Esnobado nos cinemas, thriller com Al Pacino vira blockbuster na pirataria

Esnobado nos cinemas, thriller com Al Pacino vira blockbuster na pirataria

Rodrigo Fonseca

20 de agosto de 2016 | 13h11

Pacino divide cenas com Anthony Hopkins e Josh Duhamel no thriller "Má Conduta"

Pacino divide cenas com Anthony Hopkins e Josh Duhamel no thriller “Má Conduta”: sem tela

RODRIGO FONSECA

Por onde quer que se caminhe, neste dias, pelas ruas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e demais estados, onde haja alguma concentração de camelôs, haverá em alguma banquinha de DVDs piratas uma pilha de um filme estrelados por dois titãs do cinema: Al Pacino e Anthony Hopkins. Os dois rivalizam em Má Conduta (Misconduct), um thriller de US$ 11 milhões, dirigido pelo estreante Shintaro Shimosawa, que acabou escoado diretamente para o mercado doméstico nos EUA após ter fracassado de modo vergonhoso nas bilheterias no circuito inglês, onde abriu sua carreira. Por aqui, o filme não sentiu sequer o cheiro de pipoca de nossas salas de exibição, embora tenha sido muito bem lançado em DVD, legalmente, podendo ser alugado nas poucas locadoras que ficaram de pé e até comprado em sites de venda pela web. Mas, pelo boca a boca nas ruas, e pelos gritos dos ambulantes, ele reina soberano nos mercados ilícitos do audiovisual: atualmente, é o top dos piratas. “Tá vendendo que nem água”, disse um vendedor de Bonsucesso, na Zona Norte carioca, com um punhado de cópias do longa-metragem na mão. E no circuito do download “alternativo”, esse elétrico suspense também está disparado na preferência de quem “baixa” cinema para ver no PC ou no Mac. Para quem achava que os fenômenos piratas tinham acabado com o Capitão Nascimento em Tropa de Elite (2007), o “êxito” do longa com Pacino e Hopkins entre os “bucaneiros” de periferias e grandes centros urbanos prova que essa indústria clandestina tem poder de regeneração.

A capa da versão legal do filme

A capa da versão legal do filme

Em Má Conduta, Josh Duhamel é o protagonista: um jovem advogado imerso numa disputa judicial entre um executivo corrupto da indústria farmacêutica (Hopkins) e o um veterano jurista de seu escritório (Pacino). Sexo, morte e correrias movimentam esta produção que cresce sempre que o eterno Michael Corleone e o cada vez mais acomodado Hannibal Lecter estão em foco.

Misconduct Má Conduta Al Pacino
Não chegaria a ser surpresa o fato de um filme com Hopkins cabular o circuito, uma vez que o ator galês coleciona bombas. Mas há que se refletir o que vem acontecendo com Alfredo James Pacino, celebrizado nos anos 1970 como um marco vivo da arte de atuar e, hoje, ignorado pela indústria hollywoodiana e pela seara indie. Embora venha fazendo trabalhos seminais na televisão, sobretudo na HBO, desde Angels in America (2004), e permaneça em destaque na Broadway, por onde passou recentemente com China Doll, de David Mamet, Pacino não desfruta mais – nem de longe – da visibilidade cinematográfica à altura de seu talento e de seu prestígio passado. Mesmo seu último trabalho como realizador, Wilde Salome, de 2012, segue 0km em nossas telas.

De Niro e Michelle Pfeiffer em "Wizard of Lies", da HBO

De Niro e Michelle Pfeiffer em “Wizard of Lies” (HBO), dirigido por Barry Levinson

Dos gigantes americanos dos anos 1970, o único nome que se manteve em franca evolução popular, em permanente namoro com as plateias, foi uma mulher: Meryl Streep, soberba em Florence: Quem É Essa Mulher?, de Stephen Frears, que já vem sendo associado à palavrinha Oscar. Os demais, tipo Dustin Hoffman e Jon Voight, tiveram seu espaço sob os holofotes encolhido. Bom… Tem o De Niro. Ele ganhou até uma homenagem no Festival de Cannes deste ano por Hands of Stone. Mas vamos combinar que o Robert De Niro de comédias caça-níqueis como Tirando o Atraso ou de pipoquinhas como Um Senhor Estagiário não é o mesmo De Niro de Taxi Driver, de Os Bons Companheiros ou pepitas afins. Reside uma esperança de vê-lo brilhar na telinha, já que ele vai estrelar o telefilme The Wizard of Lies para a HBO, sob a direção de Barry Levinson, recriando o escândalo Bernie Madoff. E ele tem para 2017 um longa de fôlego, The Comedian, com direção do ótimo Taylor Hackford (de O Advogado do Diabo), com base em um roteiro que inicialmente seria filmado por Sean Penn. Vamos ver o que fica desta lenda.

"A Comunidade", filmaço de Vinterbeg

“A Comunidade”, filmaço de Vinterbeg

p.s.: Se liga: A partir da semana que vem, São Paulo vira um reduto audiovisual da Escandinávia no Brasil, com uma mostra de 12 longas-metragens inéditos feitos na região e seus arredores, em frentes na Suécia, Dinamarca, Islândia, Finlândia , Noruega e até a Groenlândia. O evento foi batizado de Festival Ponte Nórdica e acontece de 25 de agosto a 7 de setembro na Caixa Belas Artes e também na Caixa Cultural SP, tendo entre suas atrações imperdíveis a comédia dramática A Comunidade, de Thomas Vinterberg, que ganhou o prêmio de melhor atriz (dado a Trine Dyrholm) no Festival de Berlim, em fevereiro. O filmaço de Vinterbeg estreia aqui em 1º de setembro.

 

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