Eryk Rocha voa em múltiplas latitudes

Eryk Rocha voa em múltiplas latitudes

Rodrigo Fonseca

27 de agosto de 2020 | 15h24

Único brasileiro a ter conquistado o troféu L’Oeil d’Or em Cannes, Eryk Rocha (re)afirma seu prestígio na ficção com “Breve Miagem de Sol”, que entra neste domingo na grade do Globoplay

Rodrigo Fonseca
Centrado na luta de um taxista para se reinventar num Rio de Janeiro em dias de uberização, “Breve Miragem de Sol” saiu do BFI London Film Festival, em outubro, com o cacife de reflexão social e de potência narrativa em alta, ampliando para a ficção o prestígio do qual seu diretor, Eryk Rocha, já desfrutava na seara documental. É dele o único L’Oeil d’Or – o troféu dado por Cannes a documentários que se candidatam à eternidade, no olhar da cinefilia – do Brasil, conquistado em 2016 pelo monumental “Cinema Novo”, um poema de edição de imagens, capaz de reinventar os clássicos que revisita. “Transeunte” (2010) já havia comprovado seu fôlego também como ficcionista. Mas, agora, seu trânsito para além do real é ainda mais fino. Seu novo longa chega neste domingo a um circuito adaptado às adversidades da pandemia, chancelado pela consagração em Londres e laureado com o troféu Redentor do Festival do Rio, em dezembro, nas categorias de melhor montagem (pra Renato Vallone), fotografia (Miguel Vassy) e ator, dado a Fabrício Boliveira. No dia 30, a produção vai pra grade do Globoplay e também terá sessões em todos os drive-ins Go Dream do país (no domingo, 30).

Em paralelo, até esta sexta, dia 28 de agosto, cinco filmes de Eryk estão disponíveis gratuitamente no site do Itau Cultural, na Mostra Online Eryk Rocha. Constam dela o já citado “Cinema Novo” (2016); “Transeunte” (2010); “La Rueda” (2012); “Igor” (2013); e “Campo de Jogo” (2015). Seu mais recente trabalho é o curta-metragem “Marcha à Ré”, que acompanhou a performance urbana em homenagem às vítimas do vírus COVID-19, idealizada pelo Teatro da Vertigem, em colaboração com o artista Nuno Ramos. Nele, em forma de cortejo, cerca de 150 veículos se deslocaram em sentido inverso ao longo da icônica Avenida Paulista, em direção ao cemitério da Consolação. Esse trabalho representará o Brasil na 11ª Bienal de Berlim que acontecerá de 5 de setembro a 11 de novembro, na capital alemã.
Na entrevista a seguir, Eryk avalia as atuais desestabilizações do Brasil e a resiliência de nosso cinema.

Em 2022, Rocha Que Voa completa vinte anos. São 20 anos de andanças nos longas. Quais são as revelações que o Cinema te fez nessas quase duas décadas, sobre a própria linguagem e sobre o mundo?
Eryk Rocha:
“Rocha que voa” é fruto do encontro de amizade com Miguel Vassy, diretor de fotografia, e Bruno Vasconcelos, que fez o som e escreveu o filme comigo. Tudo começou ali. Enquanto estudávamos cinema na EICTV pensamos esse filme como um diálogo afetivo, estético e político com Glauber e o cinema cubano e a cena audiovisual latino-americana. Fomos então pesquisar como foram feitos esses filmes que amamos. Foi uma pesquisa tanto no campo do artesanato, como no plano da linguagem. Uma busca por nossas heranças latino-americanas. Uma das coisas mais bonitas do cinema são os encontros. São certos encontros fortes que movem e fazem os filmes existirem. Realizar “Rocha que voa” em Cuba e morar três anos na Ilha foi decisivo e transformador no sentido de quem eu sou e de todos os filmes que vieram a partir dessa experiência. A cada filme, sempre tento voltar as raízes fortes de “Rocha que voa”, e de reativar certo risco e invenção de fazer o cinema que acredito. Isso está no cerne de tudo. “Rocha que voa” me ensinou que o cinema é, ao mesmo tempo, um trabalho, uma expressão e um rito, e, a cada filme, o rito e o risco precisam ser reativados.

