Espanha à espera de Hong Sangsoo

Espanha à espera de Hong Sangsoo

Rodrigo Fonseca

21 de setembro de 2020 | 10h05

RODRIGO FONSECA
Compactuado com Cannes, que desova no norte da Espanha o cardápio que a Covid-19 escondeu, e de dengos com o Festival de Veneza, de onde importou o Leão de Ouro (“Nomadland”),San Sebastián não fez vista grossa para a Berlinale lendária que houve em fevereiro, buscando a seleção alemã o ganhador do Urso de Melhor Direção. O prêmido ficou com o artesão sul-coreano Hong Sangsoo pelo breve (77 minutos) mas contagioso “The Woman Who Ran”. Esse filmaço já foi adquirido no Brasil, pela Pandora. A sessão dele aqui é só na quinta, mas dispara entre as mais procuradas pelo público, que, sob rígidos protocolos de segurança, fica de máscara, distanciado, nas salas exibidoras.
“Falar é ação, é a expressão de várias angústias, é um terreno a ser sentido”, disse Sangsoo ao P de Pop em Berlim.

Responsável por joias como “Você e os Seus” (2016) e “A Visitante Francesa” (2012), ele recebeu seu troféu das mãos do pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de “Bacurau”, que integrava o time de jurados presidido pelo ator inglês Jeremy Irons. Kleber usou o adjetivo “o grande” para se definir ao realizador, cuja carreira começou em 1996, com “O Dia Em Que o Porco Caiu no Poço”. O Urso prateado de Melhor Direção, em geral, vai para aqueles que estão fazendo a roda da estética audiovisual girar por rotas inusitadas.

“Tenho dificuldade com substantivos como ‘sentimento’, como ‘silêncio’. As palavras podem ter sentidos relativos. Generalizações de sentido, de significados, não me servem. O cinema que eu faço não obedece nenhuma lógica teórica prévia que engesse o meu senso de descoberta. A questão que me interessa é observar a vida e valorizar aquilo que o momento possa me trazer”, disse Sangsoo ao Estadão. “Se você me pergunta sobre ‘amizade’, que é uma questão em ‘The Woman Who Ran’, eu posso até te dizer o que eu entendo dessa palavra, mas o que eu disser só serve para a minha experiência individual. Não é cinema. Cinema é aquilo que eu encontro quando ligo a câmera e deixo as coisas acontecerem. É uma vivência”.

Cozido num banho-maria que contagia, “The Woman Who Ran” (” Domangchin yeoja”, no original), é um estudo sobre companheirsmo. Parceira de vida e de obra do diretor, a premiada atriz Kim Ninhee vive Gamhee, mulher de um tradutor que, em um dia sem a companhia do marido, vai visitar amigas. Comendo, bebendo, rindo e trocando confidências (numa cena, uma mulher lhe pergunta ‘Você ama seu marido?’ e ela dá um riso azedo e um tempo de silêncio como resposta), Gamhee disseca a lógica mais redentora da desatenção, encarando uma solidão existencial.

“A aventura aqui é acompanhar as trocas mais simples”, disse Sangsoo, cuja presença física em San Sebastián é esperadíssima.

Concorrida, a maratona cinéfila espanhola vai até 26 de setembro, quando o júri presidido pelo diretor italiano Luca Guadagnino (de “Me Chame Pelo Seu Nome”) anuncia os vencedores. Até agora, o favorito à Concha de Ouro de 2020 parece ser “Another Round” (“Druk”), do dinamarquês Thomas Vinterberg. Nele, o realizador retoma sua parceria com o astro de seu brilhante “A Caça” (2012) – Mads Mikkelsen – para falar de um professor de História que refaz sua vida ao entrar num experimento etílico e encher a cara todo dia. Nesta segunda, o arrastado drama japonês “Any Crybabies Around?”, de Takuma Sato, impressionou a crítica com o requinte de sua fotografia. Nele, Takuma narra a luta de um pai bem jovem – e muito irresponsável – para se refazer dos erros do passado.

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