Epifania visual, ‘Silêncio’ é o ‘Deus e o Diabo…’ de Scorsese

Epifania visual, ‘Silêncio’ é o ‘Deus e o Diabo…’ de Scorsese

Rodrigo Fonseca

06 Janeiro 2017 | 21h59

Com a melhor fotografia da carreira do midas Rodrigo Prieto,

Com a melhor fotografia da carreira do midas Rodrigo Prieto, “Silêncio” é o momento Glauber Rocha de Scorsese: um épico sobre cultura e barbárie

RODRIGO FONSECA
Cordeiro de Deus, aquele que tira os pecados do mundo, é, há décadas, o motor imóvel da obra de Martin Charles Scorsese, desenhando sua obsessão pelo sacrifício como um gesto restaurador das relações entre os homens – mesmo relações com base em mecanismos sociológicos, tipo o crime. É do sangue derramado de Travis Brickle que a Nova York de Taxi Driver (1976) pode sair do umbral da marginalidade mais rasteira. É da imolação da amizade de Henry Hill (Ray Liotta) pelos parceiros de máfia que o educaram que a célula mafiosa de Os Bons Companheiros (1990) se vê forçada a se redesenhar. É a doação de um menino a um universo de prestidigitação que permite que Georges Méliès sai das sombras e assuma seu lugar de gênio do cinema em A Invenção de Hugo Cabret (2011). Por isso, não poderia se esperar outra coisa que não fosse um herói sacrificante de Silêncio, uma epifania em forma de filme que Scorsese nos dá de presente de sua imersão no romance homônimo do Graham Greene japonês: o escritor Shûzaku Endô. É, talvez, o grande filme de 2016 (pois chegou aos EUA no Natal) e o primeiro candidato a obra-prima a passar pelo circuito brasileiro em 2017: chega aqui em fevereiro. E tem alguma coisa nele de O Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), a Bíblia da fé glauberiana, do qual o realizador de Os Infiltrados (2006) é fã: há algo de Os Sertões de Glauber Rocha no Japão para os um jesuíta (Andrew Garfield, impecável) vai buscar seu mestre perdido entre uma horda de guerreiros que condena católicos a um mar de torturas (literalmente).

O padre Rodrigues (Andrew Garfield) vai pedir a bênção à relativização

O padre Rodrigues (Andrew Garfield) vai pedir a bênção à relativização na trama

Pela lógica, um cordeiro será oferecido, no temor ou no tremor, ao Absoluto, de modo que a natureza (aquela com “n” minúsculo, a dos homens, da cultura) se harmonize no que pode ser chamado de um tratado de antropologia de 2h40m da mais esplendorosa fotografia que o mexicano Rodrigo Prieto já clicou, ao recriar um século XVII a partir de um orçamento de US$ 50 milhões. Fruto de um trabalho de imersão de 25 anos, tempo dedicado pelo cineasta à busca para viabilizar o projeto de filmar Endô, esta produção carrega algo de perpétuo (ou seja, de autoral) na obra de Scorsese: o interesse do diretor pelo perpétuo, pela permanência de certos valores, sobretudo a lealdade, palavra que corre sua obra tanto em ficções como Cassino (1994) quanto em documentários como Shine a Light (2008), sobre a liga dos Rolling Stones. Se existe algo que o vento não enverga, que o dinheiro não compra, que o sexo não ultrapassa é a condição de ser leal, seja a um amigo (A Cor do Dinheiro), a uma causa (Gangues de Nova York), a um amor (A Era da Inocência) ou, neste caso, a Deus. Ser leal envolve sacrifício. E o padre Rodrigues (Garfield) vai, a duras penas, aprender uma lição que Scorsese já nos dera em A Última Tentação de Cristo (1988), ao se debruçar sobre o mito de Judas Iscariotes: nos desígnios de Deus, o traidor algumas vezes é a peça central da fundação da Fé como um bem maior… e coletivo.

