Era (mais) uma vez Tarantino em Cannes: obra-prima

Era (mais) uma vez Tarantino em Cannes: obra-prima

Rodrigo Fonseca

21 de maio de 2019 | 20h43

Rodrigo Fonseca
Corações ao Alto na Côte d’Azur, nosso coração está em Quentin Tarantino: “Era uma vez em Hollywood” (“Once upon a time… in Hollywood”) avassala certezas do Festival de Cannes não apenas em relação ao favoritismo de Pedro Almodóvar (e seu belo “Dor e glória”) à Palma de Ouro de 2019, mas também em relação aos códigos mais cimentados da dramaturgia ocidental desde Aristóteles e sua “Poética”. Fala-se de prêmio em muitas categorias, com destaque para Margot Robbie, etérea como a atriz e modelo Sharon Tate (morta em 1969 na lâmina de uma seita chefiada pelo maníaco Charles Mason), e para Leonardo DiCaprio. Ele encarna um astro de TV de séries de faroeste em crise, dado o ocaso de sua fama e do interesse da audiência por bangue-bangue à moda “Bonanza”. Mas o prêmio que DiCaprio pode levar deveria ser dado a Brad Pitt também, em empate: os dois se conjugam em cena. Pitt é Cliff, dublê de cuca fresca que protege o amigo. Tem violência, tem diálogos sabor Royale With Cheese e tem nostalgia. Há um desfile de citação à TV, à publicidade e ao cinema dos anos 1960, com destaque para o cineasta Sergio Cobucci (uma biografia do diretor de “Django” e “Navajo Joe” vai ser lançada na Croisette nesta quinta, por Vincent Jourdan) e o galã Ron Ely, o Tarzan de 1968. Nada que se viu no balneário francês este ano redesenha de tal forma o legado da arte audiovisual como Tarantino faz. É um painel histórico de profunda tristeza, em sua percepção da finitude. Mas há muita ironia (daquela que faz rir) em cena. DiCaprio e Pitt têm uma alquimia precisa.

Além de “Era uma vez em Hollywood”, a disputa de Cannes conferiu nesta terça a divertida comédia com toques de brutalidade “Parasite”, do cultuado diretor sul-coreano Bong Joon Ho (“O hospedeiro”), que evoca muito o ganhador da Palma ddourada e 2018, o japonês “Assunto de família”, só que numa versão torta. No longa nipônico um clã de ladrões criava um vínculo afetivo mesmo praticando atos escusos. No longa de Bong, há também um clã que sobrevive de trambiques. A diferença é que não existem bons sentimentos neles, sobretudo quando se infiltram na vida de um casal rico, tendo que enfrentar a governanta deles. Situações dignas do programa “Os Trapalhões” (1977-1993) se desenrolam na tela, até que o longa descamba para situações violentas, numa espécie de saldo moral. É o segundo filme asiático na competição, tendo sido precedido pelo thriller chinês “The Wild Goose Lake”, de Diao Yinan, cuja maior virtude está nas cenas de ação.

Nas mostras paralelas, a Semana da Crítica viu hoje um excepcional drama da Guatemala, “Nuestras madres”, de César Díaz. Na trama, um antropólogo que pesquisa desaparecidos da guerra civil de seu país tenta buscar o paradeiro de seu pai. Na Quinzena dos Realizadores, um dos mais queridos parceiros de Tarantino, Robert Rodriguez, diretor de “El Mariachi”, ministrou uma concorrida aula de direção e exibiu um trabalho inédito: “Red 11”. Muito se fala, na mostra Seánces Spéciales, da passagem de “Tommaso”, de Abel Ferrara, experimento híbrido (e divertidíssimo) de ficção e documentário, com Willem Dafoe na pele de um feérico professor de arte dramática em Roma.

Cannes chega ao fim neste sábado, com a entrega de prêmios da seleção oficial e a projeção da comédia motivacional “Hors norme”, de Éric Toledano e Olivier Nakache, mesma dupla do fenômeno “Intocáveis” (2011). Nesta sexta serão entregues os troféus da seção Un Certain Regard, que tem “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, rodado no Rio por Karim Aïnouz, como seu principal concorrentes, tendo sido elogiado nas mais diversas línguas. Estima-se que a atriz Fernanda Montenegro, um dos destaques do elenco de Karim, possa sair premiada na Croisette, 21 anos depois da consagração mundial de “Central do Brasil”.