Qual é o lugar do premiado “Breve Miragem de Sol” nessa sua andança anfíbia, entre fato e fábula?
Eryk Rocha:
“Breve miragem de sol” tem múltiplas camadas, entre elas, o filme fala da violência estrutural e da precarização do trabalho. Nosso protagonista, Paulo, é um trabalhador brasileiro, e sua vida reflete a vida de grande parte das pessoas que estão imersas e sufocadas por certos problemas cotidianos e históricos, onde a vida e as relações são mediadas pelo dinheiro, o “deus dinheiro”. Estamos vivenciando a uberização do mundo. Hoje, no Brasil, existem mais de 45 milhões de trabalhadores informais, sem nenhuma proteção social. É a captura da energia e da força vital do trabalhador. A política econômica ultra-neoliberal de Bolsonaro e Guedes é uma tragédia e tem como objetivo desmantelar o Estado, ou melhor, subordinar o Estado ao capital financeiro das famílias mais ricas do país. É importante lembrar que o Brasil é um dos países com maior desigualdade social do mundo. Esse fenômeno da uberização é fruto do desemprego e do desespero de quem precisa levar arroz e feijão para casa diariamente. “Miragem…” expressa a complexa e convulsionada realidade brasileira atual por meio de um homem que é um narrador de nosso tempo, em movimento, imerso no caldeirão de uma metrópole latino-americana e de um país em transe. O desejo era incorporar na linguagem do filme aquela fisicalidade da personagem, a respiração, a tensão e a pulsação daquele corpo, para jogar o espectador para dentro daquele táxi e fazê-lo ver e escutar o mundo com Paulo. Assim experimentamos esse fluir com suas viagens, choques, desvios, riscos e dificuldades. Mas esse corpo exausto que trabalha para sobreviver, que resiste e luta em um país em colapso como o nosso… esse corpo está vivo. Esse corpo ama, deseja, canta, dança, sonha … Esse corpo é a força da vida, do afeto e do fogo.

Quais são seus planos pra 2020/2021 e o que essa pandemia pode representar de registro e de poesia pra sua construção como observador do mundo?
Eryk Rocha:
O Brasil está vivendo três tragédias simultâneas: a política, a econômica e a pandêmica. No campo das políticas públicas da cultura e do audiovisual, estamos vivendo um desmonte perverso e generalizado, com milhões de trabalhadores da cultura em estado crítico, e até de calamidade. Exemplos não faltam: a Cinemateca Brasileira, Ancine e o FSA paralisados e sendo destruídos. Isso interrompe um ciclo que vinha fértil e produtivo do cinema brasileiro, mesmo com todos os problemas e contradições. Deixaram-nos sem memória, sem passado e sem futuro. O que nos resta é viver radicalmente o presente. Então, o que vamos fazer? Sobre a pandemia, essa situação colocou-me em contato interno direto com a morte, fez reativar de forma muito forte essa ideia do trágico, essa tensão constante entre vida e morte. Na verdade, creio que esse sentimento sempre esteve presente em parte expressiva da população, que vive essa pulsão de morte de forma cotidiana, uma naturalização da violência. Aqui no nosso país, a pandemia atualizou e naturalizou a barbárie social e histórica que vivemos. Evidentemente que essa pandemia também afeta diretamente o campo da criação e dos projetos, pois o cinema é um desdobramento da vida e de nossas relações com o mundo. Então como recolocar nosso corpo no espaço público e sentir o mundo? Certos estados de espírito como o medo, a desconfiança, a solidão, o sonho, os afetos… tudo isso se recoloca de uma nova forma. O cinema luta contra o efêmero e contra a morte, e deseja produzir memória. Os filmes são os testemunhos vivos de nossa passagem pelo mundo.

Em fevereiro, a Berlinale rendeu-se ao filme da sua mãe, Paula Gaitán, o longa “Luz nos Trópicos”, no qual você atua como produtor. Qual é a importância dessa tua experiência de produtor?
Eryk Rocha:
Tive a grande felicidade de ajudar a produzir o “Luz nos Trópicos”, esse filme tão raro e contundente dirigido por uma das minhas mestras, que, por sorte, é a minha mãe, a Paula Gaitán. O nascimento do filme em Berlim foi incrível, pois, mesmo sendo uma produção de mais de quatro horas de duração, ela manteve o público. Boa parte da plateia permaneceu na sala vivenciando essa experiência cósmica do filme. O meu trabalho de produtor, seja com os meus filmes ou os filmes da Paula, sempre foi algo natural. Tive que aprender na marra a produzir, pois, caso contrário, não conseguiria viabilizar os projetos que desejava. Na verdade, penso que o trabalho de direção e produção estão profundamente amalgamados, pois a produção é uma política, é uma linguagem. Da mesma forma, tenho uma relação íntima e física com a fotografia, o som, a montagem… Isso vem muito também do cinema documental de onde eu venho. A natureza do cinema que fazemos é muito artesanal, e sempre me coloca em contato visceral com todo o processo de criação em sua inteireza. Penso que uma das virtudes do trabalho de direção é o de agenciar potencialidades, e entender que cada filme precisa achar o seu paradigma de produção único e específico, para potencializar a imaginação, os desejos e a materialização da obra.

p.s.: Nesta quinta, às 18h, o produtor Rodrigo Teixeira (de “Me Chame Pelo Seu Nome”) conversa com o maior autor de HQs do Brasil, o quadrinista e romancista Lourenço Mutarelli (de “O Cheiro do Ralo”), às 18h, no @RTFeatures. É a reunião de duas cabeças que pensam a arte fora das caixas da obviedade, numa conexão de saberes e vivências singular. Mutarelli mudou a História dos gibis no país com “Transubstanciação”, “A Soma de Tudo” e outros cults.

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