinebiografia de Elton John, com Taron Egerton no papel do cantor. Tem um boato rondando os corredores da indústria do cinema francês acerca da volta de uma uma love story  mítica no abre do evento: estima-se que Claude Lelouch vá inaugurar Cannes com um projeto inédito, que recria sua obra-prima. Filme da vida de muitos cinéfilos desde 1966, quando conquistou a Palma de Ouro de Cannes e um par Oscars, “Um homem, uma mulher” tem uma continuação a caminho: “Les plus belles années d’une vie” vai marcar o reencontro de Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée uma vez mais sobre a direção do mestre Claude Lelouch, um dos realizadores de maior sucesso popular da França. Já octogenário, mantendo uma média de trabalho de um longa-metragem novo a cada dois anos, Lelouch está finalizando o drama com tintas românticas que narra o reencontro de Jean-Louis Duroc e Anne Gauthier, que viveram momentos idílicos em Deauville nos anos 1960.
Há quem aposte na presença do galã e cineasta Gilles Lellouche como jurado, à força do sucesso que seu “Um banho de vida” (já em cartaz no Brasil) fez por lá pelo balneário no ano passado. Diante de toda a boataria que hoje aquece a indústria cinematográfica acerca do evento, compilamos aqui uma lista de potenciais candidatos aos prêmios do balneário francês. Mais do que um informativo de Cannes, esta é uma lista para o deleite de cinéfilos nos próximos meses. Confira:

 “Once upon a time in Hollywood”: Com um elenco de matar estúdios rivais de inveja, filmando com Al Pacino, Margot Robbie, Bruce Dern, Brad Pitt e Leonardo DiCaprio, Quentin Tarantino dá uma pausa nos faroestes, após “Os oito odiados” (2015) e “Django livre” (2012), para recriar o cinema americano no fim dos anos 1960, a partir do assassinato da modelo e atriz Sharon Tate. DiCaprio é um aspirante a astro que só faz sucesso na Europa. Pitt é seu dublê;

“Bacurau”: Três anos após “Aquarius”, Kleber Mendonça Filho divide com Juliano Dornelles a direção de seu novo longa, um misto de drama, mistério e sci-fi, ligado à incursão de um projeto documental gringo no interior de um Brasil onde seus habitantes não são tão cordiais quanto Sergio Buarque de Holanda acreditava. Tem Sonia Braga e Udo Kier no elenco;

“Radioatividade”: 
A quadrinista e animadora Marjane Satrapi (“Persépolis”) recria a história de amor entre os cientistas Marie e Pierre Curie (com Rosamund Pike e Sam Rilley) para fazer uma reflexão sobre os abusos do progresso tecnológico;

“Little Women”: Dois anos depois do sucesso “Lady Bird”, a atriz Greta Gerwig volta à direção de longas adaptando o clássico homônimo da literatura americana sobre a rotina de quatro irmãs (vividas por Florence Pugh, Saoirse Ronan, Emma Watson e Laura Dern) em meio à Guerra Civil dos EUA;

“The dead don’t die”: Jim Jarmusch aposta no filão “filme de zumbi” levando sua estética indie e existencialista para um levante de mortos-vivos, tendo Bill Murray, Adam Driver e Tilda Swinton às voltas com seres do Além;

“El cuento de las comadrejas”: Dez anos depois do sucesso de “O segredo dos seus olhos”, o diretor argentino Juan José Campanella quer tentar a sorte em Cannes com a história de uma veterana atriz (Graciela Borges), há tempos sumida das telas, decide vender um casarão onde vive com seu marido, seu médico particular e seu contador. A venda gera nesses homens, que dependem dela para viver, uma insegurança que será convertida em planos estapafúrdios para matar a veterana estrela;

“Ad astra”: Estima-se que o único filme com mais chances de abrir Cannes do que a biopic de Elton John é este épico espacial de James Gray, no qual Brad Pitt se embrenha entre as estrelas para salvar uma tripulação em perigo. O produtor brasileiro Rodrigo Teixeira (de “Alemão” e “Tim Maia”) está no projeto. Mas não se sabe se a pós-produção de seus efeitos especiais vai estar pronto a tempo;

Antonio Banderas estrela o novo longa de Almodóvar: “Dolor y Gloria”