 

Não por acaso, no roteiro de Jay Cocks, a relativização será a linguagem imperial: cada certeza que Rodrigues carrega (e nós também) desloca-se para um outro ponto de vista, não um em que ele deva abandonar suas convicções, mas sim um em que ele tenha de aprender a exercitar seus credos de novas formas – mais e melhores formas, melhores para o Outro… e para Deus. Percebe-se à certa altura que não se trata de um filme sobre o exercício da fé, e sim um filme sobre arrogância. A arrogância institucionalizada. Aprende-se isso não dos padres heróicos – a princípio – mas das bestas feras que os acossam de katanas na mão. Os guerreiros japoneses, vistos numa primeira conexão como animais selvagens, vão nos ensinar, de uma maneira por vezes debochada – como nos prova o genial senhor da guerra vivido por Issei Ogata, na atuação mais dionisíaca do filme – que o ódio nipônico pela fé Cristã não é uma rejeição religiosa nem um ato demoníaco. O repúdio deles é uma forma de prevenção a uma cultura chegada, como eles dizem, “do Oeste”, do Ocidente, e que ameaça jogar por terra tradições nacionais edificadas ao longo de séculos. Ou seja, a questão é, de novo, o perpétuo. O perpétudo da cultura, frente a invasões bárbaras. Só que os bárbaros, neste caso, não são os quem impunham espadas e lançam. São os que erguem a hóstia aos Céus. É uma lógica que põe o filme de Scorsese lado a lado com Furyo – Em Nome da Honra (1983), de Naguisa Oshima, só que com menos ironia.

O diretor instrui Garfield

O diretor instrui Garfield nos sets

Rodrigues vai pra Ásia ao lado do colega de batina Garrpe (Adam Driver, sempre preciso) para resgatar o sacerdote que os formou, Padre Ferreira, papel feito para que Liam Neeson ganhasse o Oscar que merece desde A Lista de Schindler (1993). Em solo japonês, Ferreira desapareceu, obrigado a cometer um gesto de apostasia, ou seja, de renegar seu credo sob o açoite de seus torturadores. Há lendas de que ele disse “Não!” a Cristo, assumiu uma identidade nipônica, casou-se e abraçou o título do filme pra si, “Silêncio”, como modo de viver sem causar alarde. O périplo dos pastores atrás dele se desenha na tela com a mesma grandilouquência que a busca de Martin Sheen por Marlon Brando em Apocalypse Now (1979). A dimensão messiânica do objeto buscado pelos heróis (ou anti-heróis) de ambos é a mesma. Mas a loucura aqui, pela natureza oprimida dos pobres japoneses que ousaram se converter a Cristo, lembra mais os miseráveis de Deus e o Diabo… comandados pelo beato negro (Lídio Silva). Rodrigues, em sua crença irredutível e em seu irretrocedível senso de dever, vira um padre Cícero para os olhinhos puxados que oram o Pai Nosso às escondidas.

Uma vez capturados, Rodrigues e Garrpe testemunham toda sorte de horrores, num local que é uma espécie de cinema dos horrores, na frente do qual Scorsese esfola a nossa tolerância à brutalidade. Mas, pouco a pouco, aquela apoteose de insanidades e de torturas vai dando lugar a uma reflexão das mais consistentes sobre o mistério das crenças inqiuebrantáveis. E não são crenças no Divino, mas no próprio Homem, como se dava com o Jesus de Willem Dafoe em A Última Tentação… ou com o paramédico Nicolas Cage no subestimado Vivendo no Limite (1999). Há uma solidez que se desmancha no ar não porque assim rege o marxismo, mas por estratégias de sobrevivência. E a sagrada conjugação do verbo “sobreviver” vira o evangelho machado de sangue deste filme mais próximo do místico do Kenji Mizoguchi de Contos da Lua Vaga (1953) do que da dimensão aventureira de Akira Kurosawa em Os Sete Samurais (1954), embora haja um pouco de cada filme naquele ritualização cinéfila do Oriente.  E é a imagem que fala por si, indomável, já que o roteiro de Cocks é escasso com as palavras. Até com as palavras do Homem. Elas traem, são limitadas e levam ao delírio, como no caso de um diálogo de Rodrigues com o Alto, numa caracterização que lembra Simão do Deserto (1965), de Buñuel, e até Marcelino Pão e Vinho (1955), de Ladislao Vajda.

Absurdamente, Silêncio não foi indicado ao Globo de Ouro, mas pode mudar sua sorte no Oscar, onde seria, ao lado do magistral Moonlight, de Barry Jenkins, o grande filme da festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deste ano – e um dos maiores longas-metragens de Scorsese. Amém, Marty!

Cotação: Excepcional