‘Era o Hotel Cambridge’: um poema geopolítico

‘Era o Hotel Cambridge’: um poema geopolítico

Rodrigo Fonseca

14 Março 2017 | 09h46

José Dumont é Apolo, um agitador cultural em

José Dumont é Apolo, um agitador cultural em “Era o Hotel Cambridge”

RODRIGO FONSECA
É raro uma votação popular e uma votação de críticos coincidir nos resultados, como se deu no último Festival do Rio com o feérico Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, que promete ser “o” filme deste sábado na 20ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais. Galardoado com uma menção especial no Festival de San Sebastián, na Espanha, ele papou, na maratona carioca, o troféu Redentor de melhor montagem e os prêmios da votação do público e da votação da Fipresci, a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica. Sua discussão, na franjas da inclusão, faz dele uma explosiva proposição para conversas sobre a ocupação do espaço urbano nas metrópoles brasileiras povoadas de imigrantes estrangeiros.

Tema fundamental para redefinições (e inclusões) geopolíticas da contemporaneidade, a questão dos refugiados políticos assume uma São Paulo de mil desigualdades (e de múltiplos combates) como cenário ao longo dos 90 claustrofóbicos minutos de Era o Hotel Cambridge. Dirigido por uma Eliane Caffé (Kenoma) fiel à sua investigação autoral sobre figuras em deslocamento (em busca de um fixismo cômodo e protetor), o longa-metragem é o mais caudaloso (e rigoroso, na forma) filme da diretora paulista. Nele, imigrantes degredados do Congo, da Palestina, da Síria e da Colômbia se refugiam na hospedaria abandonada do título, em SP, ao lado de um grupo sem teto de distintos CEPs. Lá dentro, um agitador cultural com aptidões para o teatro, Apolo (José Dumont, de volta às telas com som e fúria, em uma atuação taquicárdica), ajuda uma dirigente de movimentos de ocupação (Carmen Silva) a dar um norte para aquela babel de muitas línguas, capaz de fundir não-atores a grandes intérpretes (como Suely Franco, que ilumina a tela a cada aparição).

Diverso de tudo o que a realizadora de Narradores de Javé (2003) e O Sol do Meio-Dia (2009) fez até agora, trocando ambientes de um Nordeste profundo pela metrópole nº 1 do país, Era o Hotel Cambridge parece mais um exercício investigativo do que um ensaio propositivo, eletrizado por uma linguagem (bem) equilibrada no arame farpado entre fato e ficção. Tem um quê de arquivo, tem um quê de chat via Skype, tem perfil de rede social e tem um relógio que corre disparado, cronometrando o período que os personagens têm antes de uma possível expropriação. Fica-se pouquinho com cada um no roteiro escrito pela cineasta e por Inês Figueiró, com o aporte do dramaturgo Luiz Alberto de Abreu. Cada momento um refugiado ou um sem-teto nativo ganha a ribalta para si, o que é suficiente. O protagonismo é muito mais da situação – estrangeiros em degredo e brasileiros em condição de pobreza plena – do que desta ou daquela pessoa ou família.

Cotação: Ótimo