Era uma vez um bom bangue-bangue

Era uma vez um bom bangue-bangue

Rodrigo Fonseca

18 de fevereiro de 2020 | 15h28

Rodrigo Fonseca
Reforçado por atrações saborosas de nichos distintos, como O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (1985) e Um Sonho de Liberdade (1994), a HBO Go, um dos streamings de melhor repertório da atualidade, acaba de acolher Os Oito Odiados (2015), de carona do recente sucesso de seu realizador, Quentin Tarantino, com Era Uma Vez Em Hollywood (2019). A sobrevida dessa joia coincide com um novo gás para o filão do faroeste, redivivo agora com uma série de filmes do 70. Festival de Berlim, que abre as portas nesta quinta, a começar por First Cow, de Kelly Reichardt. Esse é um dos 18 títulos em concurso pelo Urso de Ouro no evento, que sempre teve QT como um parâmetro de excelência, pelo menos desde 1998, quando Jackie Brown concorreu lá. E, western é um dos flancos mais bem guarnecidos do diretor.

Nos tempos cinematográficos em que o faroeste era a Ilíada do mundo, ou seja, a narrativa constitutiva dos valores modernos, com sua noção de Bem e de Mal expressa no conceito de mocinhos vs. bandidos, Hollywood criou um cógito (quase cartesiano) segundo o qual o western é igual a imensidão espacial, bangue-bangue é igual a terras inóspitas imensas a serem desbravadas. Assim profetizaram os Homeros do filão: John Ford e Howard Hawks. Contudo, a partir de 1950, quando cicatrizes da Segunda Guerra arranharam a representação clássica do escapismo heróico e o politicamente correto engatinhou seus primeiros passeios pelas telas, realizadores como Anthony Mann (em Winchester 73 e em E o Sangue Semeou a Terra) subverteram esse cartesianismo ao criar o chamado western psicológico onde as pradarias mais perigosas eram aquelas esculpidas na mente dos próprios caubóis, duelo após duelo. Dali pra diante, virou moda uma modalidade mais huis clos do faroeste, de ambientação fechada, que deu mais valor às inquietações existenciais de seus protagonistas, tridimensionalizando seus sentimentos, humanizando-os, o que foi fundamental tanto para o spaghetti de italianos como Sergio Leone (O Bom, O Mau e O Feio), quanto para o cinemanovismo de americanos como Arthur Penn (Pequeno Grande Homem). E é a essa corrente de Reforma… na forma… no ethos… na ética… que Os Oito Odiados (The Hateful Eight), um dos mais ousados filmes de Quentin Jerome Tarantino, está filiado.

Laureada com o Oscar de melhor trilha sonora original para Ennio Morricone, esta produção de US$ 44 milhões – cuja bilheteria global beirou US$ 155 milhões – goza de uma exuberância visual como poucas vezes se enxergou no dito far-west, por conta da captação em película Kodak 65mm a fim de viabilizar uma projeção em 70mm. Captada assim a qualidade da imagem valoriza mais e melhor a dimensão agigantada da tela. E a fotografia de Robert Richardson (de O Aviador) se lambuza na progressão aritmética de possibilidades à sua frente para imprimir beleza (e gerar epicização) ao fitar o mundo nevado à sua volta, em locações míticas no Colorado. Mas a exuberância não se limita ao mundo aberto, à neve. Ela é ainda maior nos planos em que a ação se concentra numa taberna fedida a guisado, colorida em tons de sépia, marrom-madeira e vinho. É ali que Os Oito Odiados explode como a obra-prima que seus reclames prometiam – mais uma obra-prima do homem que nos deu Bastardos Inglórios. Uma obra-prima da palavra: palavra-chumbo. Quente.

O cenário é este: estamos no Wyoming. A câmera acha um lugar de (des)conforto para si após testemunhar uma longa peregrinação por uma nevasca, na qual se percebe um certo ar de protagonismo no caçador de recompensas John “The Hangman” Ruth (Kurt Russell, em desempenho antológico). O mesmo ar se faz sentir em torno do ex-militar da Guerra Civil Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson). Ruth arrasta consigo a criminosa condenada à forca Daisy Domergue (uma endiabrada Jennifer Jason Leigh). E a eles se junta o Xerife Mannix (Walton Goggins, vilão em Django Livre, que aqui mostra ser um ator de ilimitada ferrametas). Eles se arrastam frio adentro até chegarem a um saloon/pensão. Uma vez protegidos do frio eles encontram Bob “The Mexican” (Demian Bichir), Oswaldo “The Little Man” Mobray (Tim Roth), Joe “The Cow Puncher” Gage (Michael Madsen) e Sanford “The Confederate” Smithers (Bruce Den). Pronto! Eis os tais “oito” do título, todos juntos. Ali, o ódio de cada um há de ser uma arma carregada de sagacidade. Ou de fúria.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: