‘Era o Hotel Cambridge’ na MUBI

‘Era o Hotel Cambridge’ na MUBI

Rodrigo Fonseca

03 de fevereiro de 2021 | 09h48

“Era o Hotel Cambridge” chega à streaminguesfera

RODRIGO FONSECA
Tem “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé, na MUBI (www.mubi.com): galardoado com uma menção especial no Festival de San Sebastián, na Espanha, em 2016, a produção agora integra o cardápio do streaming de curadoria humanizada. Tema fundamental para redefinições (e inclusões) geopolíticas da contemporaneidade, a questão dos refugiados políticos agora incendia a streaminguesfera, fazendo de uma São Paulo de mil desigualdades (e múltiplos combates) seu cenário ao longo dos 90 claustrofóbicos minutos. Seu currículo conta com o prêmio do Júri Popular e a Láurea da Crítica, votada pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), no Festival do Rio. Dirigido por uma Eliane Caffé (“Kenoma”) fiel à sua investigação autoral sobre figuras em deslocamento (em busca de um fixismo cômodo e protetor), o longa-metragem é o mais caudaloso (e rigoroso, na forma) filme da diretora paulista. Nele, imigrantes degredados do Congo, da Palestina, da Síria e da Colômbia se refugiam na hospedaria abandonada do título, em SP, ao lado de um grupo sem teto de distintos CEPs. Lá dentro, um agitador cultural com aptidões para o teatro, Apolo (José Dumont, com som e fúria, em uma atuação de gerar taquicardia), ajuda uma dirigente de movimentos de ocupação (Carmen Silva) a dar um norte para aquela babel de muitas línguas, capaz de fundir não-atores a grandes intérpretes (vide Dumont e Suely Franco, que ilumina a cena a cada aparição).

Diverso de tudo o que a realizadora de “Narradores de Javé” (2003) e “O Sol do Meio-Dia” (2009) fez até agora, trocando ambientes de um Nordeste profundo pela metrópole nº 1 do país, “Era o Hotel Cambridge” parece mais um exercício investigativo do que um ensaio propositivo, eletrizado por uma linguagem (bem) equilibrada no arame farpado entre fato e ficção. Tem um quê de arquivo, tem um quê de chat via Skype, tem perfil de rede social e tem um relógio que corre disparado, cronometrando o período que os personagens têm antes de uma possível expropriação. Fica-se pouquinho com cada um no roteiro escrito pela cineasta e por Inês Figueiró, com o aporte do dramaturgo Luiz Alberto de Abreu. Cada momento um refugiado ou um sem-teto nativo ganha a ribalta para si, o que é suficiente. O protagonismo é muito mais da situação – estrangeiros em degredo e brasileiros em condição de pobreza plena – do que desta ou daquela pessoa ou família. Claro que, com inteligência, Eliane nos deu Apolo (ou melhor Dumont) para ser um ponto de apoio, o “rosto amigo” entre anônimos.
Se o dispositivo é o da busca, e o ensejo é investigar, a montagem (feita por Marcio Hashimoto e laureada com o troféu Redentor na Première Brasil 2016) precisa de atenção redobrada para que as idas e vindas e para que todo o vasculhar daquela “aldeia de cimento” tenham um sentido estético – e, por que não?, um calor político. Nesse ponto, o filme avança cinematograficamente em relação à bela contribuição de outros filmes brasileiros sobre o mesmo tema, como “Dia de Festa” (2006) e “Estamos Juntos” (2011), de Toni Venturi, e “À Margem do Concreto” (2005), de Evaldo Mocarzel. A recepção aqui foi traduzida em forma de discussão sobre o lugar dos refugiados no Brasil. E, em paralelo, houve muito riso, catártico, nas peripécias de Apolo, cantando “música de corno” e bebendo com os gringos.
Descrito aqui como um “poema da geopolítica”, “Era o Hotel Cambridge” se candidata à Eternidade de debates enquanto o expatriamento e o desterro forem temas do mundo e da Economia. Há um momento e outro de um didatismo exagerado e um ou outro clichês mas nada que comprometa o vigor sensível e a relevância social desta produção com fôlego de trem-bala e com a retidão delicada de haical. Sua entrada na www é mais um acerto da MUBI na gestão de Juliana Barbieri.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.