Era uma vez George Hilton

Era uma vez George Hilton

Rodrigo Fonseca

07 de agosto de 2019 | 11h45

Rodrigo Fonseca
Com uma projeção de gala em praça pública no Festival de Locarno (7 a 17 de agosto) agendada para sábado, “Era uma vez… em Hollywood”, magistral filme de regresso de Quentin Tarantino às telas, que já faturou US$ 81 milhões apenas nos EUA, celebra a memória de um dos filões mais pitorescos do western nas telas: o faroeste spaghetti. No longa-metragem, um cartaz referente ao astro de TV decadente Rick Dalton, vivido por Leonardo DiCaprio, tem sua programação visual decalcada de um bangue-bangue estrelado por um mito do Arizona europeu que tem DNA sul-americano: o uruguaio Jorge Hill Acosta y Lara, mais conhecido como George Hilton. Protagonista de cults de chumbo grosso como “Com Sartana, cada bala é uma cruz” (1970) e “Vou, mato e volto” (1967), ele morreu no dia 28 de julho, aos 85 anos. Mas sua história pessoal foi transformada em matéria de documentário, na forma do filme “George Hilton – Il mondo è degli audaci”. A produção mostra como Hilton deixou seu país com nada mais do que coragem. Coragem e desejo, ambos empenhados no esforço de ele se tornar um dos maiores astros das macarronadas da Itália, em uma carreira que durou cerca de 60 anos. Contudo, no auge de sua trajetória, o destino o golpeia duramente.

 

A direção do .doc é de Daniel Camargo, que nasceu em Niterói, no Rio de Janeiro, e se formou em cinema pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Interessado no cinema popular italiano, escreveu em co-autoria com Fábio Vellozo e Rodrigo Pereira, o saboroso livro “Anthony Steffen – A Saga do Brasileiro que se Tornou Astro do Bangue-Bangue À Italiana”. Com um texto ágil, arejado por uma arguta reflexão do passado, essa biografia aborda a trajetória do ator ítalo-brasileiro Anthony Steffen. Diretor da minissérie “Boca do Lixo: a Bollywood Brasileira”, Camargo faz aqui uma radiografia de seu biografado e faz um balanço do filão que Tarantino festeja em seu obrigatório “Once upon a time… in Hollywood”, que estreia por aqui no dia 15.

O diretor Daniel Camargo

Que marca Jorge Hill Acosta y Lara deixou na história do faroeste? O que há de particular na atuação dele?
Daniel Camargo:
A história de George Hilton vai muito além do faroeste espaguete, ou bangue-bangue à italiana, como este tipo de filme é conhecido no Brasil. Hilton, nascido Jorge Hill Acosta y Lara, foi o primeiro grande astro de cinema internacional uruguaio, em uma época em que popularidade não era medida por likes, por curtidas. Ele foi um dos grandes protagonistas do cinema popular italiano, trabalhando em diversos gêneros, mas principalmente o faroeste (só em 1967 foram lançados oito filmes com Hilton, sendo seis faroestes) e o giallo, que são suspenses com altas doses de violência e erotismo.

 Qual é o foco da tua investigação sobre o legado de Hilton?
Daniel Camargo:
Através da vida e carreira de Hilton, quis traçar um panorama do cinema popular italiano, em uma época em que pistoleiros e assassinos misteriosos duelavam com Fellini, Pasolini, Visconti e Antonioni pelas telas dos cinemas. Na época de Hilton, Roma foi novamente caput mundi, pela efervescência cultural da capital italiana em todos os campos – música, cinema, design… só para citar alguns. A produção cinematográfica chegava a mais de 300 títulos por ano e atores e atrizes de todo o mundo foram trabalhar na Itália, inclusive artistas da América Latina. É o caso das brasileiras Norma Benguell e Florinda Bolkan, do cubano Tomas Milian e do uruguaio George Hilton. Procurei dar voz às pessoas que, como Hilton, fizeram parte deste universo, para contar como foi este momento do cinema italiano, abordando seus aspectos econômicos e sociais. Este tipo de cinema ainda sofre preconceito e é considerado menor ou indigno de estudo ou aprofundamento. Gostem ou não destes filmes, eles foram um aspecto importante da história do cinema italiano. Influenciaram o cinema de vários outros países.

Que tipo de faroeste abriu espaço para um ator como Jorge? E que outros atores foram seus pares de geração e de spaghetti?
Daniel Camargo:
O cinema italiano sempre foi especialista em explorar um filão e exauri-lo até não poder mais. Foi o caso dos filmes de gladiadores, das cópias (ripoffs) de James Bond, suspenses com elementos similares aos de “O Pássaro das Plumas de Cristal”, de Dario Argento, dos filmes policias à lá “Operação França” e “Perseguidor Implacável”, com Dirty Harry, possessões demoníacas baseadas em “O Exorcista”, tubarões assassinos, canibais e tantos outros subgêneros baseados em qualquer filme que tenha feito grande sucesso. Quando Sergio Leone inaugurou o filão do faroeste espaguete, com seu precursor “Por um Punho de Dólares”, os produtores buscavam atores que se seguissem o estilo de Clint Eastwood. Contudo, cada ator trouxe elementos próprios para os filmes. Assim, quando o papel era do bom moço injustiçado, chamavam Giuliano Gemma; o vingador trágico era o ítalo-brasileiro Anthony Steffen; já Franco Nero era o caubói taciturno. George Hilton foi o primeiro a usar a ironia no Velho Oeste italiano (normalmente filmado nos desertos de Almeria, na Espanha), plantando a semente para Terence Hill e Bud Spencer na série Trinity, que trouxe uma sobrevida ao faroeste italiano na metade dos anos 1970.

 Como é que Jorge Hill Acosta y Lara vira Hilton?
Daniel Camargo:
Embora na Itália fosse comum os atores adotarem pseudônimos para que seus filmes pudessem ser vendidos como produções americanas, Jorge Hill alterou seu nome muito antes de chegar no velho continente. A importante família Hill Acosta y Lara de Montevidéu era contra seu primogênito trabalhar como ator. Como não havia muito que fazer no Uruguai, com pouco dinheiro e muita coragem, Jorge foi para Argentina, onde mudou seu nome de Hill para Hilton e sua carreira iniciou. Contudo, um problema com uma mulher o fez comprar uma passagem só de ida para a Itália. Como o italiano tem dificuldades para pronunciar o J de Jorge, o ator adotou o nome de George Hilton.

Quais são seus planos para o filme?
Daniel Camargo:
O filme começou a fazer o circuito dos festivais. Foi exibido no festival Agenda Brasil 2019, em Milão, e foi selecionado para o Festival de Salento, no sul da Itália, e o prestigioso festival de Sitges, na Espanha. O público italiano tem respondido bem. As pessoas se surpreendem ao saberem como funcionava aquele cinema considerado classe B e com o fato de vir um brasileiro contar esta história. Já fui sondado por agentes e distribuidores e agora é decidir pela melhor opção para tornar o filme, e a memória de George Hilton, o mais acessível possível.

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