“A vida invisível”: Sob a direção de Karim Aïnouz (de “O céu de Suely”), Fernanda Montenegro pode surpreender plateias europeias numa trama sobre uma mulher criada para viver sob o véu da invisibilidade. Hélène Louvart (de “Lazzaro felice”) assina a fotografia;

“Dolor y glória”: Pedro Almodóvar já disse várias vezes que cada filme é seu é um pedaço de sua biografia. Em seu novo trabalho, que estreia em março na Espanha, ele parece ter ido mais fundo em si mesmo, ao narrar a saga de um cineasta (Antonio Banderas) que revê seu passado na relação com a mãe (Penélope Cruz);

“Dominó”: 
Depois de muitos conflitos de produção com investidores que lhe deram calote, o artesão do suspense Brian De Palma (“Vestida para matar”) enfim concluiu seu novo thriller, ambientado em solo escandinavo. Nikolaj Coster-Waldau (de “Game of Thrones”) vive um policial empenhado em se vingar do assassino de seu parceiro. É o primeiro filme que De Palma faz desde “Paixão” (2012);

“Ahmed”: Jean-Pierre e Luc Dardenne, cineastas belgas, irmãos, ganhadores de duas Palmas de Ouro (por “Rosetta” e “A criança”), voltam às telas com a história de um jovem europeu que tem uma leitura equivocada do “Alcorão” e resolver assassinar seu professor;

“As filhas do fogo”: Às voltas com o calvário de saúde de seu ator fetiche (e amigo) Ventura, o português Pedro Costa, consagrado por longas como “Juventude em marcha” (2006), finaliza, a duras penas, este drama sobre dona Vitalina Varela, uma imigrante radicada na periferia de Lisboa que luta para preservar os sonhos que trouxe da África;

“Bergman Island”: Queridinha da crítica (com razão, dada sua acurada habilidade de registrar dilemas existenciais), Mia Hansen-Love, atriz e cineasta francesa, narra as aventuras emotivas de um casal em crise em meio à descoberta da obra cinematográfica do diretor de “Persona”;

“Convoi exceptionnel”: Após um hiato de quase dez anos de ausência das telas, Bertrand Blier, um campeão de bilheteria do cinema francês das décadas de 1970 e 80, aclamado no Brasil por “Meu marido de batom” (1986), regressa às telas em uma comédia sobre um homem que descobre ser tema de um roteiro de filme: ou seja, o sujeito percebe que a vida não passa de uma cruel ficção. Gérard Depardieu está no elenco;

“Radegund”: 
Ganhador da Palma de Ouro com o transcendentalismo de “A árvore da vida” (2011), o americano Terrence Malick pede licença a Deus para dar um tempo em seus dramas de tom transcendental a fim de regressar à Segunda Guerra Mundial (ambiente de seu genial “Além da linha vermelha”) e rodar a saga de um herói austríaco que combateu nazistas. August Diehl (de “O jovem Karl Marx”) assume o papel central;

 “To the Ends of the Earth”: Conhecido aqui por thrillers como “Creepy” (2016), o prolífico diretor japonês Kyioshi Kurosawa, mestre asiático do terror, investe de novo drama para rodar o conflito existencial de uma mulher que faz vídeos de viagem. Em uma jornada ao Uzbequistão, suas certezas sobre si são postas à prova;

“The lighthouse”, de Robert Eggers: O diretor de “A bruxa” (2015) pilota Robert Pattinson e Willem Dafoe neste terror sobre os mistérios de um farol.

p.s.: No dia 27, às 20h, o primoroso .doc “O processo”, de Maria Augusta Ramos, uma das sensações do Festival de Berlim de 2018, será exibido no Canal Brasil, abrindo a deixa para uma reflexão sobre o julgamento que levou ao impeachment de Dilma Rousseff. O novo longa da diretora de “Justiça” é construído a partir de quase 400 horas de material filmado dos trâmites legais que conduziram Dilma para fora do Planalto. A edição do projeto, assinada por Karen Ackerman, é um marco da montagem no cinema nacional.

p.s.2: “Georgetown” é uma das atrações do Festival de Tribeca, que vai de 24 de abril a 5 de maio, em Nova York. O oscarizado ator austríaco Christoph Waltz (o nazista poliglota de “Bastardos inglórios”) estreia na direção filmando a saga de um alpinista social (vivido por ele mesmo) que se casa com uma ricaça (Annette Bening) a fim de se dar bem na vida e fazer carreira política.